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Como tudo o mais, conceitos mudam com o tempo. Não se trata da evolução da ideia em si, mas sim do seu entendimento próprio à época. Enquanto uns temas são menos polêmicos, outros nascem e procriam sob a égide da controvérsia; eis o caso da liberdade.

Em um sentido bruto, total e diria até mesmo pleno, a liberdade soa como um conceito inventado por um louco de marca maior. A essência absoluta da liberdade é o caos, o Big Bang em seu momento inicial e único, mais rápido do que o tempo é capaz de medir. Na prática cotidiana, claro, imputamos à liberdade tantos limites que só assim ela é capaz de fazer sentido, trazendo-nos alguma utilidade mesmo que questionável.

Por hora, vamos deixar de lados aquelas típicas polêmicas de academia – tão démodé nas cadeiras das ciências humanas – que insistem em teorizar sobre as diferenças entre liberdade e libertinagem. Há coisas mais urgentes, como a chaleira de água apitando na cozinha. Este átimo de conversa franca se completa na frase genial de Sartre: “O ser humano está condenado a ser livre”. Claro que, quando dita em francês, a frase parece ser muito mais bonita do que é. O que está no cerne da visão do filósofo é o uso não casual do termo “condenado”, justamente associado à ideia de liberdade. Se para um existencialista de plantão a expressão vem a calhar, para nós que desejamos ter um mínimo de intimidade com o metafísico tal assertiva pode cair qual um balde de água gelada num dia de vento sul. Esta é a liberdade de todos os tempos, sempre contextualizada dentro de leis, governos e seus equivalentes. Não há, por enquanto, uma máquina a nos vigiar o pensamento, mas outros aparelhos já ficaram com a fiscalização de quase todo o resto. E, antes das máquinas, as próprias pessoas limitavam e ainda limitam seus iguais por uma outra abstração chamada poder.

No Brasil de 12/07/2017, um juiz condena um ex-presidente da república a nove anos e meio de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. E como os conceitos mudam com o tempo, a própria justiça ou o sistema judiciário em si passam a ser suspeitos numa onda desestabilizadora que parece não ter fim.

Antes a humanidade condenada à liberdade do que a liberdade condenada ao esquecimento.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 13/07/2017.

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