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Não sei se foi por causa do frio, mas encontrei na baixa temperatura um pretexto para rever fotos do meu passado escolar. Pode parecer estranho para alguns com a imaginação virada para o futuro, mas volta e meia me pego sonhando com aqueles dias de estudante, cada vez mais distantes. Vai daí que, ao rever umas fotografias antigas ao lado dos colegas de classe de então, correu–me um segundo frio pelo corpo, como se pudesse estabelecer algum tipo de contato com aqueles dias idos, avisando a mim e a todos que dali em diante a vida traria tantas venturas e desacertos para os quais ninguém precisaria ter medo.

Até a adolescência, fui um aluno de notas boas, nada excepcionais. Tive meus dilemas e dramas pessoais para com os números (até hoje não faço a menor ideia como utilizar um logaritmo em meu benefício), mas passei com razoável tranquilidade nas demais disciplinas. Como a maioria, tive amizades marcantes, daquelas que a gente lembra com saudade e a certeza de que cumprimos nossa parte nessa espécie de contrato social, firmado apenas com abraços e sentimentos de cumplicidade. Os contatos, porém, perderam-se no caminho. Não lamento suas ausências, todavia. Se assim foi, assim teve sua razão de ser.

Curioso mesmo foi entrar num grupo online formado por ex-alunos do meu antigo colégio. Entre fotos de pospostos conhecidos e ilustres estranhos, fiquei com a impressão de que um aluno se repetia em várias imagens, com turmas diferentes e até mesmo distantes no tempo. Clique após clique, foto após foto, lá estava ele, com a expressão idêntica e praticamente a mesma idade, tanto na década de 1980 quanto na seguinte. Minha mente crônica, claro, vislumbrou ali um mote para uma história, quase um thriller surrealista ou uma epopeia mirim baseada em fatos legítimos-ligeiramente-distorcidos. Pareceu-me, sobretudo, que aquele garoto era a Lembrança em si e não exatamente uma pessoa. Ele estava ali como que se certificando da atuação do tempo, um bastião de uma era, posando para as lentes fotográficas apenas com a intenção de ecoar nos dias frios e eternos.

Ondas de nostalgia vêm e vão; já aprendi a lição. Felizmente, não tenho tarefas envolvendo logaritmos para entregar no dia seguinte.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 20/07/2017.

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