“Fico chocado quando vejo alguém comer melancia de qualquer jeito. Ainda ontem presenciei esta desgraça: o sujeito colocou a pobre fruta de pé, deu-lhe um talho de alto a baixo, pegou as duas metades e partiu-as também ao meio, deixando na mesa, numa poça d’água, um triste saldo de quatro pedaços que foram sendo grosseiramente escavados. Nada da poesia que o evento pede. Uma coisa feia, mal-acabada.” 

– Trecho da crônica “Da arte de comer melancia” de Flávio José Cardozo.

Estava relendo essa que é uma das melhores, se não a melhor, crônica do escritor catarinense Flávio José Cardozo. Como não chamar isso de literatura? Não é de hoje que essa questão – crônica: jornalismo ou literatura? – vem à tona. Mas deixemos este embate para outra oportunidade. O fato é que a descrição colocada no início não apenas sintetiza a essência do texto como salienta o efeito único de uma esmerada descrição. Não há como não se envolver com a narrativa.

Ler essa crônica é como mergulhar das lembranças do cotidiano; como não percebemos a miudeza maravilhosa das coisas? A boa descrição faz isso. Nos coloca dentro da cena, como se estivéssemos num jogo ao lado do juiz, mas sem interferir na partida. Descrever é, antes de mais nada, uma forma de dizer ao leitor que somos feito da mesma matéria, somos seres que sentem, ainda que de formas diferentes, o mundo a nosso redor.

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