A tragédia Titus Andronicus é, indubitavelmente, a mais sangrenta peça de Shakespeare. Talvez, supomos, à época de sua feitura, o bardo ainda não teria “pegado” o jeito para o texto trágico. Entretanto, convém ressaltar que a “crueza” das cenas não são meros detalhes estilísticos de um autor em formação. Há, claramente, a sugestão acabada de uma narrativa densa, da qual o leitor ou, à época, a plateia não possuía a menor chance de respiro. Menor ainda é a chance de imaginar um final harmonioso. Deixemos de lado a expressão “final feliz”, pois.

Analisar comparativamente o pensamento ocidental atual com o da Inglaterra do bardo, seria não outra coisa que anacrônismo (ainda que a “ideia” do que somos seja devida em boa parte – talvez, a melhor e mais interessante – ao homem de Stratford).

É de se admitir que as mazelas sociais eram parte do cotidiano da urbe londrina. A capital do reino sofria com as idas e vindas da peste, motivo pelo qual ora os teatros estavam abertos, ora com as portas lacradas, já que eram locais de fácil transmissão da doença. As condições de higiene eram lamentáveis e a violência entre as classes mais desfavorecidas (já àquela época, a grande maioria da população) corria solta. Marlowe, aliás, contemporâneo de Shakespeare, morreu numa simples briga de bar. Isso, sem contar as disputas de poder internas, que visavam destronar a rainha, bem como externas, como a esmagadora vitória sobre a Invencível Armada espanhola.

Não por menos, temos cá hoje a ideia de que o “estômago” inglês elizabetano estava mui preparado para uma trama assim tão sanguinária, com menos recursos visuais, mas ainda assim fazer inveja aos filmes do Quentin Tarantino (dos quais eu, particularmente, vejo muito de Shakespeare, principalmente em Cães de Aluguel).

Trecho (Cena III, ATO V):

(Entram Tito, vestido de cozinheiro, Lavínia com um véu no rosto, o menino Lúcio e outras pessoas. Tito coloca os pratos na mesa.)
TITO — Gracioso imperador, sois mui bem-vindo. Bem-vinda sois, rainha temerosa. Guerreiros godos, salve! Salve, Lúcio! Saúdo a todos. Muito embora seja pobre a comida, há de satisfazer-vos. Começai, por obséquio.
SATURNINO — Qual a causa de vos vestirdes, Andrônico, assim?
TITO — Para ter a certeza de que nada há de faltar para condignamente servirmos Vossa Alteza e a imperatriz.
TAMORA — Meu bondoso Andrônico, muito gratos vos ficamos por isso.
TITO — Vossas Honras realmente o ficariam, se soubessem quanto em meu coração se passa agora. Meu nobre imperador, resolvei-me isto: Teria procedido com acerto o impetuoso Virgínio, ao dar a morte com a própria mão à filha, por ter sido manchada, desonrada e deflorada?
SATURNINO — Sim, Andrônico, com acerto.
TITO — E as vossas razões, grande senhor?
SATURNINO — E que a donzela sobreviver não deveria à própria desonra nem as dores reavivar-lhe.
TITO — Forte razão, possante e decisiva. Exemplo, precedente, penhor vivo para que eu, infeliz, o mesmo faça. Morre, morre, Lavínia, e o teu opróbrio, com ele morre o opróbrio de teu pai. (Mata Lavínia.)
SATURNINO — Bárbaro, desumano, que fizeste?
TITO — Matei quem me deixou sem vista os olhos. Tão desgraçado sou quanto Virginio, e mil razões mais que ele tenho para perpetrar este crime. Já está feito.
SATURNINO — Como! Ela foi violada? Então revela-nos quem foi o autor desse ato.
TITO — Vossa Alteza não quererá comer? Desdenha o invite?
TAMORA — Por que matar o pai a própria filha?
TITO — Não fui eu que a matei, porém Demétrio com Quirão juntamente. Após haverem dela abusado, a lingua lhe cortaram. Eles, apenas, lhe fizeram isso.
SATURNINO — Ide buscá-los; imediatamente! TITO — Ora, ora! Ambos estão naquela torta com que a mãe deles tem-se regalado, comendo, assim, a própria carne que ela mesma engendrou. E certo, é certo; atesta-o a ponta aguda desta minha faca. (Mata Tamora.)
SATURNINO — Morre, louco, por essa ação maldita! (Mata Tito)
LÚCIO — Não pode ver o filho ao pai sangrante, sem que a retribuição dê num instante. (Mata Saturnino. Grande tumulto, O povo se dispersa em confusão. Marco, Lúcio e seus partidários sobem à janela.)

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