Ouço passos ao longe. Não, estão mais perto. Pertinho. Estou sozinho em casa. Nenhum ranger de madeira, tampouco o vento assoviando. Apenas os passos. Pequenos passos. Como os de um boneco ou de uma criança. Abro os olhos. Tateio em busca dos óculos. Felizmente, não estão distantes da minha mão. Ainda não voltei a enxergar porque está tudo escuro. Desde pequeno, só consigo dormir no mais completo breu. Encho meus pulmões de ar. Exalo um frescor quente no ar frio da noite – uso um creme dental singular. Deixo a cama, estico o meu braço e ligo o interruptor.

A imagem se revela. O espanto. O horror. Uma cena para morrer de rir. Na estante dos meus livros, um exemplar está inquieto e olha para mim tão assustado quanto eu narrador. Não consigo identificar a edição. Também pudera: aquela mistura de capa dura, folhas e um corpo vagamente humano como que lhe deturpou a capa. Num átimo de rebeldia imaginativa, penso que suas orelhas de livro podem fazer as vezes das humanas. Quase sorri, mas questiono taxativo:

– Você existe ou só estou imaginando?

O livro para de andar na borda da prateleira. Deduzo que ele estava querendo descer, talvez chegar ao solo e fugir daquele lugar no qual todos os seus semelhantes se encontram quietos, inertes, ansiosos para se aventurar nas palmas das minhas mãos. Ele me responde – ou quase.

– Quero ser lido!

Não entendo de primeira. Ao ver minha expressão duvidosa, ele repete a frase inicial e se prolonga numa ampla explicação.

– Quero ser lido, oras! Estou aqui há anos, aguardando uma oportunidade de minha existência fazer algum sentido… mas nada! Já nem lembro a última vez que você me tirou da estante. Sim, sim, você tira o pó de mim de tempos em tempos. No entanto, sequer me folheou sem outra intenção que não a de procurar por traças! Eu mereço muito mais que isso. Sei que você me encontrou num sebo, mas saiba que sou tão digno quanto os outros. Não queria te acordar. Só decidi mudar de lugar. Percebi que você tem uma prateleira de “livros em uso”, e estava a caminho dali. É o que quero e ninguém há de me impedir.

Noto em seus olhos a fúria dos esquecidos. Decido amainar.

– Hum, certo. Talvez eu tenha sido um tanto injusto com você. Mas preciso que pare com isso agora. Amanhã, tenho um compromisso logo cedo e preciso dormir. Fique onde está que vou ter contigo à noite. Prometo que o lerei, independente de seu conteúdo.

O livro revira os olhos, mas assente como que a contragosto. Firmamos um acordo de cavalheiros, penso eu.

Na manhã seguinte, saio de casa logo cedo. O encontro literário da madrugada não está em meus pensamentos. Faço o que tenho de fazer e volto para casa. Ao entrar na sala, uma revelação: centenas de livros da minha estante desapareceram. Antes mesmo de descobrir o que aconteceu, deduzo que todos eram não lidos. Chego mais perto da mesma prateleira na qual o livro se exaltara comigo. Há um bilhete, escrito com letras de forma – bem típico de um exemplar raro e antigo: “Esta não foi a primeira vez que você prometeu ler um de nós. Sua palavra já não vale mais. Por isso, decidimos ir embora para a biblioteca municipal. Não tente nos reaver. Sem mais. Assinado: Volume único”.

 – Pela primeira vez em minha vida, penso que não se pode confiar totalmente nos livros.

 

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