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Eles terminaram porque já não traziam um para o outro palavras sem compromisso. De um jeito só deles, aceitavam os silêncios como uma necessidade básica, essencial para o convívio diário. Um respiro. Ainda assim, não eram silêncios absolutos ou por falta de assunto. Havia um sentido incontido ali, mesmo que oblíquo ou irracional. Era um não-falar ainda maior que um bem-querer. E até esses silêncios se quebraram ao término de tudo. Não, não era de tudo. Algumas possibilidades se romperam, é bem verdade. Mas não a totalidade de seus dias unidos. Quaisquer que fossem os destinos de ambos, o passado jamais se apagaria por completo. As memórias, os sentimentos, os acontecimentos ficam e ficarão para sempre nalgum lugar dessa coisa chamada existência. Existiram juntos como o farão separados. Cá como lá, a narrativa conjunta e suas versões ainda terão vez quando o historiador desconhecido terminar sua história universal. De longe, continuam a se reconhecer – só não há mais oportunidade para tanto. Os cheiros permanecem iguais apesar dos perfumes que não são os mesmos de antes. Um travesseiro vazio em cada casa; as toalhas com os nomes bordados já não ficam mais umas sobre as outras. Dois. Um. Esquecem aos poucos as rotinas compartilhadas. Sem esbarrão de manhã cedo na hora de escovar os dentes. A escolha da programação televisiva fica mais fácil e menos divertida. Um filme passando de um lado da cidade; noutro canto, uma partida de basquete enche a tevê e alguma sexta-feira vazia. Nos telefones pessoais, só ficou a ausência de contato. Nenhum deles ligará avisando que se atrasou no trânsito; tampouco mandará recados engraçados tão somente para encurtar as distâncias. Distantes como antes de se conhecerem. Já não podem ser mais estranhos ou íntimos. Dividiram seus próprios corpos que, em curtos e prazerosos momentos, formavam uma única entidade carnal. Hoje, mal sabem de si. Terminaram porque tinha de ser; e foi tão sem sentido como quando se conheceram.

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