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Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Charles Dickens e outros tantos romancistas publicaram alguns dos livros mais importantes da humanidade em folhetim, gênero que nasce na França concomitante ao aparecimento da imprensa. Ainda que o talento destes e de outros escritores seja inegável, é preciso ter em mente que a escrita e a consequente publicação em capítulos impressos diária ou semanalmente nos jornais possibilitava ao autor uma relação muito próxima com o público leitor – então, uma parcela muito pequena da sociedade. No Brasil, escritores como José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto, Joaquim Manuel de Macedo e, claro, Machado de Assis tiveram suas obras publicadas primeiramente em folhetim. Foi o que aconteceu com o clássico–mor da literatura realista brasileira Memórias Póstumas de Brás Cubas, que saiu em etapas de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira. Somente em 1881 a obra teve seu lançamento em livro pela Tipografia Nacional, órgão que antecede a Imprensa Nacional. Com sua ironia genuinamente brasileira e salutarmente inspirada por William Shakespeare, a prosa machadiana assimila ainda o vigor da literatura francesa com sua crítica de costumes e análise social forjada na estrutura do romance. O defunto autor (não confunda com um autor defunto) é, em si mesmo, a própria desventura humana, ilusão de uma aristocracia que nunca foi nada além de uma imitação ruim da tradição europeia. Eis o que sobra do país de Machado de Assis: um emplastro que não chegou a ficar pronto. Quiçá o mundo só faça algum sentido para um defunto que já não tem mais a responsabilidade de se preocupar com o legado de nossa miséria.

MEMORIAS

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