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Quando saíram as primeiras críticas sobre Leite Derramado de Chico Buarque, frequentemente compararam-no ao texto de Machado de Assis. As semelhanças do tom íntimo e pessoal com Memórias Póstumas de Brás Cubas, bem como a narrativa em primeira pessoa que revê a própria vida propositadamente de forma desordenada podem até mesmo convidar à comparação, ainda que os textos em si caminhem por vias inteiramente distintas. Brás Cubas é o cínico bon vivant, irônico para com a vida, aquele que não perdoa coxa e bela, que reclama daquela que o amou durante quinze meses e onze contos de réis. Já Eulálio d’Assumpção regozija-se de seu passado nobre, condescendente com a história do país e com as tramas particulares que então lhe confundem a memória; a mente a lhe pregar peças constantemente – coisa que para um morto feito Cubas é praticamente impossível. Brás Cubas é um defunto autor, ciente do que viveu e de como percebeu o mundo; Eulálio é um enfermo centenário a lidar com o peso da idade e que sente particularmente os inglórios dias idos e vividos. Ambos, porém, são aristocratas que se inserem num mundo de aparências e pequenas vaidades, coisa “suptil” como o “p” d’Assumpção. Não obstante a contemporaneidade de Leite Derramado, Chico Buarque também se aproveita de uma estrutura coloquial, posto que seu alter ego literário está a falar com aqueles a seu redor, seja sua filha, as enfermeiras ou outros funcionários do hospital no qual se encontra. Há uma distância salutar entre Chico Buarque e Machado de Assis evidenciada nas respectivas épocas de seus escritos. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi publicado em livro no ano de 1881, oito anos antes da Proclamação da República, quando o realismo despertava nas artes brasileiras. Já Leite Derramado está mergulhado na mal chamada pós-modernidade (ou modernidade líquida), quando tudo se torna tão duvidoso quanto a memória revivida por um ancião.

leitederra

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