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Tudo começou com enormes cartões perfurados e molengas e, depois, disquetes menores, magnéticos e duros. Dizem que os primeiros foram uma tragédia e, os segundos, uma farsa. Pra mim tanto faz. Eu curto o bagulho de qualquer jeito, sabe? Nada disso importa. Como qualquer ser humano, quero amar e ser amado – mas se for com uma feiticeira de limpar carpetes, melhor ainda. Só quero sentir a vibração do sintonizador, nas ondas do rádio. Doutor, sou fissurado em tecnologias obsoletas; o que eu faço?

Essa tara pelo antiquado não é coisa desse mundo. Não é direito. Não é de Deus. Isto foi o que me disseram na clínica, depois que tentei demonstrar com quantos toques por minuto se faz um bom curso de datilografia. Antes, quando quis acender um pouco de tinta de impressora matricial para fumar na ponta do tubo de imagem da televisão, ainda na sala de espera, quase fui defenestrado. Depois da consulta, fui diagnosticado com a síndrome do apego mórbido, só que com coisas – não pessoas. Na boa, acho que meu médico é enrustido e adora um filme dublado pela AIC São Paulo.

Ou vão me dizer que gente sã nunca enrolou uma fita cassete com lápis? Nunca se amarraram numa máquina de escrever elétrica? Nunca mandaram revelar um filme fotográfico; nunca tiveram ficha na locadora? Estás brincando comigo, meu chapa, se me disser que você também nunca assinou a revista Nosso Amiguinho, nunca leu a “Seleções” no banheiro, nem mesmo iniciou um curso por correspondência no Instituto Universal Brasileiro!

Mas tudo bem, eu garanto que, no mínimo uma carta pelo correio já foi enviada para você ou escrita em seu nome. O quê? Não? Nem teve que deixar o motor do carro à álcool esquentar por 5 ou 10 minutos antes de poder sair dirigindo? E a carteirinha da Biblioteca Pública, onde entra nessa história? Hum, sei. Compreendo. Posso bater um fio pro teu telefone fixo, camarada? Assim podemos discutir a questão. Ou prefere que eu ligue no Disque Amizade? Podemos combinar um horário. Aguenta só um minuto que vou comprar ficha pro orelhão.

Ah, então o que você afirma é que todos passamos por essas situações em algum momento, mas que manter a cabeça fixada ao passado não pode gerar bons dividendos. Temos que desenrolar essa transa aí, compreendes? O que você sugere, então? Um encontro pessoal? Posso pagar a passagem do ônibus com um vale transporte de papel? Como assim? Ora, isso é um vício, não posso largar da noite para o dia. Meu carburador não aguenta sem esse combustível!

Você é mulher mesmo? Não tente me enganar…. Tecla de onde? Utiliza o mIRC com que frequência? Qual o teu nick? Estou louco pra te ver, e acho que só o teu amor pode me salvar dessa fissura por tudo que é das antigas. Um lance novo. Que carimbe meu passaporte para o futuro, e me faça dar adeus ao passado de entrega total ao espírito vintage. Qual a sua idade? Tens mais de 40, espero. Gostas, assim como eu, de esperar ansiosamente pelo horário do programa Comando da Madrugada? Tipo assim, podemos assistir on demand no You Tube, ela respondeu. Super retrofuturista, não acha?

Agora que já conhece meu passado obscuro com fitas Betamax e gravação pirata de programas da TV a Cabo, que tal começarmos algo diferente? Sempre teremos os anos 80, mas agora o país está em guerra e precisa de nós. Smartphones não são do meu ramo, mas ela disse que vai invadir minha praia mesmo assim. Reconheço seus sinais apaixonados de telex. O telegrama tem seu timbre. E, quando o grande encontro entre nós dois se der, numa piscina de clube ou no grande cartório das ilusões, tenham certeza que minha filmadora TekPix estará pronta para gravar tudo!

k7

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog ou siga-o no  WattpadInstagramLinkedIn e Facebook!