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O dia 3 de janeiro de 1988, um domingo, foi uma data estranha na casa de Edward Lindqvist, um recluso bibliotecário de Estocolmo. Às 10h da manhã o dia mal havia clareado. Em sua sala de estar, que também fazia o papel de um pequeno escritório, a lareira estalava sob o fogo, que era suficiente para aquecer a casa inteira. Lindqvist veio lentamente da cozinha segurando uma xícara de café, com as duas mãos. Parou diante da janela, que era o único obstáculo entre o ele e a neve. Tomou um gole e ficou com o olhar perdido no horizonte, com o pensamento atolado em memórias.

Fazia cerca de 1 ano e meio que a grande nuvem radioativa soviética havia chovido de maneira delicada e imprevisível sobre a capital do país escandinavo, durante a primavera. No começo a população não deu muita importância ao fato. Era uma chuva normal, como qualquer outra. Porém, aos poucos, perceberam que havia algo estranho. Não era bem o cheiro. Não era o gosto. Também não era o toque. As pessoas definitivamente não sabiam explicar o que havia de errado. Mas algo não estava certo com aquelas gotas de água que vinham do céu.

De qualquer forma, a chuva passou. As semanas e os meses transcorreram normalmente na Suécia. Depois do pânico inicial, a serenidade voltou a cravar seus dentes afiados sobre o cotidiano. Ninguém mais esperava o fim do mundo. A Terceira Guerra Mundial, caso ocorresse, certamente pouparia o norte da Europa de maiores estragos. E ela parecia uma distopia cada vez mais distante da realidade. O Tratado de Forças Nucleares, entre Reagan e Gorbachev, parecia estar prestes a sair do papel. Os povos caminhavam para a congratulação geral.

Este era o sentimento na sociedade. Mas não para o bibliotecário, contudo. Sua mente borbulhava de pensamentos ácidos agora, principalmente sobre tudo que estava acontecendo no mundo, em seu país e em sua vida. Seu emprego na Biblioteca Municipal, apesar da estabilidade aparente, estava por um fio, devido a sua notória resistência em abandonar a máquina de escrever elétrica e finalmente começar a operar no sistema de informática da instituição – que já estava em uso há 5 anos, mesmo sob o desdém de Edward.

Para contornar a situação –  e os olhares maldosos de Rosa, a gestora de Tecnologia da Informação na repartição pública –  Lindqvist comprou um computador para a sua casa, com o qual estava determinado a aprender a lidar. O modelo era um Commodore Amiga 500, um lançamento recente do mercado, com interface gráfica colorida e simpática, mouse, entrada para disquetes e visual moderno. O técnico da loja havia montado o computador na casa do bibliotecário no dia anterior, e tudo parecia estar funcionando dentro da normalidade, após os primeiros testes. Agora era hora de trabalhar, a todo o vapor.

Ao ligar o aparelho naquela manhã congelante de domingo, a aparência era de normalidade. Edward deixou seu café sobre a mesa e ficou de braços cruzados, em pé, apenas observando a inicialização da máquina digital. Ao fundo, com o canto dos olhos, observou sua antiga máquina analógica – uma máquina de escrever portátil, na verdade, que estava repousando sobre o sofá, aguardando um destino. A Amiga 500 era agora a melhor parceria que o bibliotecário poderia ter, e nada mais iria bloquear o caminho entre ele e o mundo moderno. O lixo obsoleto do passado que tomasse seu rumo, sem Lindqvist.

Todavia, após o ligamento, o aparelho da Commodore começou a emitir sinais estranhos. Algo não estava bem em suas engrenagens. O Sistema Operacional parecia fora de uso. O bibliotecário sentou na cadeira. Mexeu no mouse diversas vezes. O cursor na tela seguia suas ordens, porém, ao clicar em qualquer janela, nada acontecia. Sons de outro planeta eram perceptíveis dentro da Amiga, e Lindqvist encostou seus ouvidos no hardware, para escutar melhor. Era como se dentro da maquinaria pesada houvesse um ser distante, diminuto e trancado em um mundo à parte. Um gênio da lâmpada pedindo socorro, devorado por partículas subatômicas de silício e nuvens eletrônicas de solidão.

O que estava acontecendo com ele?

Mas ele quem?

O teclado. Talvez o problema estivesse apenas no mouse, e o teclado do Commodore pudesse oferecer soluções práticas para a falta de sintonia entre homem e tecnologia. Se Edward sentia-se à vontade diante de uma máquina de escrever, das teclas mecânicas de um aparelho dedicado unicamente à arte da escrita, era bem possível que o teclado, que flutuava diante de si com um brilho rosa metálico, fosse o portador de palavras mais amigáveis que aquelas recitadas no interior do Amiga, como numa oração ao Deus ex Machina.

Era isso. Iria colocar sua teoria à prova. Sorriu. Com movimentos lentos, esticou seus braços para o alto e agarrou o teclado no ar. Recolocou o periférico sobre a mesinha. Permaneceu alguns minutos olhando para o monitor, ainda indeciso, pensando no que escrever. Seus globos oculares incharam e estouraram para fora de suas órbitas. Estalou os dedos, como se estivesse se preparando para tocar piano. Na tela diante de si, a partitura de bits e bytes fez uma rolagem infinita, através dos programas e aplicativos mais avançados, utilizando-se de toda a potência dos 7 MHz e 512 KB de RAM. Tanta abstração para objetivos tão singelos.

Pare!

Dentro do Commodore algo gritou com força. Uma voz robótica suave, porém imperativamente programada. Soava mais como alguns apitos aleatórios, mas Lindqvist percebeu claramente o comando, em sua linguagem materna, a Assembly. Pare. O que sua Amiga estava querendo dizer com isto? Ele não deveria avançar rumo ao domínio da informática? Não era esse seu propósito como homem de fin de siècle? Para onde ir agora, se nem mesmo os deuses do Vale do Silício permitiam sua entrada no paraíso do código binário, onde lutaria eternamente pela atenção de Rosa, sua amada gestora de TI da Biblioteca Municipal?

Quem é você? – perguntou Edward, ousadamente.

Eu sou você – apitou a máquina, que tinha cara de poucos amigos.

Eu sou você. Que raio de algoritmo dava uma resposta desta? Onde os programadores do AmigaOS estavam com o processador quando escreveram esse código? Eu sou você. Homem-Máquina. Homem-Amiga. Homem dentro da amiga. Não. Não era possível. Sim… A gestora de TI. Isto era obra dela, estava cristalino como neve sobre as flores. O que a Amiga ela estava pensando?

O que Rosa queria comigo? Encontros furtivos no fundo da seção de Literatura Russa? Carícias não programadas no setor de livros raros? Ou, quem sabe, uma mãozinha providencial para desembaralhar um punhado de fios soltos em sua cabeça? O coração do bibliotecário Edward, entusiasta adormecido das Ciências da Informação, dava fortes sinais de travamento e erro no sistema. Uma xícara de café. Ela lhe acordaria do mergulho profundo nos mares revoltos dos dados. Devolveria-lhe, como uma náufrago da espuma de zeros e uns, às praias do sujeito homem.

Altivo, indomável, animalesco.

Sem dor. Sem periféricos de entrada ou saída. Apenas homem mente. Somente máquina sente.

Deus. Amiga. Rosa. Metálica. Eu.

Aqui estou eu.

***

C:\>encerra o computador.exe

***

Obituário:

Edward Lindqvist. Solteiro. 36 anos. Foi encontrado congelado sobre o teclado, com o fogo interno apagado; uma rosa na mão e o rosto sujo de café seco. Morreu de amor por sua Amiga. Não deixou programas abertos.

 

commodore

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog ou siga-o no  WattpadInstagramLinkedIn e Facebook!