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Uma metrópole qualquer. Tarde. Junho de 2005. Uma rua antiga e decadente do centro da cidade.

Entrei num daqueles sebos escondidos, de gosto duvidoso, que se espremem em meio ao caos urbano, entre uma rede de fast food e uma loja de telefonia celular. As coisas tinham um aspecto cinza e ao mesmo tempo colorido nessa época do ano, não sei se por causa das folhas de árvore desbotadas e levadas pelo vento, ou devido ao arco-íris de outdoors fazendo sombra para as janelas do velho casario.

De qualquer forma, lembro que meu rosto parecia pesado, com olhos que insistiam em permanecer fixados no chão, ainda tentando recordar das folhas amarelas de árvore, como se de algum modo elas pudessem ser trazidas, flutuando, até aquele sebo. Quem sabe uma dessas tais folhas caísse sobre um certo livro que salvaria minha vida, ou perto de um disco de vinil menosprezado que fizesse meu coração tocar.

Finalmente levantei os olhos e percebi o espaço, as prateleiras repletas de livros e revistas antigas, a pouca luz, alguns cantos interessantes. Dei dois ou três passos indecisos ao redor do local, a mão e os dedos se arrastando pelas capas e seções mais distantes. Podia quase ouvir uma dessas cantoras de jazz no cheiro doce das publicações bem arranjadas. Os poetas ultra-românticos brindavam e cantarolavam ao lado dos futuristas, os quadrinhos festejavam com revistas pornográficas: tudo me olhando como se eu fosse talvez um tipo de anomalia.

Enfim. Começa a chover lá fora, e eu ainda nem sei bem o que faço ali. Havia perdido meu guarda-chuva semanas atrás, quem sabe era isso que eu procurava lá dentro. Volto a olhar pro chão, talvez estivesse ali, em algum lugar, sentindo minha falta. Não o vejo, e uma daquelas folhas amareladas das árvores entrou no sebo, assim com tudo, quase que por vontade própria, já meio molhada, já meio rasgada, já meio cansada.

Ela ficou ali parada um instante, junto à entrada; não me indicava nem a seção de filosofia existencialista nem a de ficção. Um par de tênis entra na loja e pisa sobre a tal folha, sem percebê-la: era um Adidas. Levantei mais uma vez os olhos: era uma garota.

A garota parecia confusa, os cabelos curtos e molhados, uma jaquetinha jeans azul e uma saia preta. Fiquei atônito, ela tentava se secar. Corria as mãos pelos cabelos pretos e o rosto branco, eu tentava decifrá-la. Devia estar em comunidades do Orkut como “Eu amo Franz Ferdinand”, “Adoro cinema europeu” ou “Casarei de All Star”. Mas isso eram conjecturas de uma mente em convulsão, numa época ainda incompreensível para seus contemporâneos.

Não sabia se deveria me aproximar. Talvez ela estivesse com meu guarda-chuva, e estivesse ali para entregá-lo e me convidar pra caminhar sobre as poças de água junto às calçadas. Fiquei por um bom tempo parado lá no fundo do velho sebo, quase na penumbra, apenas observando e tentando entender como aquela garota parecia tão colorida, naquele lugar desbotado, quanto os outdoors na rua. Ela parou diante da prateleira que carregava os livros de História, e parecia feliz folheando um deles. Naquele momento, comecei a dar alguns passos vacilantes em direção a ela.

Um passo, dois, três, olhando para o chão. Como esse chão é bonito, todo quadriculado. No quarto ou quinto passo, sem levantar os olhos, percebo que ela devolve o tal livro e sai porta afora, quase que com pressa, quase que sem vontade. Não sei ao certo se ela me viu ou não, fato é que a chuva havia diminuído um pouco. Fui para mais perto da porta de entrada. Tentei alcançá-la com os olhos, mas uma das esquinas da antiga rua já a tinha levado embora para sempre.

Olhos no chão. Folha amarelada de árvore com marcas de tênis. Sebo. Uma metrópole sombria. Noite.

> Esta postagem foi uma colaboração do escritor Tiago Masutti. Para conferir outros conteúdos deste autor, confira seu blog ou siga-o no  WattpadInstagramLinkedIn e Facebook!

Sebo e outros

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