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Novas tecnologias sempre são um desafio. Estabelecer limites, parâmetros, regras gerais, uma ética própria… nunca é um caminho fácil. Com o jornalismo impresso, as lógicas antigas foram colocadas pelo avesso quando da chegada massiva da internet. A mesma comodidade que não te faz sair de casa e matou as videlocadoras também inibe a compra espontânea da mídia impressa. Revistas em circulação há décadas desapareceram. Jornais de papel migraram para os sites. A competição online é maior, mas o fluxo das informações está inequivocamente ligado à força do capital – como todos os negócios. Ainda que alguns se vejam como super-heróis disfarçados, o jornalista e a jornalista são profissionais como quaisquer outros. Sujeitos aos mesmos vícios e qualidades, dilemas éticos e financeiros, sejam empregados ou empregadores. De modo geral, a questão dos jornais diários parece, de longe, a que chama mais atenção. Desde sempre, o jornalismo diário tem sobre si a foice do tempo, ceifando o aprofundamento que se faz tão necessário quanto maior a complexidade do tema. As duas últimas décadas do século XX e a as duas primeiras do XXI como que aprofundaram a crise da produção. Ora por ter adversários com mais recursos (a televisão, pois), ora por lidar com a onipresença do virtual. Tudo isso aconteceu, essencialmente, nos jornais bancados por grandes empresas e, portanto, amarrados às linhas editoriais que quase sempre privilegiam uma elite cheia de si. Nesse ambiente, alguns poucos excelentes profissionais se destacaram, evidentemente. Ainda assim, quem ousaria bater de frente com a política editorial dos patrões? Daí que o jornalismo é um negócio, com interesses próprios. O que não é necessariamente ruim, desde que o leitor saiba o que está comprando. E há a questão das verbas governamentais, distribuídas majoritariamente entre os veículos mais ricos justamente para manter o apoio institucional que um país tão desigual quanto o Brasil impõe. Nesse ínterim, coexistem os jornais de bairro, em sua maioria trabalhando por migalhas de prefeituras ou governos estaduais, dispostos a quase tudo para manter a circulação (que tem muito mais apelo à comunidade próxima do que um jornalão a resenhar o país e o mundo) e pagar as contas. Tudo, mas tudo mesmo, sempre esteve ligado à forma e ao conteúdo – sobretudo nas ciências sociais que lidam com objetividades cada vez mais diluídas num universo de ideias que aceita tudo. Não haverá jornalismo de qualidade sem talento, sem universidades e professores comprometidos com um sistema educacional plural e que exijam do aluno a não-conformidade. É preciso pensar e acreditar que o leitor tem esta mesma capacidade de, humildemente, saber-se ciente de si e dos outros. O Estado também precisa fazer a sua parte, apostando numa mídia muito mais variada, com pequenos núcleos espalhados por todo o país empoderando as comunidades locais, investindo na própria mídia institucional gerida por conselhos da sociedade civil, para fugir do autoritarismo que sempre atrai os que têm a caneta na mão. O jornalismo precisa voltar a fazer sentido se quiser continuar relevante.