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Todo mundo sofre de uma dor que tem mais a ver com o tempo do que com todo o resto. Não é a velhice dos ossos, tampouco o cansaço das ideias que não se locupletam. Às vezes, a única opção sustentável parece ser a fuga… e tanto melhor se esta acontece nas extemporâneas cidades europeias, como faz o documentarista David Locke com sua nova identidade neste Profissão: Repórter (1975), de Michelangelo Antonioni.

Inserido na mesma fase de Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), há em Profissão: Repórter aquela vaga introspecção da alta classe, apresentada com a mesma humildade de quem precisa de poucos diálogos. Tampouco existe economia de sustentações elementares. Como no estúdio fotográfico em Blow-Up, aqui também se deflagra um profundo encontro de espaços-limites. Mas ao invés de portas e mezaninos, temos o deserto vazio que se estende até sua caminhonete ficar atolada na areia – eis a revolta por um fim.

A dor do tempo não se esvai quando Locke (Jack Nicholson, atuando de modo surpreendentemente leve) assume a identidade do traficante de armas David Robertson. E pouco interessa a quem as armas beneficiarão, porque as consequências já estão estabelecidas no momento em que o passado está documentado. Antonioni, também ele um diretor de documentários, não se faz de rogado ao tratar a profissão do jornalista com certo desdém. As pessoas entrevistadas outrora por Locke fazem-no de um simples reprodutor de ideias pré-concebidas, numa busca quase desesperada por algum sentido. Quando o entrevistado lhe aponta que as perguntas dizem muito mais sobre o entrevistador do que as respostas poderão explicar a respeito do entrevistado, a câmera se volta para Locke, inquirindo-lhe sem esperar verdades outras.

A fuga irreversível culmina no encontro do jornalista com a garota interpretada por Maria Schneider, como que reprisando sugestivamente sua personagem em Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci. Mas Antonioni não se deixa fascinar tanto como Bertolucci, propiciando o idealismo jornalístico para a garota sem nome, esta sim a única interessada em respostas, independente do risco inerente a todo conhecimento.

Ao descobrir que do tempo só existe a companhia, David Locke / David Robertson já não é qualquer um dos dois. Sobram apenas seus documentos, revelando muito mais sobre nós, espectadores, do que sobre a própria obra de Antonioni. E esta é uma dor a qual fazemos questão de não fugir, não importa o quanto possa doer.

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