À eternidade

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Ultimamente, tenho desconfiado bastante dos ídolos. Não por questões morais dos indivíduos em si, mas por entender que a fragilidade se esconde até no mais valente dos heróis. Por outro lado, talvez a desconfiança de fato deva pairar naqueles que confiam desesperadamente em seus ídolos. Em última instância, ninguém nos salvará – salvo nós mesmos. Mas essa desconfiança não é um sentimento impulsivo e impensado. Ao contrário, penso que seja resultado de muitas decepções. Afinal, falsos profetas existem desde sempre.

Ainda assim, ter um ídolo ou vários não é necessariamente um problema, tampouco uma questão ética ou moral. A inspiração, por exemplo, é um fruto quase sempre positivo do legado dos ídolos. Reproduzimos suas falas, refazemos seus gestos e encontramos assim a satisfação de um bem maior que nos acostumamos a chamar de exemplo. E também somos exemplos para alguém. Sempre. No trabalho, na família, na escola: muitos olham para nós buscando alguma nuance que lhes possa trazer algo, mesmo que de modo inconsciente. Até nossos rivais nos ensinam a fazer diferente. O exemplo é a forma mais antiga de aprender.

Entrementes, aprendemos com os ídolos lhes dando uma relevância muitas vezes demasiada. Mas tudo bem. Não temos réguas ou equivalentes para medir o entusiasmo e a fascinação. Além do mais, quando somos encantados por algo ou alguém, deixamos a razão de lado porque sem ela tudo fica mais divertido. E merecemos curtir um pouco todas as possibilidades – com prudência, claro. Exagerar é bom, mas tem seu preço. E os ídolos de multidões estão cansados de saber disso.

Escrevi sobre ídolos para chegar, enfim, naqueles que se foram. A tragédia do voo 2933 que tirou a vida de mais de 70 pessoas levou consigo muitos ídolos no dia 28/11/2016. E não foram apenas aqueles do esporte, ligados à delegação da Chapecoense ou dos veículos de imprensa que iriam cobrir a partida do time pela Copa Sul-Americana. Estes, principalmente os jogadores, eram ídolos de milhares e se tornaram lendas para milhões. Mas como todas as vidas são essencialmente iguais, todas as mortes representam as partidas de ídolos – para um pai, um filho, um amigo, um amor…

Desconfio dos ídolos, mas não lhes tiro a importância que tiveram em vida. E se todos podem ser ídolos, desconfio que todos abraçarão a eternidade.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 01/12/2016.

O primeiro suspiro

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Há por aí uma sensação incômoda, como se tudo fosse oito ou oitenta, como se luz e trevas fossem caminhos únicos e distintos. Bobagem pura que qualquer criança destrói qual uma torre de cartas. Pior ainda é crer num mundo à direita ou à esquerda, mesmo sem ter qualquer compreensão do que tais posicionamentos significam na prática.

O que acontece em grande medida é um esforço demasiado pela picuinha. Quem se atém a não-valores comezinhos perde um tempo precioso num universo irresoluto. Sem se dar conta, muitos insistem na tristeza movidos por uma incapacidade (e falta de incentivo, saliente-se) de verificar o plano geral da própria vida – não a vida de cada um, mas a existência em si, o porquê filosófico de estarmos aqui nesse mundo passando calor ou frio, suando a camisa com uma sabedoria sempre limitada e uma compulsão quase desenfreada pelo conflito, seja numa luta de classes ou na insensível busca pelo poder.

Chega mesmo a ser bobo esse sentimento de autossuficiência que alguns encontram quando estão num estágio melhor. É o rico que se dá por satisfeito quando não tem mais que se preocupar com dinheiro e se esquece do mundo. Ou o político saudado pelo povo, mas cujo coração de pedra deteriorou praticamente todas as suas relações pessoais. Para cada ação, uma reação. Cada vitória implica numa derrota. Escolher é perder a outra opção.

Essa visão de sucesso profissional construída sob a febre do american way of life afasta-nos de uma estrada muito mais feliz porque não condiciona as oportunidades ao trabalho. Logo, talvez estejamos errados em nossas expectativas para com o futuro distante. Transitamos por trabalhos, ideologias e outros subterfúgios da realidade porque acreditamos numa redenção vindoura; como se a aposentadoria nos trouxesse alguma paz, e a verve juvenil fizesse de nós uns nostálgicos de marca maior. Com a idade, aceitamos o destino de tudo porque nos pegamos impotentes ante o mundo. Uns se frustram, outros vão à praia – quando a aposentadoria permite, claro.

As trevas e a luz estão por aí desde o primeiro suspiro humano: aceitá-las como uma única força é um aprendizado que ainda não alcançamos. Mas temos tempo.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 24/11/2016.

A ostra do Sr. Holmes

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Tendo aceitado o convite de um velho amigo, o Sr. Holmes veio aproveitar a primavera numa casa com vista para o mar lá no Ribeirão da Ilha. Para não perturbar o pobre senhorio, vamos manter a identidade desse amigo no anonimato, mas convém dizer que o mesmo não faz parte dessa elite antropofágica que só faz deglutir os próprios bens. Era um sujeito simples, tão cordial que o Sr. Holmes tomou-lhe por melhor amigo tão logo seu companheiro de aventuras, Dr. Watson, foi para um universo indecifrável até mesmo para o mestre das deduções. É assim que a vida faz com quem insiste nela: ceifa-lhe tudo – do pó ao pó.

Assim que colocou os pés na areia, o Sr. Holmes se deu conta de que, pela primeira vez, estava numa praia única e exclusivamente motivado pelo lazer. Claro que noutras oportunidades visitara o mar. No litoral sul da Inglaterra, sentia certo apreço por Brighton, uma cidade que atrai muitos turistas, mesmo não sendo tão fascinante pela qualidade de suas praias. O Ribeirão em nada lembrava Brighton, como Florianópolis pouco se assemelhava à Londres.

Entrementes, Holmes, com sua idade avançada, cansara de Baker Street. Logo após o enterro de Watson, revistou as velhas anotações do doutor e decidiu rever amigos de um tempo que estava deixando de ser lembrança viva para se tornar história. Visitou uma ou duas pessoas no Reino Unido, quando o nome de um brasileiro lhe chamou a atenção. Fora aquele nome pitoresco para um londrino ou fora o Brexit (a saída do Reino Unido da Europa)? Não importava: A decisão de cruzar a oceano já estava tomada.

O anfitrião ilhéu do Sr. Holmes levara-o para comer ostras logo na primeira noite. Ah, e como o convidado ficara fascinado com o sabor da iguaria. Trocaria os milhares de chá que tomara no passado para ter conhecido as ostras muito tempo atrás. Mas nem mesmo o detetive mais brilhante de todos os tempos pode alterar o passado. Assim, contentou-se em pedir mais uma dúzia do molusco gratinado – para dividir com seu amigo, evidentemente. Foi aí que lhe ocorreu a solução de um caso que ficara perdido num canto escuro de sua memória. Lembrara-se, agora, de uma história mais surpreendente que Um Estudo em Vermelho ou O Cão dos Baskervilles. Sim, tinha a resposta na ponta da sua língua. Mas, primeiro, haveria de terminar com as ostras.

– Deliciosas!, exclamou.

Uma dedução elementar.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 17/11/2016.

Trump e nós

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Num sentido mais estrito e histórico do que prático e cultural, a eleição de Donald Trump diz mais sobre as nossas expectativas do que sobre nossas necessidades. Temos, evidentemente, sempre medo de falhar. É o que nos torna humanos. É o que nos faz tomar decisões arriscadas, apenas para fugir de uma inevitabilidade histórica: as mudanças estão aí para nos iludir, fazendo-nos acreditar nessa ideia de progresso. A continuidade é menos conservadora do que a mudança porque ela não mexe com os desejos individuais. E vivemos a Era dos Desejos. Todos querem tudo; e agora. O cotidiano se tornou um ambiente inóspito por si só, principalmente quando se perdem as expectativas de mudanças: mudar de classe, de roupa, de refeição, de tudo que é físico e revela quem queremos parecer.

Justamente por ser um mega-bilionário, Trump se parece mais com a ideia de sucesso do que nosso vizinho feliz. Já não interessa mais a grama verde e retilínea da casa ao lado, quando o que se almeja é não ser o que se é. Talvez este seja o drama de sempre da classe média. Com medo de perder o que tem, vive em angústia num suporte quase cego àqueles que têm demais. E se as oportunidades mínguam, como é próprio do capitalismo de tempos em tempos, o vale tudo ganha sua vez. É quando surgem os preconceitos, a polarização do debate, o ódio que enxerga apenas a si mesmo e nunca além.

Participando ou não das eleições, o cidadão comum olha para seus políticos qual o reflexo de um espelho. E o desafio do candidato é agradar seus eleitores até nas declarações mais pessoais que não dizem respeito ao trato da coisa pública. Na prática, a política é tão distante quanto esse reduzido universo dos bilionários quais Trump e Cia: Gente que perdeu muito dinheiro ao longo dos anos, decretando falências consecutivas, mantendo-se no topo assim mesmo porque cumpria os requisitos desse sistema invisível a quem todos culpam. Reparem que a culpa sempre está no outro, nunca em si mesmo. É o outro que não sabe escolher seus líderes. Mas a piada pronta continua ali: o Outro fala o mesmo de ti. Muitas vezes, utilizando dos mesmos argumentos, da mesma adjetivação barata e rasa. O espelho, de novo. E nunca é fácil olhar para si mesmo. Ainda mais quando a imagem que aparece é a de Donald Trump.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 10/11/2016.

A ponderação

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A crítica, companheira indissociável da opinião, ganhou a graça das pessoas nestes tempos virtuais. O mundo líquido, de relações sinuosas e, paradoxalmente, desconectadas, permite-se aos contratempos de quem precisa ser ouvido, compreendido, aceito – e jamais repreendido. Mas o exercício da crítica, sobretudo quando se pretende assaz e relevante, vai muito além da opinião constante, permanente e urgente sobre tudo. Nenhuma tecnologia ou ferramenta que facilite a divulgação de pontos de vistas, convergentes ou antagônicos, substituirá a necessidade de conhecimento. Ter alguma sabedoria exige esforço, tempo e dedicação, mas vale a pena porque tende a suprimir todas aquelas idiossincrasias das primeiras impressões.

Desde sempre, tudo tem a ver com informação e formação. Essa educação obtida sob a égide da coerência escapa um pouco aos conceitos tradicionais, ainda que seja respaldada pela família, pela academia e pelas instituições que impõem certos limites, mas permitem que o pensamento circule com as rédeas soltas. A viagem da mente será sempre aquela mais próxima da verdade absoluta porque admite que erros e acertos são tão irreais quanto quaisquer outras coisas. Entrementes, nossa vantagem evolutiva fez brotar uma experiência a mais nos corações humanos: o discernimento. Ele pode andar ligeiramente esquecido nestes dias de ideias tão polarizadas, mas ainda existe para mostrar a fragilidade tanto de quem é oito quanto de quem é oitenta.

Não raro, damos com a incapacidade do diálogo quando linhas contraditórias atravessam a mesma encruzilhada. Acontece de forma mais explícita quando das manifestações político-partidárias, mas também se dá com todo o resto. Além da falta de conhecimento das questões mais pertinentes ao tema, foge-se quase de forma inconsciente de uma amiga ilustre chamada ponderação. E é aqui onde os pensamentos se encontram, porque longe dos ponderados ficam aqueles tristes e ressentidos: figuras mal amparadas pelo recalque do que nunca puderam ser. Pense bem: jamais você verá alguém acusando outra pessoa de ponderada, como se fosse um xingamento. O motivo é simples: a ponderação é o fim da estrada; não se pode ir além dela. É o local mais alto de corações tão leves que flutuam, porque até mesmo a gravidade não tem força lá.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/11/2016.

A criança, a amamentação e o universo

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A queda de um copo de vidro desperta a criança dormindo numa das cadeiras do restaurante. É hora da refeição. Para uns, um mais que saboroso buffet de carnes. Para a criança, o mais que necessário leite materno. Na amamentação, a vida e as possibilidades infinitas de quem ainda vai descobrir que essa experiência é única. Quando crescer, talvez a criança guarde-se em sua própria estrutura sentimental e se torne uma existencialista, daquelas que tem carteirinha de clube do Sartre e tudo. Mas não a fará mais ou menos feliz tal destino. Porque o conhecimento há de lhe abrir algumas portas, mas o contato físico, pessoal, afetivo intuirá outras janelas pelas quais será defenestrada, ainda que metaforicamente, do seu ambiente de convicções.

A criança mama com os olhos abertos, perscrutando quem lhe rodeia com sua imaginação em ebulição. Mesmo sem ter aprendido a falar, ela conta para si mesma que está segura no colo da mãe. De tempos em tempos, o pai lhe dá uma espiada e faz alguma careta engraçada. Essa coisa louca, antiga, moderna chamada família lhe traz algum sentido enquanto todo o mundo ainda não foi explorado. Talvez ela se torne uma exploradora. Do tipo que olha para baixo, como os arqueólogos? Ou do tipo que levanta a cabeça em direção às estrelas, como os astrônomos? Teremos que esperar para ver. De algum modo, sua preocupação é menos conceitual e mais urgente, quase efêmera, mas super relevante.

A refeição dos adultos ainda está longe de acabar, mas a da criança parece estar chegando ao fim. Ela fecha os olhos, não se importando com a acirrada e alegre conversa de seus pais e dos amigos deles. É bom tirar um cochilo para manter a juventude em dia. Em alguns anos, ela também descobrirá os amigos. No início, não importarão gostos pessoais, opiniões políticas ou questões do gênero. Haverá somente a brincadeira, o lazer, a diversão de quem teve uma oportunidade dourada numa sociedade cheia de tons acinzentados. Nas amizades que ganhará ou perderá pelo caminho, verá que não foi simples assim para todos. E aprenderá com os erros da imaturidade e o conformismo da sabedoria. Mudará.

Assim que terminou de mamar, pegou no sono outra vez, enquanto a mãe registrou aquele tenro momento com o celular, postando a imagem da criança numa rede social. E todo mundo curtiu.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 27/10/2016.

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Conselhos de heróis

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Anotações retiradas do livro “Manual para os dias de crise sob a ótica da era dourada: como os super-heróis encaram o cotidiano sem surtar (porque, convenhamos, grandes poderes trazem grandes responsabilidades)”:

Em primeiro lugar, exercite-se. Levante algum peso sem forçar muito a coluna. Se não encontrar o Mjölnir (o martelo do Thor), use um cabo de vassoura com baldes de água amarrados às pontas. O corpo é seu principal ambiente de trabalho e lazer. Não o desperdice nas sombras, como fazem os vilões.

Faça o inesperado, principalmente quando até mesmo você se surpreende. Quando ninguém estiver olhando, suba pelas paredes. Na ausência de teias como as do Homem-Aranha, você pode fazer rapel. A aventura faz parte de nossas vidas desde que superamos os outros espermatozóides.

Aceite que você também é um mutante, com todo o respaldo evolutivo que encontramos na própria natureza. Das mais nobres qualidades, a mutação nas espécies é o que as tornam interessantes. Reconhecemo-nos nas diferenças, acolhendo com sobriedade o cabelo branco da jovem Tempestade ou a ótima conservação jovial do velho Wolverine. E, juntos, dizemos não aos preconceituosos.

Mantenha-se bem informado. Veja o caso do Superman, que está sempre com a cabeça nas nuvens, mas nunca perde o foco dos problemas aqui de baixo. A informação das mais variadas e divergentes fontes lhe trará duas habilidades cada vez mais raras: o conhecimento e a ponderação. Use-as sem parcimônia.

Persevere. O Batman não se tornou o maior detetive do mundo sem os anos de dedicação aplicados à sua causa. Nalgum momento, é normal fraquejar (ainda mais se o seu arqui-inimigo for tão insano quanto o Coringa), mas lembre-se que a resiliência sempre está ao alcance dos bem dispostos.

Por último, mas não menos importante, seja verdadeiro consigo mesmo. O laço da verdade que a Mulher-Maravilha aplica em seus adversários poderia ser aposentado se a disposição natural das pessoas fosse para com a honestidade.

Os resultados são garantidos, desde que estes conselhos sejam seguidos à risca.

Contraindicações: máscaras e uniformes coloridos não estão na moda.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/10/2016.

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Casal em crise

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Mergulhados na dor e no ressentimento, aquele casal que hoje nos comove para fins crônicos acreditou que o amor não acabaria jamais. Mas o amor é feito de existência, de opções culturais, de sentimentos que preenchem as lacunas do que somos e do que ansiamos ser. Para além da matéria que compõe os sonhos, o casal (os casais, todos eles) fora urdido também nas agruras dos pesadelos, em devaneios calcados na dura realidade: no fim, a morte, o silêncio, a ausência.

Se eles acreditavam em deus, faziam muito bem. Se não acreditavam, também. Há espaço para ser e não-ser, para a dúvida e a questão última que nos corrói a alma desde quando deixamos os brinquedos de lado e começamos a nos preocupar com a distribuição de renda. Mesmo assim, eles todos teimamos em nos relacionarmos. Enquanto uns se descobrem, outros são apresentados; no fim, tudo é acaso. Para efeito de comparação, a própria vida é o epicentro desta casualidade; e amor ocupa seu cantinho à esquerda de quem quer impressionar o outro. E as primeiras impressões daquele casal – que hoje lamenta a sorte perdida – foram das mais impressionantes. Alguém poderia até mesmo falar em “amor à primeira vista”, mas parece ter sido algo muito mais agudo. Evidentemente, em casos assim não há espaço para aquela polidez cínica de uma personagem de Jane Austen, porque estamos falando da precisão do cupido. Uma flecha certeira untada com o caldo da fruta do pecado original. Que pontaria, pessoal!

Nesses episódios de paixão fulgurante, sempre há espaço para as ações redentoras. E, mesmo completando um ao outro sem deixar margem para a solidão alheia, sentiram na pele aquela epifania de que era possível fazer ainda mais. Cumpriram, ao menos assim pensavam, suas obrigações para com a criação – independentemente do nome que lhe davam. Foi quando tiveram um filho que os eventos receberam o desfecho de que falávamos lá no primeiro parágrafo. A criança não teve culpa alguma pela crise a qual passavam. Mas aquele legado de miséria humana de que falara Machado de Assis bateu forte no peito, bem ali no lado esquerdo e os feriu, mesmo que não aparecesse no eletrocardiograma.

Os papéis do divórcio chegaram ao final da tarde, bem na hora em que o bebê chorava de fome.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/10/2016.

O voto dos sem partido

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Olhem, companheiros e companheiras! Mirem o horizonte eleitoral. Vocês que, assim como eu, eram esperançosos dalguma coerência partidária, frustram-se com o quadro que se apresenta. Como as ideologias sucumbiram ante o peso da modernidade líquida, sobrou-nos um ambiente cada vez mais inóspito. Mas, vá lá, não nos desesperemos. Algumas opções sempre se revelam como oportunas, mesmo que as chances de efetivação sejam remotas.

Ainda que toscamente, superamos os interesses fajutos que dividiam o mundo à esquerda e à direita. E isto se deve ao fato de que a política diária não tem tempo para delongas conceituais. Como tudo no país é urgente, os próprios candidatos se esquivam de interesses partidários porque a coligação superou as expectativas. Eleitores que somos, obsequiamos o pleito sob uma ótica que parece ultrapassada. Coesão, aptidão, disciplina: os políticos querem-nas bem longe. Principalmente quando o marqueteiro garante a simpatia do candidato nos programas de TV.

E por que, então, deveríamos insistir? Até mesmo o parlamentarismo já foi voto vencido quando daquele plebiscito. Vocês ainda se recordam? Menos mal que mantivemos algumas conquistas constitucionais. Até que provem o contrário, o voto ainda nos pertence. Mas, de novo, a questão premente: insistir para quê? Não se trata de um jogo de cartas marcadas, com os partidos cumprindo apenas uma função burocrática? Pode ser. Apesar dos pesares, temos agentes do bem infiltrados neste jogo. E as cartas na mão não são nada ruins.

Nunca é demais lembrar que o sistema político tem o formato de uma pirâmide. A enorme base, que sustenta este projeto de nação, é composta a partir das eleições municipais, que acontecem em outubro próximo. As alianças que forjam vereadores e prefeitos se espalham para os níveis superiores, calçando as esferas estaduais e federal. Em outras palavras, só se faz um governador ou um presidente com o apoio das cidades. Foi assim que se montou a República. E é assim que podemos mudar o país que não nos contempla.

O voto dos sem partido é o voto das massas. O sistema nos moldou a seu contento. Mas não estamos contentes. E talvez ainda não seja agora que o sistema jogará com as nossas leis. Eis o que nos faz insistir.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 29/09/2016.

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Tergiversar, quaisquer

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Ainda que neguem, os autores têm suas palavras preferidas. Algumas são tão atraentes como imãs e, por isso mesmo, voltamos a lhes dar atenção com certa frequência. Este afeto para com determinados vocábulos integra o processo criativo. Se usadas com moderação, estas expressões recorrentes tendem a ilustrar os textos com a benevolência de um pai contando e recontando a mesma história para os filhos antes de dormir.

Tergiversar, por exemplo. Enquanto uns podem depreciar o termo por sua intenção pouco clara, tenho por ele um demasiado sentimento de completude. Fico à deriva se não tergiverso de quando em quando. Os tergiversadores, no seu sentido estrito, são aqueles que fogem do assunto, seja por incompetência em se expressar ou por habilidade em procrastinar. Qual seja a linha que me cabe – e, honestamente, prefiro não pensar no assunto –, suponho que à palavra deveriam caber os louros da poesia. Sim, por que não? Um sujeito versado é aquele que tem muita sapiência nalgum tema específico. Oras, então por que não fomentarmos semelhante interpretação aos tergiversadores? A arte de tergiversar é tão sublime que pode vir sempre acompanhada de um arremate; como o final da piada ou o último ato de um filme do Hitchcock.

Outra palavra que muito me apetece é quaisquer. De antemão, a pergunta: Onde mais estaria o plural se não no meio da palavra? Quaisquer. Aquele “s” malandro, precisamente com quatro letras lhe acompanhando para cada lado. Um toque de mestre. Bendito aquele que ao perceber uma qualidade qualquer soube transformá-la, imortalizando-a com a precisão dos mestres escultores. Sempre que surgirem as variações, quaisquer que sejam, lá teremos esse termo nos induzindo gentilmente à multiplicação e à diversidade. Particularmente, sou grato a essa expressão que me apresenta o multiverso da língua portuguesa em franca expansão. Recebo de “quaisquer” este convite à reinterpretação de que até mesmo o plural tem que ceder.

Muitas outras palavras estão em meu convívio, mas penso que terei novas oportunidades para compartilhar de seus predicados tão logo me recupere de tamanho deslumbramento.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 08/09/2016.

Democracia sem méritos

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Com a fadiga de uma ideia, a culminância da irresponsabilidade. Assim o é para com a democracia, único sistema que está em risco em todos os momentos porque, justamente, é aquele que trabalha com a maior margem entre os erros e os acertos. Para uma república jovem como a brasileira, as mudanças não consentidas pelos votos são igualmente trágicas quanto esperadas. Se à nação escapam ainda as reformas mais elementares e radicais, parece-nos até lógico imputar-lhe historicamente os dados que se seguem: 25 presidentes constam na trajetória republicana, sendo que somente cinco destes foram eleitos pelo voto popular e continuaram no posto até o fim.

Ainda assim, a destituição da presidente Dilma Rousseff no último dia 31/08/2016 revela um sintoma inesperado – pelo menos quando levamos em conta a Constituição de 1988. Trata-se, evidentemente, de um desequilíbrio estrutural que diz respeito ao próprio presidencialismo. Sobretudo, quando levamos em conta as regras jurídicas cada vez mais consideradas no exercício da governança. O cargo de presidente da república em todos os países nos quais este também é o chefe de estado pressupõe um valor simbólico e personalista. O voto é, portanto, direcionado às aptidões pessoais do então candidato, de sua biografia e, no caso de reeleição, de sua experiência teórica e prática. Já quando de seu mandato, o presidente deve ser capaz de equalizar demandas internas (os apoiadores, a coligação, os mercados…) com as conveniências globais (a oposição, os países aliados, a população…). O desequilíbrio surge quando tais demandas e conveniências partem de um pressuposto simplório e anti-democrático: o mérito. Aí está a principal diferença deste processo de impeachment em relação ao de Fernando Collor nos anos 1990. Em todas as etapas, votações e afins, jamais se deixou de lado os aspectos ideológicos – muitas vezes, sobrepujando os políticos. Numa democracia altiva a qual se pretendia pela atual Carta Magna, o direito de opinião é um aspecto relevante do escrutínio político, não seu guia máximo e tampouco deveria ser utilizado como baliza processual. Erros e acertos, conjunturas e popularidade, nada disso importa porque o mérito (ou a falta dele) presidencial em nada tem a ver com a regularidade de seus atos.

É assim que a democracia se abala. É assim que uma ideia chega num clímax de regozijo apenas para aqueles que fraquejam quando a política mais precisa deles. Mas a derrota também integra a história dos grandes vencedores.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 01/09/2016.

A livraria dos amigos

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Ficou sem ler por um longo tempo. E vivia perdendo as disputas de jokenpô. Naquela tarde, em especial, foi como se tivesse recebido um murro! Estava até mesmo mais desconfiado que o Dom Casmurro. Sabia que, em breve, algo extraordinário aconteceria. Nada tão drástico como a morte ou um encontro na sorveteria. Apenas a vida; aquela mesma de sempre a lhe arrancar (da América) – ou seria uma intervenção literária de Iracema, como queria José de Alencar? Seja como for, ficou no continente. E suspirou num alívio contente. Detestava longas travessias, mesmo acompanhado do Messias. E nem era tempo de cruzar o deserto. Com o imponderável, o melhor é ficar por perto.

Quando chegou em casa, deu com uma verdade impossível: um amigo de outros tempos carregando um fardo invisível.

– Morto: Assim foi que lhe descreveram-me da última vez!

– Eu sei. Mas fingi a má sorte como numa jogada de xadrez.

O amigo escapara da guerra, e voltara com uma medalha no peito. Afinal, quem não se encerra numa batalha só faz aumentar o respeito. Escapara do campo inimigo fingindo-se sem vida. Mas que drama humano e que história bem resolvida! Agora, estava à porta. Plantado, como uma horta. Esperava ser bem vindo e não tamanho espanto. Outrora, a informação errada já causara desnecessário pranto.

– Entre, entre. Desculpe-me os modos. Venha e não fique aí fora à toa.

– Trouxe-lhe de presente uma edição autografada de Fernando Pessoa

O bom amigo se lembrara de quanto ambos apreciavam a poesia. Antes de deixar o Velho Mundo, foi a um sebo e encontrou o queria. Um presente raro e inesperado, qual a visita de um amigo reencontrado.

As boas novas não paravam por aí, prestem atenção. O amigo lhe contou que recebera uma pomposa herança, quase uma benção. O velho tio deixara algum ouro guardado e também uma antiga livraria. Estava procurando um parceiro para tocar o empreendimento chamado Shakespeare & Cia.

– Poxa, que notícia! Mas faz tanto tempo que não leio!

– Logo você, que não trocava o livro pela bola no recreio!

– Mesmo assim, caso a proposta seja verdadeira, aceito.

– Não iremos nos arrepender, eu garanto. Será perfeito.

E assim, os velhos amigos de outrora iniciaram aquela que seria a mais espetacular livraria de toda a história humana. Não haveria concorrente à altura, porque não visavam o simples lucro, mas sim o calor que dos livros emana.

Na porta da livraria, há um aviso entalhado na madeira: “Aqui vendemos sonhos a qualquer um que queira”.

Eu acabei de sair de lá, e ainda estou com o exemplar na mão. Mas o título deste livro eu não digo não.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 25/08/2016.

Injusto desporto

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A justiça é um conceito complicado, principalmente porque sua aplicação é cheia de pormenores e dividendos que podem ou não ser desconstruídos a partir de um referencial lógico. Se empregarmos a justiça aos esportes, por exemplo, então obteremos uma espantosa contradição de um sistema imperfeito, que não premia a constância e tampouco dá bola para a qualidade. Mesmo os recordes, por vezes, nada dizem do que foi uma disputa em si. Tudo só faz sentido quando encontramos aqueles ícones acima de quaisquer suspeitas – pelo menos, quando se trata do ambiente desportivo. Quando nos deparamos com campeões soberanos, quais foram Pelé, Nadia Comăneci, Muhammad Ali, Serena Williams, Usain Bolt, Hortência, damos com o extraordinário – e ficamos espantados com nossa própria humanidade. Um ídolo tem sua razão de ser na simplicidade mágica de sua genialidade. São as exceções das regras, claro.

Nestes Jogos Olímpicos do Rio, encontramos esses dramas injustos que nos comovem porque o esporte é igualmente feito com suor e lágrimas – nalguns casos mais extremos, com sangue também. As histórias de guerreiros e guerreiras que perdem por um deslize mínimo, como uma queda num aparelho de ginástica, ou pela superioridade de rivais com um treinamento muito mais eficaz e de longo prazo, como nos gols sofridos em jogo de handebol, deixam um gosto amargo de quem merecia ir mais longe. Mas o mérito é tão ou mais infundado quanto a justiça nestas questões esportivas. Por isso, também, as proezas de desconhecidos nos surpreendem. O atleta de quem nunca ouvimos falar acaba por ganhar a medalha de ouro e se torna visível. Sua ascensão é quase um ato de fé, porque os descrentes passam a ver uma luz no fim do túnel. Seria uma tocha ou apenas o refletor do ginásio poliesportivo? A coerência é deixada de lado, e os heróis de hoje poderão ser os vilões de amanhã se os resultados não aparecerem – ou vice-versa. O mundo é injusto, dizem.

Como acontece com as fases da vida, uma competição passa e se torna memória, registro, história, fato e versão. Conquistas vêm e vão na mesma velocidade em que os jovens migram de um namoro para o outro. E os episódios gloriosos se transformam em um sonho bom que tivemos a oportunidade de compartilhar, seja assistindo tudo pela televisão ou apenas trocando ideias vencedoras ou derrotistas numa conversa descompromissada dentro de um bar. À justiça, cabe um papel ingrato de mediar fatos que não condizem com a razão. O esporte tem mais a ver com as artes e, de tal modo, com o intuitivo e o inexplicável. A falta de medalhas só nos fará ainda maiores. E me parece justo que seja assim.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/08/2016.

Encontros fortuitos e olímpicos

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Talvez tenha sido aquela chama olímpica ou talvez seja por causa de um sentimento oblíquo que ansiava por lhes causar efeito. Eles não sabiam ao certo, e nem mesmo se davam ao trabalho de buscar uma explicação mais intelectualizada. A sensação era, acima de tudo, corpórea.

Os jogos olímpicos recém iniciados. Ele, um atleta das provas de natação; Ela, uma ginasta especialista nas barras assimétricas. Durante a noite, a Vila Olímpica trazia oportunidades indiscutíveis. Deixemos o bom senso de lado, diziam os competidores mais atirados. Provas de tiro ao alvo ou equivalentes também nas relações pessoais, íntimas, intimistas. Eles e elas. Eles e eles. Elas e elas. Às vezes muitos, outras vezes solitários. Encontros fortuitos e olímpicos para vencedores e vencidos. Perdedores? Jamais.

Após a prova de natação, ele secou o corpo, guardou seus pertences e foi ter consigo mesmo próximo à pira olímpica menor que ficara distante do palco principal. Estava classificado para as disputas do dia seguinte e queria curtir sozinho o momento.

Tão logo sua equipe terminou o último giro de aparelhos, a ginasta vestiu um agasalho e se despediu de suas colegas, amigas e parceiras de prova. Intuitivamente, desejou ver de perto a outra pira olímpica (aquela menor), pois a rotina da competição pouco permitia esses momentos típicos dos turistas.

Nadador e ginasta completavam uma volta de 360º ao redor da pira quando deram um com o outro. Identificaram-se como competidores olímpicos ao notarem os arcos coloridos entrelaçados e estampados nos uniformes alheios. Foi como a saída das barras assimétricas cravando nas águas de uma piscina: um movimento impossível até aquele momento. Possível, a partir de então. Os corpos fizeram o que sabiam fazer. Treinaram muito para isso. Eram atletas, afinal!

No dia seguinte, a competição pareceu muito menos difícil. Um sorriso em cada rosto – em muitos rostos espalhados pela Olimpíada. Afinal, não há esporte que não exija corpo e mente em perfeita simetria – diferente das barras nas quais a ginasta era tão hábil. O nadador conseguiu um bom tempo. Outra etapa vencida e a classificação para a disputa final, quando brigaria por uma medalha. Se a prova era de 100 metros livres ou de 200 metros medley, isso pouco vem ao caso. Ela assistiu a prova dele e até lhe trouxe uma bandeira de seu país como presente – ambos competiam por nações de continentes distintos.

Alguns encontros fortuitos depois e já não pensavam mais em ouro, em pódio ou em glória. Queriam mesmo celebrar os corpos. E foram grandes campeões. Ah, se foram.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/08/2016.

O Liberalismo da Pós-Era

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Mais uma vez, o tempo correu frouxo, com algum receio do que poderia acontecer no futuro. Ainda faltavam alguns minutos para que a Bolsa de Valores Mundial encerrasse suas operações, mas Carlos Prudente estava otimista. Sim. Fizera as trocas justas, apertara o cinto onde menos doía, calculara os fatores de risco e não se esquecera das frestas. Tudo no rumo, tudo no prumo. O castelo de cartas não cairia, mesmo naquela última aposta.

No outro lado da cidade, a facilitadora de informações, Anelize Rocha, antevia o futuro com seu dispositivo secreto. O pai, inventor que era, trabalhou naquele aparelho por anos. Juntou ultrapassados equipamentos de telefonia móvel e tablets de tela sensível (tão comuns naqueles distantes dias do início dos anos 2000), dando forma à primeira expressão do futuro projetada em tempo real. Morreu, todavia, antes de aprimorar sua genial invenção, e o dispositivo apelidado de TV Posterior visualizava apenas cinco minutos adiante. Mas Anelize conseguira resultados estupendos, mesmo com tão pouco tempo de margem. Impedira alguns graves acidentes entre carros-planadores, evitara um desastre ecológico na Cidade Redoma e, claro, se beneficiara com uma brilhante carreira de facilitadora de informações, uma das atividades mais relevantes da Pós-Era.

Anelize estava para guardar a TV Posterior em sua bolsa, quando viu a projeção de Carlos Prudente na Bolsa de Valores. Ele estava autorizando uma grande compra de ações, aparentemente comum. Mas, então, o dispositivo demonstrou a sucessão de eventos que levariam à bancarrota toda a economia do planeta. Na Pós-Era, o desenvolvimento econômico havia acabado com as fronteiras entre pessoas físicas, pessoas jurídicas e o próprio estado. As relações financeiras eram sem pudores, abertas, auto-determinadas por uma complicada engenharia social desenvolvida por especialistas liberais pouco antes do final do século XXI. Hoje, porém, o sistema iria ruir. Mais precisamente em cinco minutos, todo o progresso alcançado no último século findaria pelas mãos de um sujeito chamado Prudente. Carlos Prudente.

Anelize disse para si mesma: “Como poderei avisar Carlos, se as comunicações exteriores são proibidas na Bolsa de Valores?”. Ela estava praticamente no extremo oposto da Cidade Redoma, não haveria tempo para chegar lá, mesmo com as vias aéreas totalmente liberadas. Decidiu arriscar. Passou uma falsa informação de ataque virtual na Bolsa. “Se Carlos estiver com o aparelho de mídia expansiva ligado, ele não apostará nas ações”, pensou Rocha. Mas Prudente não viu. E foi o fim do liberalismo da Pós-Era exibido na TV Posterior.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/07/2016.

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Encontros quentes no frio – ou vice-versa

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– Eu acredito ser importante que nossas discussões cheguem a um consenso, não importa o vencedor. O que me incomoda sobremaneira é essa sua aversão ao entendimento, sempre divagando sobre alternativas que nada mais fazem a não ser procrastinar nossos entraves.

– Eu juro que entendo os seus anseios, amor, mas não se trata de procrastinação ou coisa que o valha. Sou menos indeciso que cuidadoso, e zelo por uma tomada de consciência sempre a partir de soluções concretas. Não me interessa a divagação por si mesma. Deixo esse tipo de análise para os filósofos, os artistas ou, até mesmo, para os loucos. Eu sou cá um sujeito simples que não tem medo de perguntas ou respostas.

– Que seja! Mas tudo tem um limite. Esse teu jeito zeloso de ser, inevitavelmente, repercute na nossa qualidade de vida enquanto casal. Tenho comigo de que não precisamos lidar com dúvidas e dramas todos os dias de nossas vidas. É um peso muito grande que não faz o menor sentido carregarmos. O que me dizes?

– Tanto faz. Se é tão importante para você, vá lá e pegue o controle do aquecedor de ar. Honestamente, esse tempo frio não me incomoda.

– Adivinha!

– O que foi?

– Adivinha, oras!

– Nem sei por onde começar.

– Que tal o tempo?

– O tempo?

– É: o tempo. A temperatura, o clima. Comece por aí.

– Sei lá. Vai nevar?

– Não.

– Chover?

– Quanta criatividade, hein!

– Você quem está abusando. E olha que eu ainda estou me esforçando.

– Que seja! Já que você não adivinhou, eu revelo: ganhamos uma viagem para o nordeste. Um final de semana inteirinho com temperaturas beirando os 30 graus! Fomos sorteados com aquele cupom que você preencheu no shopping. Acabaram de me avisar.

– Mas…

– O quê?

– Achei que a gente estava se programando para ver neve! Este é o frio mais intenso dos últimos 100 anos. Talvez seja a grande chance. Pense só em quantas pessoas, quantas gerações passaram por aqui e não viram nada disso.

– A viagem só vale para esse final de semana. Não acredito que você quer trocar o quente pelo frio.

– E você quer trocar um momento histórico por um bronzeado!

– Então esse era seu final de semana inesquecível no nordeste?

– Como eu poderia saber que choveria por três dias seguidos, que o trânsito estaria um caos com a greve dos motoristas de ônibus e as ruas cheias de manifestações políticas? Ora, não me culpe.

– Não o farei. Mas eu bem falei que deveríamos ter analisado melhor as opções. Agora, estamos aqui com um ar condicionado quebrado, num quarto de hotel abafado e com saudades do nosso colchão ortopédico.

– Francamente! Quando nos casamos, não conhecia esse seu lado esquentadinho.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 16/06/2016.

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A (boa) concentração da informação

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Não é de hoje que os monopólios privados são passíveis de questionamentos. No ambiente das mídias, a visibilidade é ainda maior justamente por se tratar de uma esfera social de divulgação. Ainda assim, apesar do que pregam uns mais exaltados, os veículos de comunicação são nada mais do que uma metáfora explícita de tudo aquilo que forma e reforma a sociedade. Para o bem e para o mal, o que importa é o caráter de quem explica, informa, questiona, avalia, repercute e transforma o cotidiano em favor dos aflitos.

Claro que temos de ter regulamentações, até mesmo porque grandes concentrações de renda/poder acabam provocando, inevitavelmente, desigualdades doídas e, em muitos casos, explorações exageradas de uns sobre os outros, de poucos sobre muitos. Eis um papel que os governos estão devendo há tempos.

No entanto, existe um aspecto da concentração da informação que nos é muito aprazível. O processo tecnológico atual nos permite acessar milhões (talvez bilhões ou trilhões) de dados e informações com apenas um clique. Numa era visual como a nossa, um site de hospedagem de vídeos como o Youtube talvez seja o exemplo máximo de como esse agrupamento de fontes possui um viés transformador de modo inédito na história humana.

Não que seja fácil, mas com alguma dedicação e habilidade natural – uns chamariam de dom –, a partir dos vídeos disponíveis na rede um sujeito pode aprender questões de física aplicada ou tocar piano, descobrindo novas singularidades no que diz respeito ao mundo real e ao universo das proposições científicas. Em alguma medida, claro, não existe informação gratuita na internet – e talvez não seja o caso de reivindicar isso ainda, já que estamos momentaneamente nessa coisa chamada de capitalismo enquanto não encontramos nada melhor. O fato é que o acesso está aí; pelo menos em países democraticamente saudáveis. As possibilidades são infinitas, mesmo que as ferramentas de busca privilegiem os dados que mais lhe trazem retorno financeiro.

Com alguns ajustes e aprimoramentos, podemos até mesmo imaginar que um site qual o Youtube será o grande professor das próximas gerações. E não será nada mal ter um acervo gigantesco de conteúdos plurais para que cada um forme sua própria opinião sobre o mundo. Nesse nosso momento político de opiniões apaixonadas e pouco interessantes, uma geração formada com muito embasamento prático e teórico viria a calhar sobremaneira. É preciso destacar que a tecnologia nunca é um fim, mas um meio; e o meio é a mensagem. O upload é por sua conta.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/06/2016.

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Gravidade zero

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Num futuro talvez não tão distante assim, os que sobrarem de nós e dos nossos terão abandonado a Terra seja pela poeira das indústrias ou pela contaminação de mares e rios. Esse planetinha que nós tanto amamos (ainda que não o tenhamos respeitado como deveríamos) será somente uma lembrança nos corações vindouros e talvez a grande ficha cairá sobre eles como um meteorito de alta precisão.

O vácuo do espaço, então, será o abrigo temporário, enquanto os físicos de então buscarão uma forma de contornar a velocidade da luz para ocupar planetas longínquos. A exploração espacial já não terá mais este nome porque fará parte do cotidiano daquelas gerações sobreviventes. E, cá entre nós, na imensidão do cosmos sabemos de pouquíssimos lugares convidativos. O jeito será permanecer protegidos em naves ou estações espaciais que possam garantir a manutenção da espécie e, com sorte, de parte do meio ambiente que nos sustenta.

Assim, surgirão dúvidas sobremaneira relevantes quanto à existência sob o impacto da gravidade zero. Para além das dificuldades normais (como, por exemplo, os objetos caírem para cima), que outros dilemas essa força de atração nos legará?

Vejamos, por exemplo, as relações privadas. Imagine você amando tão próximo às estrelas, mas as cobertas teimando em levitar por conta própria, descobrindo os corpos encaixados. O espaço é frio, lembrem-se disso. Só o calor humano e um aquecedor de ar para dar conta do recado.

Outras impropriedades repercutirão nos esportes. Se haverá algum contratempo para marcar um gol num jogo de futebol, imagine para pontuar numa partida de vôlei, quando a bola obrigatoriamente precisa encostar no chão para a jogada ter fim. Será o caos para os árbitros.

Do esporte, pois, partimos às atividades domésticas. Regar o jardim? Só se a grama estiver no teto. Mudar os móveis de lugar? Sim, mas com pregos e martelo do lado. Donos e donas de casa ainda precisarão manter sempre seus lares fechados, pois todos os seus pertences poderão sair pelas janelas caso esta medida não seja tomada.

Mas o que falar das leis e dos governos? A ausência de gravidade trará algum benefício nesses aspectos? É difícil prever, pois vivemos um período de grande desrespeito para com a jurisprudência. O que valeu para ontem poderá não valer para amanhã. Mesmo assim, podemos supor que a corrupção e a bandalheira em geral não terão o mesmo peso em gravidade zero. Os inimigos públicos deixarão de carregar um enorme fardo que parecerá muito mais leve do que realmente é. A eles, desejamos um futuro pesado no único espaço que lhes compete: a cela de uma cadeia. É esperar para ver.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 02/06/2016.

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Stephen Curry: o moleque simpático da NBA

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Quando Stephen Curry se aproxima da linha de três pontos, há sempre a sensação de que uma cesta espetacular deixará a todos boquiabertos. De novo. E novamente. Nesta temporada regular da NBA, Curry estabeleceu um recorde absoluto: 402 bolas de três pontos, ajudando seu time, o Golden State Warriors, a conquistar 73 vitórias num total de 82 jogos – outro feito inédito.

Muitos especulam sobre uma nova revolução no esporte, aliando as habilidades técnicas (e, creiam, Curry as têm de sobra) com o fator “cesta de três pontos” para definir um jogo. E há alguma coerência nessa conjectura. Peguemos, por exemplo, o Cleveland Cavaliers, time que perdeu para o Golden State nas finais da temporada 2014-2015. Para os Cavaliers, agora, os arremessos longe da cesta tornaram-se essenciais numa equipe que pode chegar a sua segunda final consecutiva – assim como os Warriors. O basquete, mais até do que outros esportes cujo domínio da bola é determinante, fomenta a imitação em seu melhor sentido: ídolos existem para serem alcançados e, por vezes, superados. Não que Michael Jordan esteja sob ameaça de perder seu trono como o maior do basquete, saliente-se!

Voltando a Curry, outra característica que lhe agiganta nas quadras é o prazer com que seu jogo se desenvolve. Há fluidez, originalidade, improviso e, sobretudo, um longo, longo treinamento para atingir a técnica que deixa seus marcadores perdidos. À plateia, o atleta de 28 anos proporciona uma satisfação daquelas partidas vagamente nostálgicas, quando o mais importante era o esporte, para além de fama, fortuna ou glória. E o genial é que isso acontece justamente na liga que possui os maiores salários do planeta em qualquer modalidade.

Com cara de moleque simpático, Stephen Curry não está fazendo essa possível revolução no basquete sozinho. Pelo contrário, seu time interage nesta mesma pegada que mistura brejeirice com dedicação. Não por acaso é de se registrar com ênfase a participação de um jogador igualmente preciso nas cestas de três pontos: Klay Thompson – que, avaliam alguns, possui um arremesso ainda mais bonito que o de Curry. A dupla, aliás, ganhou o apelido de Splash Brothers pela atuação costumeiramente brilhante.

O basquete é um jogo ágil, de fácil entendimento e sobremaneira vibrante ao possibilitar uma grande pontuação e, inevitavelmente, uma constante variação na liderança do placar – principalmente numa liga tão bem equilibrada como a NBA. Muito mais do que uma consequência de investimento financeiro volumoso, Stephen Curry surge qual um agente da alegria que deixa o basquete e, por que não?, a vida muito mais divertidos.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 26/05/2016.

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Antes da música acabar

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Dois passos para lá, outros dois para cá. Assim eles tomaram o salão para si e não estavam nem aí para as dezenas de convidados. Num mundo imperfeito, a música não precisa fazer sentido. A oportunidade está ali, cadenciada, disponível para todas as pessoas que se entregam sem medo. Uma brincadeira, uma fuga, uma atenção especial com aqueles que se lhes aprazem.

Em algum momento, nem mesmo o salão seria preciso. O espaço de que necessitavam era mínimo; uma intersecção na troca de olhares. De quando em quando, as bochechas se chocavam numa explosão do acaso não acidental. Algumas palavras se perdiam, porque só importavam os passos e o ritmo.

Tom sobre tom, nota pós nota, a música condicionava-os a um estado catártico – talvez extemporâneo, certamente sentimental. E quem não se emocionaria com aquela cena tão típica de filmes jamais realizados? Os sapatos sobre o chão estalavam com o mesmo vigor de um choque estelar. Vibratos vibrantes davam um ar épico quase desnecessário quando aquele tempo não se sujeitaria ao metrônomo. Era uma vez outra história sem moral definida.

As mãos apertadas e suadas enlaçavam para além da pele. Ambos sentiram qualquer calafrio que não prejudicou o andamento do bailado. Um compensava a falta de ginga do outro; não eram simétricos e não buscavam igualdade tampouco. Sabiam-se mútuos, incompletos, atingíveis, transponíveis, irremediavelmente únicos.

Alguém com um olhar rancoroso ou entediado poderia torcer para um tropeção ou outro deslize rítmico qualquer. Deixem-nos com a sua incoerência. Nada menos digno que desejar a infelicidade, mesmo que numa trivialidade musical. A competência dos dançarinos não estava em pauta. Não havia júri para lhes dar nota e, mesmo que houvesse, seria solenemente ignorado. Que cada um cuide de sua vida e encontre sua própria melodia!

Ainda que o fôlego não fosse mais o mesmo da juventude, eles não titubearam um momento sequer. A união sacramentada no esforço da dança expiava muito além dos cinquenta anos de casados que completaram ali mesmo, numa cerimônia formal repleta de parentes, amigos e dois penetras que ninguém conhecia.

Eles sabiam que tudo tem um fim porque é somente o universo quem cuida da eternidade. Por isso, não se chatearam quando a música acabou. Deram o melhor de si para não perder o compasso ou a onda de felicidade provocada pelos estímulos sonoros. Muito mais do que um sorriso de satisfação, encontraram ao final da música a verdade incompreensível de uma última dança.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/05/2016.

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