Contar uma história

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Após a leitura do título, um aviso essencial: qualquer pessoa pode contar uma história. Variam intenções e formatos, mas o drama humano é sempre o ponto de partida. Você pode falar de outras espécies vivas, deste ou de outro planeta, ou mesmo traçar uma narrativa sobre objetos inanimados. Não importa. O drama estará ali, em seu sentido verbal e não naquele popular que o assemelha ao desespero.

Qualquer história parte sempre da própria experiência. Um biógrafo jamais conseguiria escrever sobre alguém sem jogar em seu biografado suas próprias expectativas. Tanto faz gostar ou não dos personagens (reais ou fictícios), o autor escolherá o recorte que dirá um tanto de si e outro tanto do outro.

Sim, isso acontece com os cronistas também. Quando nosso texto fica enquadrado dentro do jornal, temos uma liberdade limitada pelo conhecimento que adquirimos e nada além disso. Ninguém pode escrever pelo outro – só assinar pelo outro, o que não passa de pura vigarice. Os mínimos fatos e argumentos que se transformam em crônicas vieram de muito longe para ganhar a forma final. Mesmo assim, depois de publicada, não raro o autor faria mais uma revisão, alterando uma palavrinha apenas, porque a perfeição nunca chega e temos de nos conformar.

Contar uma história pode transformar um momento trivial num momento único. Até os temas mais cotidianos, como a violência, a corrupção e o fim do namoro ganharão contornos singulares quando a inspiração do autor encontra o respaldo necessário no ato de criar. Rio encontra o mar; as águas oceanam-se. Uma crônica não é muito diferente disso, só que bem menos molhada.

Não acredito que existam receitas infalíveis, seja para bolos de chocolate ou para bolar uma história. Uns e outros dependem de muitas variáveis, incluindo, evidentemente, o receptor. Se saborosos ou não, bolos ou histórias fogem ao controle de quem os criou. Ainda assim, acredito que há sempre possibilidades de ser bem recompensado, mesmo que a satisfação esteja na obra em si.

O show não pode parar assim como a história tende a continuar. O próximo a contar mais sobre o drama humano pode fazê-lo com a certeza de que terá de nós alguma compaixão – afinal, padecemos do mesmo bem.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 25/05/2017.

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Em tempo

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Creio que não exista pessoa que nunca quis viajar no tempo, principalmente para o passado. Aquele desejo de consertar as coisas ou conviver novamente com figuras que já partiram faz parte desta mistura entre ficção científica e nostalgia. A ciência nos leva a acreditar que, quanto mais o tempo passa, mais estamos perto de dobrar o tempo à nossa vontade. E isso parece sobremaneira injusto com quem veio antes.

Todo mundo deveria ter uma cota de viagens no tempo. Poderíamos viajar uma vez aos trinta anos e outra aos sessenta, por exemplo. Assim, ajeitaríamos aquelas coisinhas que ficaram não ditas pelo medo de não dar certo. Hoje, porém, sabemos o resultado. Compreendemos que muito do que fizemos ou deixamos de fazer teve implicações questionáveis, ainda que importantes. Olhar para trás é buscar o entendimento: o texto só faz sentido depois de lido.

A ideia de uma máquina do tempo soa fascinante, mas principalmente excludente. É preciso tempo (claro!), dinheiro, uma boa dose de loucura e outra de conhecimento científico para elaborar tamanha empreitada. Além do mais, o criador de uma máquina assim certamente a trataria com egoísmo justamente por participar de um poder que, em princípio, só caberia a uma divindade. Quem rala para colocar a comida na mesa no dia seguinte jamais teria tempo para bolar algo tão mirabolante e, quando muito, ficaria sabendo disso apenas pelos jornais.

Sob um aspecto bem orgânico, a viagem no tempo é a própria existência. Estamos permanentemente presos ao presente, em contato direto com tudo o que veio antes e caminhando com o momento seguinte. E se não ficamos satisfeitos com tal odisseia, é porque aprendemos a carregar o mistério qual uma mochila que há muito deixou de incomodar as costas. O insucesso da onipotência é parte da graça, quer seja para o soberano, quer seja para o bobo da corte.

Entrementes, viajar no tempo é uma máscara para lidar com o conhecimento adquirido. De nada adiantaria ir ao passado sem carregar na bagagem toda a nossa experiência até aqui. Se assim o fizéssemos, cometeríamos os mesmos erros e acertos porque não se pode alterar aquilo que jamais foi.

Eu sei exatamente para quando voltaria. E você?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 18/05/2017.

O ser literário

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Disse, nas duas ou três vezes que me perguntaram, que literatura é tudo aquilo que está escrito. Claro, alguns dirão que tamanha isenção ou tão abrangente definição de pouco adianta para fins práticos. A estes, então, cabe toda a liberdade de escolha para pôr as coisas sob suas óticas particulares. Pois se não temos um acordo sob a ortografia que dirá sob uma forma de arte tão singular quanto a literatura?

Dito isto, podemos nos concentrar naquilo que nos apetece: as palavras. Pensamos por meio delas e, ainda assim, não lhes damos o devido valor. A etimologia mais profunda chegará num abismo infinito que atenderá pela dupla alcunha Necessidade-Criatividade. Penso que não existem raízes mais resistentes em quaisquer formas de arte ou comunicação. A Necessidade da palavra – que nasce sonora antes de ser escrita – supre uma condição inerente ao homem de ir além do mundo ao seu redor. Já a Criatividade que lhe acompanha é a explicação de si mesma; imaginamos sua origem a partir de nossa própria mente criativa; talvez seja Deus, talvez seja a ciência, talvez seja outra coisa – e este é um mistério para o qual, de certo modo, estamos preparados.

A palavra escrita e a literatura são entidades que tendem a flertar com uma ideia de imortalidade. Permitimo-nos imaginar um mundo sem nós quando deixamos versos, fatos e versões nalgumas páginas, quer sejam de papel ou não. Escrever é acreditar que o passado fará diferença no futuro. Em verdade, praticamente ninguém escreve para ser lido no mesmo instante. É até meio chato quando alguém fica sob o seu ombro conferindo cada nova letra que surge para complementar a anterior. Assim, o mais exibido dos autores ficará inibido porque a literatura nasceu para ser uma prática solitária, diferentemente do cinema, da música, da pintura…

Imortais ou não, continuamos a escrever. Eu aqui em 2017 e você que agora me lê no século XXII estaremos ligados até o final desta crônica, mesmo que nunca tenhamos nos esbarrado pelo tempo. De qualquer modo, a veia artística da literatura tem muito mais a ver em fazer perguntas do que entregar respostas insatisfatórias. A literatura é sobre ser. É ou não é?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 11/05/2017.

Crônica sobre adolescentes

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Não é novidade dizer que os adolescentes são uma espécie curiosa. Eles estão naquela mística fronteira do que já foi e do que ainda não é. Nem criança, tampouco adulto. Já paga suas contas, mas não ganha para seu sustento. Os que têm oportunidades estudam. Os mais ansiosos querem sair de casa e abraçar o mundo – ‘inda mais nesse tempo de distância encurtadas pela proximidade virtual. Não satisfeitos com uma única causa, assumem para si o passo seguinte da humanidade. Eles não compreendem as próprias mutações, mas não tardam a bradar por revoluções e mudanças de ordem prioritária. Claro, há os que abstêm – mas aí não são apenas os adolescentes.

Ainda que uma experiência individual não justifique o entendimento sobre toda uma espécie, teço cá algumas nuanças sobre o tema porque já passei pela adolescência. Se tive facilidades para algumas coisas, como criar uma redação, por exemplo, passei por grandes desafios que cabem a todo principiante. Erramos; aprendemos. Às vezes, erramos de novo, mas por outros motivos, e assim seguimos até que nos damos por amadurecidos – e aqui vai de brinde um segredinho: ninguém nunca amadurece por completo.

O adolescente ou a adolescente tem todo o direito de errar. Mas, espere aí um momento: não vá ser um vacilão. Os erros de quem tem caráter são bem distintos daqueles que insistem no conforto do conflito. Para minha limitada compreensão desta espécie, o que causa preocupação mesmo são as influências. E, ainda que negue veementemente, o adolescente é influenciado o tempo todo. A experiência causa dores, frustrações e afins que bloqueiam grande parte destas sugestões de terceiros. Antes que venha a apreensão, calma lá: tem muito divertimento e alegria pelo caminho. Difícil é dosar o entendimento do que faz bem ou mal para a mente e o corpo. Daí a importância de ter a constância de uma companhia experiente, que seja mentora de novas ideias e não uma reprodutora de conceitos ultrapassados.

Adolescentes, provavelmente, pouco se importam para o que pensamos deles. “Uma crônica de jornal? Bláh!”, exclama um deles hipoteticamente, com toda a autoridade de sua jovem idade. E, então, pensamos: na nossa época, também éramos assim?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 20/04/2017.

Nome na lista

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A lista de Fachin. De maneira geral, foi assim que a imprensa brasileira apelidou o pedido de abertura de inquérito para 76 figuras da política brasileira. O ato, realizado pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, parece realmente merecer um título à parte, como uma narrativa que será contada em jornais do presente e nos livros de história do futuro. Com oito ministros, 24 senadores, 39 deputados e três governadores entre os envolvidos, parece mesmo que há algo de podre no reino da política brasileira. E olha que alguns ainda se esforçam para a situação piorar.

Como tantos milhões de brasileiros, vejo a lista do Fachin com profunda lamentação. Temos ali nomes que vêm discutindo um (pseudo) projeto de nação há anos, alguns deles participantes ativos em momentos de lutas pró-democracia, como o movimento Diretas Já. Hoje, suspeitos que são de cometerem crimes contra o país, perdem o pouco do respeito que alguns de nós ainda resguardam aos políticos.

No meu tempo de escola, ter o nome na lista era uma coisa quase sempre boa. Estar na lista de uma festa, era pertencer ao grupo de alguns escolhidos. Claro, havia qualquer coisa de exclusão ali também, mas a cabeça adolescente era e é um poço de contradições. Quando da época das olimpíadas escolares, o nome na lista não garantia a participação na modalidade esportiva em questão, mas era uma possibilidade de medalha caso a equipe saísse vitoriosa.

Na época da faculdade, tínhamos de lidar com algumas listas voluntárias e outras obrigatórias. As voluntárias eram para atividades não necessariamente acadêmicas, como viagens extracurriculares, festas coletivas (um organizava, todos contribuíam) ou mesmo para participar da formatura, gastando uma grana alta com local, banda & afins. Já as listas obrigatórias diziam respeito à presença na sala de aula. Uns professores cobravam, outros não. Mesmo assim, assinar a lista de presença era um gesto de comprometimento positivo porque havia certo orgulho naquele movimento manual.

Por sua vez, a lista de Fachin parece incluir muita gente bem instruída, porém mal educada. Depois de aproveitar um bocado, esse pessoal poderá se entender com a lei e, por fim, compreender que um nome na lista também pode ser uma grande roubada.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 13/04/2017.

 

Sim

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Aí eles meio que se reencontraram sem ter nada para dizer um ao outro. Ele estava precisamente no meio da primeira palavra de uma pergunta quando ela o interrompeu dizendo…

– Sim!

Sim? Mas como assim? A mente dele se encheu de possibilidades, como se vivesse num tempo antigo e descobrisse que o mundo não era o centro do Universo. Tivesse à mão um lápis ou um teclado e um mouse, escreveria 172 páginas de boas intenções apenas para corroborar aquela exclamação. Tudo bem que o passado deles não era nada fora do comum, mas talvez fosse bem por aí que tudo faria sentido. As briguinhas e birras de cada um ganhavam novos significados revigorantes. No fim, era uma luta de amor; um confronto para ver quem gostava mais do outro. Lembrou com alguma fina ironia das incontáveis cenas de ciúme que promovera em público; ela, com o rosto vermelho, sem saber se deveria pedir desculpas aos demais presentes do ato ignóbil ou apenas ignorá-lo. Tudo isso era um passado que ficara sedimentado sob uma única palavra-bomba: Sim!

Sim. Ela estava ali mesmo. De verdade. Um de frente para o outro. E ele não conseguira sequer terminar a primeira palavra de uma pergunta da qual nem mesmo se recordava. O tempo parara, comprimindo o presente num átimo de amor. Após tanto tempo, eles se reencontraram justamente naquele lugar que sediara a grande revelação. Eles queriam tanto ter um filho juntos, mas ele não era capaz. Uma doença na juventude o privara de deixar qualquer legado da sua carne e de seu sangue. Talvez a dor tenha começado ali ou, quem sabe, tal situação serviu apenas de estopim para um relacionamento já debilitado pelas fracas atuações de seus protagonistas. Tinham muito vigor e pouco foco. E perderam de vez para a inércia. Mas não hoje; não agora.

Sim. Uma palavra muda tudo. Não era preciso de outra explicação. Os olhares cruzados se compreenderam naquele instante. O centro do Universo voltara a ser ali, pelo menos metaforicamente (deem-lhes um desconto). Eles ganharam uma nova chance do acaso e estavam dispostos a seguir em frente. E seguiram. Os corpos se chocaram suavemente. A música da discoteca como que desapareceu sensorialmente. E tudo o que sobrara ali fora carne, suor e um beijo longo e demorado.

– Sim.

Ele repetiu.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 06/04/2017.

Boa fé

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Hoje, o dia vai ser legal. Senti isso assim que uma lufada de vento gostoso, com cheiro de sorvete e sabor de orvalho, invadiu meu quarto. Coloquei a coberta de lado; não era preciso dobrar a roupa de cama. Teremos tempos melhores para isso. Com um pouco de fé e uma xícara de café, o mundo está pronto para se abrir, como uma janela que recebeu óleo em suas juntas.

Por alguns instantes, talvez até mesmo horas, deixo as notícias tristes de lado e me embalo com a felicidade. São tantas as possibilidades que chego a me perder. Ensaios, enredos, tramas, temas: a ocasião faz o bom ladrão de sonhos e beijos e abraços. Robin Hood ainda mais romântico do que nos romances de capa-e-espada. Muito amor e nenhuma arma.

Na pracinha do bairro, a reunião de alunos após a aula matinal às vésperas do almoço. Observo-os com atenção. Riem e atropelam as palavras com a urgência de quem vive o juízo final – “só que não”, eles mesmos completam antenados com a gíria da vez. Espertos e exagerados, como sempre compete aos adolescentes. Entre a ingenuidade e a crítica mordaz, cometem os erros que a idade lhes oferece. Todos encontram algum tipo de alegria, longe de uma geração mais velha, antiga e reacionária.

Ali próximo, no parquinho infantil, aquela energia de quem está sobremaneira ansioso para crescer e se tornar um super-herói ou um professor (duas das profissões mais ousadas de que temos notícias). Crianças interagem com os tatibitates, fazendo-nos crer no entendimento entre povos, nações, religiões, partidos e ideologias. Pequenas amostras muito mais relevantes que um estudo detalhado do genoma humano. Ah, e nada contra a ciência; pelo contrário. Somos filhos do átomo em permanente evolução.

Há um mistério superior que sempre vai nos escapar. E isso não me incomoda. Tenho boa fé nos detalhes que ainda são tão emocionantes quanto a própria aventura principal. Cada qual à sua maneira, mas numa única narrativa compartilhada, como se fosse possível shippar a humanidade. Ou, sei lá, ao menos cutucá-la pelo Facebook.

Nesse clima supimpa, aceno com as duas mãos. Estou te convidando para dar o fora daqui, agora mesmo. O sol está meio escondido, mas quem se importa? Já desliguei o celular. Hoje, o mundo será o bastante. Amanhã, vamos querer ainda mais.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 30/03/2017.

Aniversário de Floripa

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Você fica sabendo do aniversário de Florianópolis pelo telefone celular. Terra em que nasceu ou escolheu para ser seu lar. São 344 anos resumidos em um único bipe; mas há muitos outros dias idos ainda no tempo de Meiembipe. As tradições gostam de marcar o tempo por cerimônias formais. E não importa se muito antes de Dias Velho já moravam as tribos locais. Antes, apenas uma Ilha perdida no meio do mar. Hoje, o continente trouxe histórias para somar.

– Mas, esperem aí, esta Ilha não é o paraíso de que todos falam?, pergunta o visitante oriundo de um país estrangeiro.

– Talvez seja, ô. Mas mesmo no paraíso há os que apenas consentem e calam!, responde o ilhéu com seu típico linguajar ligeiro.

Como toda metrópole, esta é uma cidade de dicotomias e desigualdades. Mas quem a conhece de perto, e parte, sempre carrega consigo amigos e saudades. No fundo, somos todos imigrantes numa terra cheia de leis. Porque a natureza não reconhece cartórios ou reis. Em alguns lugares, há corpos delineados por plásticas e carros importados num clima de ostentação. Noutras regiões, a infraestrutura mais básica sequer recebe alguma atenção. Os erros se repetem em todo o mundo, mesmo que tenhamos o sentimento mais profundo.

Na esfera pública, os aniversários de um município são praticamente todos iguais. Se há dinheiro no caixa, a população se anima toda para ver artistas internacionais. Seria uma contradição celebrar o lugar e exaltar o exterior? Ou talvez esta seja nada mais que uma questão posterior. Na pergunta primeira, gritamos: – O que temos para celebrar? E, com o rabo entre as pernas, fingem ter alguma noção para administrar. É a velha e manjada narrativa de quem escolhe um progresso que nada se parece com um justo futuro. No outro lado da balança, os moradores (a grande maioria) seguem firmes sem sucesso, pagando impostos e trabalhando duro.

Tudo bem, ô, falemos de coisas boas e divertidas. Como um chopp no Mercado ou a quitação das dívidas. Afinal, o dia parece ser muito mais urgente. Assim o é para mim e para toda gente. Passado e futuro estão noutras estações distantes. Longínquos como os falsos moinhos de Cervantes. Melhor pedir outro chopp em taça tulipa. Afinal, é aniversário de Floripa.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 23/03/2017.

Erudito e popular

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Querem-nos impor as diferenças entre o erudito e o popular na marra. Como se distinção hierárquica fizesse alguém melhor por natureza. Nada disso. Não venham com essa porque não vão ter respaldo algum. Nós aqui do lado mais ansioso e destemido pertencemos ao time dos juntos e misturados; aqueles que encontramos na própria tradição o significado da novidade.

Passamos do grunhido à música de câmara sabendo que um pertence ao outro. A música, aliás, talvez seja a primeira forma de arte porque vem do ritmo. E a natureza é a mãe de todos os ritmos: O bater do coração, a cadência da chuva, a sinfonia do vento nas frestas de uma caverna. Naturalmente, aprendemos.

Da aurora de nossa espécie até o presente momento, percorremos um caminho de conquistas e perdas, mas que esteticamente sempre pareceu qualquer coisa de circular. Retomamos o popular quando o erudito parece não ser o suficiente – e vice-versa. A cultura não se faz por negação, mas por assimilação. Damos a volta ao mundo apenas para nos encontrar em nosso cotidiano tão minúsculo quanto o espaço vazio de um abraço. Abraçamos os diferentes porque não cabemos nesta partes simultâneas chamadas mente e corpo. Somos uma unidade simbiótica, dividida em metades para lá de interessantes.

Erudito e popular também são metades complementares e nada antagônicas. Cada qual ao seu modo aprofunda os dilemas mais necessários e, igualmente, triviais. Como um casal recém apaixonado, eles fecundam ideias impossíveis numa realidade possível. A união é estável, mesmo com os mal amados lhe desejando um divórcio com divisão total de bens. Estetas? Vai saber!

Não conheço qualquer coisa que possa se proclamar estritamente erudita ou popular. Mesmo os maiores sempre foram ambos. Shakespeare, Machado de Assis, Rossellini, Hitchcock, Da Vinci, Monet, Beethoven, Jobim… e tantos outros que se tornaram mestres na simplicidade, munidos de um vasto conhecimento, um tantinho de vaidade e muita coisa de humildade. Um legado mais do que legítimo para quem tem juízo e bom coração.

Na sua próxima festa, chame o erudito e o popular. Talvez seja o único jeito de agradar todos os seus convidados, sejam eles gregos ou troianos.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 16/03/2017.

Cansaço

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Começou a escrever entorpecido de cansaço. Olhou ao redor procurando as horas mal dormidas e não encontrou nada além de ausência. Assuntos não lhe faltavam; era outra coisa que lhe incomodava. Sim, como manda a tradição conservadora, ele tinha a sua própria musa, única que lhe dava atenção quando ninguém mais o fazia. Inspiração também encontrava no próprio mistério da vida; era uma surpresa a cada dia, afinal. Ainda assim, o texto lhe escapava como um rato que descobre a mecânica de uma ratoeira. As palavras se fingiam de mortas nalgum canto qualquer do universo ou de sua mente. Mas o prazo… o prazo!

Não poderia furar de novo. Acontecera duas ou três vezes anteriormente. Uma delas foi puro esquecimento. Outra fora um mal entendido na troca de e-mails. E a última ocorrera por uma ressaca dos diabos – nada mais adequado, já que se dera justamente naquele período chamado inferno astral. Mas seu aniversário já passara há tempos e tudo que restara para si era uma folha em branco.

Escrever é como um duelo de faroeste. De um lado, o rosto concentrado, as mãos ansiosas para realizar seu trabalho, a respiração buscando um ritmo cadenciado. No sentido oposto, uma tela de computador intimidadora, ausente de conteúdo, mas cheia de si, cobrando-lhe a responsabilidade ao sussurrar “mas você quem decidiu ser escritor… não reclame”. Quem saca primeiro ganha a parada e, com sorte, uma história.

Por alguma razão desconhecida, lembrou-se de fragmentos do seu passado. Talvez estivesse buscando uma história pessoal que valesse a pena compartilhar. As desventuras na escola, as trapalhadas românticas da adolescência; momentos mais do que interessantes, mas que pareciam unicamente fazer sentido para si mesmo. Na ficção, o espaço para biografias é muito reduzido. Até mesmo uma crônica não pode carregar muito da vida pessoal autor com o risco de se tornar um autoelogio. O pintor sempre carrega nas tintas quando cobre a parede da própria casa. Por fim, o escritor deixou o passado na gaveta outra vez.

Estava para desistir de tudo. Bolou até uma resposta elaborada sobre uma nova enfermidade, quando veio aquela manjada ideia de falar sobre as dificuldades de escrever. E já tinha até mesmo a primeira frase: “Começou a escrever entorpecido de cansaço”.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 09/03/2017.

Cotidianidades 2017

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Não sei se faz algum sentido aquela velha ideia de que o ano só começa depois do Carnaval – nem enquanto metáfora. A saída de dezembro e a chegada deste 2017 vem acompanhada de fogos reais e bombas simbólicas, ainda mais em tempos de Operação Lava Jato. Já faz algum tempo, aliás, que o tempo não para, mesmo antes do Cazuza cantar isso com seu exagero inconfundível. O ano não apenas começou faz tempo como parece ser o mesmo dos últimos anos.

O erro na apresentação do Oscar de melhor filme e os acidentes em carros alegóricos nas escolas de samba do Rio de Janeiro são cotidianidades de quem nunca esquece a responsabilidade que é viver. Somos imperfeitos, mas não é preciso abusar. No caso do prêmio de cinema, um simples constrangimento transmitido para mais de 200 países pode abalar a empresa de auditoria que cuida há 83 de guardar o nome dos vencedores e entregar o envelope com o nome do premiado até que se diga “And the Oscar goes to”. A arte imita a vida e, por vezes, causa algum prejuízo; as pessoas machucadas pelos acidentes nas escolas de samba que o digam. As equipes organizadoras do Carnaval e do Oscar precisam repensar os detalhes para que este ano não continue a ser o mesmo no ano que vem.

Findo o Carnaval (menos na Bahia, ao que parece, felizmente), Marcelo Odebrecht dá seu depoimento sobre a chapa Dilma-Temer. Não é coincidência. As festas se sucedem tanto no céu quanto no inferno. Cabe a STF dizem se é Deus ou o Diabo quem tem razão na Terra do Sol. O complicado do Brasil é o brasileiro, parece-nos. Tempos extremos, medidas extremas: isso não rende bons poemas.

A efetividade do início do ano após o Carnaval é um mero truque inventado pelos políticos mal intencionados de Brasília. Eles fazem como a Ivete Sangalo que se disfarçou de palhaça para curtir os blocos de rua incógnita. A diferença é que a Ivete é muito mais divertida.

Também por estes dias, a NASA divulgou a existência de novos planetas que podem abrigar vida. Duvidamos, no entanto, que o Carnaval seja comemorado por lá, a cerca de 40 anos-luz de distância da Terra. Tampouco cremos nalguma implicação da empreiteira Odebrecht por aquelas bandas, mas é melhor esperar as delações premiadas.

O tempo não para e, por vezes, repete a si mesmo. “And the Oscar goes to La La Land. Não? Espera um pouco”.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 02/03/2017.

DNA de Carnaval

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As festas e os poderes públicos têm ligações antigas e remontam às primeiras civilizações. Quando surgem as cidades, nada mais clássico do que entreter essa galera cada vez mais reunida, que fazia das próprias paredes os muros divisórios. Gregos e romanos de um passado distante sabiam disso. Já com as tribos indígenas ou os nômades árabes, a coisa parecia ser menos grudenta, com cada um na sua oca ou tenda, mas as festas traziam todos para o mesmo espaço de convivência e, possivelmente, era ali que ficavam sabendo das fofocas dos vizinhos.

Com ou sem líderes, festejar parece estar no sangue da humanidade. Deem mais um tempinho para os biólogos e eles logo encontrarão um bloco carnavalesco unindo Adenina, Timina, Citosina e Guanina, os compostos orgânicos que formam o DNA. Se for em tempos de Carnaval, basta ligar o microscópio e lá veremos o quarteto de abadá florido, ansioso para pular atrás do trio elétrico. A genética sempre será nossa aliada para provarmos que ninguém sabe de nada e o que importa é mesmo curtir o baile.

Hoje, o clima está meio morno, como aquele café no escritório que ninguém bebe mais. Com essa crise aí (esta, em especial), gastar ou investir em festas ficou ruim para todo mundo. Até mesmo os governos, que sempre torraram dinheiro ou o deixaram escoar em desvios ilegais, encontraram desculpas razoáveis para cortar os recursos dos eventos públicos. Mas até o Carnaval?, perguntam os mais entusiasmados. O Carnaval não é um dos atrativos do país, movimentando o mercado interno, atraindo turistas estrangeiros e promovendo as qualidades da nação? Pode ser, ainda que tudo isso aconteça sem a infraestrutura adequada.

Neste momento, o mais pessimista questionaria a necessidade de investir recursos públicos nas festas, em especial no Carnaval, considerado pelos publicitários ufanistas como o maior espetáculo da Terra. Ainda que pertinente, a questão levantada por esse ser de pouca fé não faz qualquer sentido. Traços culturais não existem por causa do Estado, mas apesar dele. O próprio Carnaval é um símbolo disso, com suas origens pagãs que foram solenemente ignoradas quando a festa foi assimilada pela Igreja Católica.

Opa, lá está saindo o Bloco do Genoma! O último a chegar é a mulher do padre!

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 23/02/2017.

Perspectiva segura

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Fatos e números nos deixam apreensivos quando indicam o agravamento de uma situação ruim. Parece normal que seja assim, ainda mais se levarmos em conta que todos somos seres midiatizados, para o bem e para o mal. Estas estatísticas são de inegável importância, mas quase sempre carecem de perspectiva. E é o que acontece agora, neste princípio de 2017, com uma crise na segurança pública exibida a partir de presídios superlotados, de uma polícia financeiramente precária e, como sempre, de um sistema jurídico com demasiadas leis e uma atuação sobremaneira obstruída. Circunstâncias assim nos fazem indagar a relevância dos dados.

As centenas de mortes nos presídios brasileiros e na ausência do policiamento no Espírito Santo são tragédias porque concentram num curto espaço de tempo um aspecto horripilante de uma nação desigual qual a brasileira. Aqui a perspectiva é bem vinda, e deve nos alertar de algumas condições na raiz destas desventuras. Em 2015, por exemplo, foram 278.839 mortes violentas no Brasil, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. É um número absurdo, você há de concordar, mas que raramente vemos associados com os bilhões de reais desviados pela corrupção ou ainda com as centenas de deputados eleitos por votos indiretos. São questões elementares que deveriam pautar as iniciativas públicas e populares no que compete à segurança e, também, à saúde, à educação, etc…

Entrementes, defender as mortes de criminosos, como alguns fizeram nessas ocasiões de crise, é de uma total ausência de perspectiva. É esquecer que os assassinos, provavelmente o pior tipo de ser humano, continuam vivos, com ainda mais poder agora que exterminaram seus rivais. Mas a pobreza de espírito também pode ser combatida com uma educação rica em qualidade e diversidade. Ideais, aspirações, intuições e outros aspectos da experiência individual têm de ser geridos no bojo da família e ampliados na escola. Essa falta de perspectiva educacional deve ser a nossa mais grave falta social; o que permite esse jeitinho sacana de levar vantagem à custa de outrem, esquecendo que um problema ignorado sempre se torna um problema maior, como os números não cansam de mostrar.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 16/02/2017.

Sentido na saudade

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Cada dia é uma nova oportunidade que encontro para me convencer daquilo que pode ser o sentido da vida. Vasculho, mexo, indago e perscruto ideias submetendo-as à lógica de quem só consegue ouvir bem com o coração. Entre uma batida e outra, num suspiro vívido e quase pontiagudo, deparo-me com a singeleza amiúde da saudade. Porque ali está a paz que procuro.

Parece uma obviedade sem tamanho, do tipo frívolo e cujo discurso feito está fartamente preenchendo os livros de autoajuda. Não é. Eu mesmo demorei um bocado para tê-la sob minha companhia, porque os desvios são muitos. E é comum se enganar. A saudade pode tender para um lado triste, pois remete a um tempo que não existe mais. Aí está o engano. O que passou continua a existir para todo o sempre; como uma cicatriz ou uma tatuagem que carregamos sem pesar.

Na correria do cotidiano, não prestamos atenção nas saudades que cultivamos o tempo todo. No meu caso, carrego saudade de três décadas de vida e mais uns anos soltos. Da minha infância nos anos 1980, quase não tenho memórias específicas, de fatos precisos e nítidos em forma de pensamentos. Ainda assim, trago comigo uma saudade imensa daquela década porque ali fui forjado. Com minha mãe, meu pai, meus irmãos, parentes e amigos, tomei as decisões que me trouxeram até aqui, assimilando as características que me eram possíveis. Descobri algumas verdades que me perseguem até hoje, e sou grato por elas.

Há sentido na saudade quando conseguimos nos afastar dos preconceitos aos quais fomos submetidos enquanto crescemos. Se você quer saber mesmo, a humanidade é ainda muito inexperiente sob uma dezena de aspectos. Mas também somos divinos quando descobrimos que fomos nós mesmos que criamos as dádivas. É da nossa natureza ser épico; faz parte da nossa aventura este reencontro com a saudade.

Dizem por aí que a saudade é uma palavra exclusiva da língua portuguesa, cujas raízes poderiam remeter à época das grandes navegações. Os lusitanos de outrora, distantes de sua terra natal, externaram a falta que sentiam dos seus por meio da saudade: palavra e sentimento unidos numa mesma pulsação. Mas a saudade está disponível para todos, em qualquer idioma. Basta apenas um coração que quer bater e fazer sentido.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 09/02/2017.

A Ilha e as perguntas sem respostas

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Para azar de 2017, o ano que lhe antecedeu foi sobremaneira desastroso, ainda mais quando levamos em consideração um recorte político. Pois que mesmo os otimistas estão olhando duas vezes antes de atravessar a rua, ou mesmo uma travessa miúda como a Travessa Ratclif, ali no Centro da Ilha. Se é tempo de cuidado e atenção, o mesmo deveria valer para uma administração municipal assim que assume um novo mandato. Em Florianópolis, por sinal, fazia bastante tempo que um mesmo prefeito ficava apenas quatro anos no seu gabinete – claro que, de vez em quando, os alcaides sempre arranjam uma maneira de tomar um ar nas ruas longe das vaias ou dos aplausos. Ao novo prefeito e, por consequência, seus colaboradores, resta a pergunta de sempre: qual progresso estão buscando? “Buscando”. No gerúndio mesmo, já que parece que nunca chegamos nele de fato.

Florianópolis tem suas particularidades, como qualquer outra cidade, mas com aquele ligeiro diferencial que só cabe a outros vinte e cinco municípios – descontando o Distrito Federal, claro: trata-se de uma capital de Estado. E uma capital na qual os principais serviços se encontram numa Ilha, ligada ao continente por duas pontes quase sempre entulhadas de veículos e outra ponte que virou cartão postal em permanente estado de reforma. É bem verdade que os administradores públicos estão cansados de saber disso. E, talvez, tantas singularidades empolguem os candidatos no pleito municipal. Mas a questão do parágrafo anterior continua em aberto.

O progresso tem muitas formas. Diria até que ele possui muitas aparências que se disfarçam de conteúdo. Por isso, sempre que posso, procuro não misturar os conceitos de progresso e de evolução. Enquanto a evolução está meio que por aí, rindo do destino e sorrindo ao acaso, o progresso permanece calado, fruto de uma decisão fria e calculada. Progresso e evolução têm seus defeitos e suas qualidades, sejamos justos. Ambos não nasceram para se transformarem em vilões da história. Pelo contrário, quem carrega esse fardo, em geral, são justamente os líderes políticos, militares, etc… quando ignoram o resto de nós em troca da bonança e do mais do mesmo.

Nós, ilhéus por nascimento ou por adoção, questionaremos até que a resposta seja, ao menos, satisfatória – o que já será um ganho e tanto.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 05/01/2017.

 

Que ano!

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Queria te deixar um registro brilhante ou, ao menos, emocionante. E, olha, muitos de nós tentamos fazer com que este ano desse certo. Mas parece não ter sido o suficiente. Talvez, com a distância do tempo, você consiga me ler com mais clareza do que eu possuo agora ao escrever tais mal traçadas. Saiba, no entanto, que não foi fácil passar pelo que passamos. Nunca é, eu bem sei. Só que existem momentos em que a cisão se torna mais evidente e tudo desaba porque nunca foi sólido de verdade. Ao menos, alguns de nós aprendemos.

Sentado, olhando a página vazia do computador, emerge a vontade de jogar tudo para o alto. E, bem, não vou negar que sou tão humano quanto qualquer outro de nós. Os erros se aplicam a mim como aos demais. Por isso, seja gentil ao me julgar em sua perspectiva. Lembre-se: você já é o futuro, enquanto eu sou o passado. O melhor passado que conseguimos. O único passado possível. Pondero um pouquinho mais e decido permanecer aqui mesmo. Terminar esta crônica porque sei que você aí merece uma chance. E sempre desejarei tudo de bom para você e para os seus. Teu tempo tem tudo para ser ainda mais interessante do que o meu; mais prazeroso até. As crises do seu período, possivelmente, terão outras soluções – sendo que algumas delas nós aqui do passado sequer pensamos em executar.

Na essência mais trivial, foi um ano estranho. Por vezes, soou mudo e teve cores insalubres. Divergimos tanto politicamente que ninguém teve tempo para seguir adiante. Sim, os protocolos políticos foram utilizados à revelia porque os corruptos entendiam de se proteger. Ah, e como eles passaram por cima da lei. Fizeram da justiça qualquer coisa semelhante a um bobo do corte (ou do Congresso, no caso). E a Dona Justiça continuou com a venda nos olhos, fingindo não ver que vivia num mundo imperfeito. Quem não cedeu se deu mal. Não obstante, ainda perdemos gente de toda sorte: Ídolos do esporte, das artes, do pensamento… nos deixaram sem dizer adeus.

Você verá os fatos nos livros de história e poderá repetir comigo num uníssono atemporal: “Que ano!”. E, assim, concordaremos que deste legado atual só nos sobrou a falta do que passou.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 29/12/2016.

Dia de Natal

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Ocorreu num 25 de Dezembro. Ninguém lembra o ano exato, mas a fidelidade dos detalhes, dizem, é espantosa. Como se lá alguém estivesse com um gravador ligado. Então, a magia se fez:

– Com licença.

– À vontade.

– Desculpe o mau jeito com o carrinho de compras. É que está tudo muito cheio.

– Não tem problema, só me encostou de leve. E, além do mais, é Natal! O melhor dia para perdoar, não é mesmo?

– Indubitavelmente. E, afinal, acho que estamos no único mercado aberto em toda a cidade.

– Acho o mesmo. Passei por uns três ou quatro bairros procurando até que encontrei este aqui. Seu carrinho está bastante cheio. Família grande?

– Sim. Quer dizer, muitos tios, primas e sobrinhas. Eu, particularmente, ainda não tenho a minha.

– A sua?

– Família. Ainda não construí. Sabe, nunca casei, nem tive filhos. Mas quero.

– E quem não quer?

– Como é?

– Digo… acho que, no fundo, quase todo mundo quer. Também estou nesse time aí seu dos “sem família”. Quem sabe não montamos um clube…

– Notei que você está só com uma cestinha de compras.

– É. Somos apenas eu, meu pai e minha avó. Ela era imigrante e tanto eu quanto meu pai somos filhos únicos.

– Que bom. Quer dizer… que legal que também estão reunidos hoje. Pelo jeito, hoje teremos dois almoços bem familiares. Desculpe por ficar observando os produtos da sua cestinha, mas acabei de ver um vinho da mesma marca que eu escolhi.

– Santa Ceia? Na verdade, peguei por causa do nome, e por que o meu pai adora vinho seco. É uma marca boa?

– Uma das melhores. Seu pai vai saborear com certeza.

– Espero que sim. Sabe, não temos a tradição de dar presentes nessa época. E tem esse lance da crise… enfim, hoje vamos só compartilhar um dia que é especial justamente porque é igual a qualquer outro. Não nos tornamos melhores ou piores só porque é Natal. Eu não acredito nisso. Mas sei que as pessoas podem fazer o bem em qualquer tempo, em qualquer dia. E hoje é um deles.

– Concordo. E você já fez um grande bem hoje perdoando minha atuação desajeitada com o carrinho. Foi um prazer te conhecer… aliás, posso perguntar seu nome?

– Claro. Pode me chamar de Maria. E também foi um prazer te conhecer…

– José.

No Natal seguinte, José e Maria dividiam o mesmo carrinho. E o mercado continuava cheio.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/12/2016.

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Um jazzinho daqueles divertidos embalando o ambiente, um ator comandando o palco. No que poderia ser um típico clube nova-iorquino, surge um programa de televisão pautado pelo dinamismo de seus convidados e, evidentemente, pela habilidade de seu apresentador para o entretenimento.

Jô Soares é um daqueles personagens da cultura popular que se confundem com os momentos da história brasileira. E confundem mesmo, já que a trajetória do apresentador / cronista / humorista / ator / etc é tão cheia de zigue-zagues que deixaria qualquer um tonto. De escada para o genial Ronald Golias em Família Trapo ao consagrado apresentador de TV e escritor, Jô percorreu um caminho de poucos. Na área do humor, talvez só perca em reconhecimento para o saudoso Chico Anysio – ainda que perca bem de longe.

O talento de comediante, todos sabemos, fora consagrado em clássicos da televisão, como Faça Humor, Não Faça Guerra, Planeta dos Homens e Viva o Gordo. No entanto, seu prestígio de personalidade e intelectual viria somente com o programa Jô Soares Onze e Meia, na emissora de Silvio Santos. Foi a partir dali que Jô pôde escolher exatamente o que fazer e à sua maneira. Trouxe o formato de talk show, até então uma novidade para a TV aberta brasileira, o qual se adaptou com exatidão à sua veia cômica. Seus conhecimentos culturais só reforçaram a qualidade de suas entrevistas, mesmo que muitas soem apenas como bate-papos descompromissados.

Como convém a qualquer pessoa famosa, Jô Soares também não passou incólume às críticas – muitas merecidas, e outras até motivando a mea culpa do apresentador. Por vezes, Jô desdenhou das ideias de seus entrevistados, enquanto noutras oportunidades passou praticamente toda a entrevista rasgando elogios para seus amigos de longa data. Por vaidade ou por descuido, cometeu erros como é de praxe de todo ser humano. Assim, sua relevância pode até ser colocada em perspectiva, mas jamais ignorada.

Neste mês de dezembro, o Programa do Jô encerra sua exibição, terminando concomitantemente quase três décadas de seu talk show. E ninguém ainda sabe do futuro do artista. Cá entre nós, desconfio que será bem humorado. Com um jazzinho de fundo, é claro.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 15/12/2016.

A aventura do descobrimento

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O interesse dele era por todas as coisas. Acredite-me quando repito: ele realmente sentia uma curiosidade tão absoluta que, às vezes, parecia quase explodir. Felizmente, claro, nunca lhe aconteceu nada demais. Houve aquele acidente de barco tão logo completou 18 anos, mas ficou por aí. De resto, manteve-se saudável para contemplar o mundo como nunca antes.

No mar, no céu e na terra, encontrava motivos para sua aventura do descobrimento. E talvez ele fosse mesmo um descobridor à maneira clássica. Pouco importava se toda a superfície do globo já estava mapeada: para ele, a novidade era como a surpresa de um encontro para lá de esperado. E, se bem me lembro, a vida lhe deu muitas oportunidades para que seus planos fossem exitosos.

Como marinheiro, conheceu mares e portos em todos os continentes. Em cada país, um reencontro com o seu eu mais profundo. Via o reflexo de si mesmo ainda que estivesse ligeiramente diferente. Os olhos puxados dos orientais eram os seus; a pele escura dos africanos era a sua; os cabelos cor de fogo dos nórdicos também eram os seus. As viagens lhe proporcionaram uma identidade única, mista, completa e radical. Foi um exercício de humanidade que ultrapassou as fronteiras antropológicas, históricas e sociais. Ficou tocado e maravilhado por descobrir nos outros e em si mesmo os dilemas, anseios e qualidades de sempre, cada qual adaptado pela cultura e pelo ambiente.

Não que estivesse cansado do balanço do mar e nem de conhecer tanta gente interessante, mas decidiu que era hora de navegar em ondas menos literais e mais literárias. Ainda me recordo do momento em que ele anunciou para alguns amigos em comum seus novos rumos. Estávamos todos reunidos para uma festa de final de ano, quando ele se levantou da cadeira e ergueu sua taça de vinho. “Às letras, às letras”, gritou sobressaltado, como se aquilo fizesse sentido para outrem. Sorrimos todos, aceitando o brinde. Ele, por sua vez, mergulhou nas palavras.

Como o acesso à internet era limitado naquele tempo, tratou de ir trabalhar numa biblioteca, onde certamente cumpriu suas leituras de A a Z. Ali também descobriu o imponderável. Mas ainda não haveria de ser o bastante. Queria conhecer a plenitude do cosmos. Amanhã, começará o curso para ser astronauta.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 08/12/2016.

À eternidade

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Ultimamente, tenho desconfiado bastante dos ídolos. Não por questões morais dos indivíduos em si, mas por entender que a fragilidade se esconde até no mais valente dos heróis. Por outro lado, talvez a desconfiança de fato deva pairar naqueles que confiam desesperadamente em seus ídolos. Em última instância, ninguém nos salvará – salvo nós mesmos. Mas essa desconfiança não é um sentimento impulsivo e impensado. Ao contrário, penso que seja resultado de muitas decepções. Afinal, falsos profetas existem desde sempre.

Ainda assim, ter um ídolo ou vários não é necessariamente um problema, tampouco uma questão ética ou moral. A inspiração, por exemplo, é um fruto quase sempre positivo do legado dos ídolos. Reproduzimos suas falas, refazemos seus gestos e encontramos assim a satisfação de um bem maior que nos acostumamos a chamar de exemplo. E também somos exemplos para alguém. Sempre. No trabalho, na família, na escola: muitos olham para nós buscando alguma nuance que lhes possa trazer algo, mesmo que de modo inconsciente. Até nossos rivais nos ensinam a fazer diferente. O exemplo é a forma mais antiga de aprender.

Entrementes, aprendemos com os ídolos lhes dando uma relevância muitas vezes demasiada. Mas tudo bem. Não temos réguas ou equivalentes para medir o entusiasmo e a fascinação. Além do mais, quando somos encantados por algo ou alguém, deixamos a razão de lado porque sem ela tudo fica mais divertido. E merecemos curtir um pouco todas as possibilidades – com prudência, claro. Exagerar é bom, mas tem seu preço. E os ídolos de multidões estão cansados de saber disso.

Escrevi sobre ídolos para chegar, enfim, naqueles que se foram. A tragédia do voo 2933 que tirou a vida de mais de 70 pessoas levou consigo muitos ídolos no dia 28/11/2016. E não foram apenas aqueles do esporte, ligados à delegação da Chapecoense ou dos veículos de imprensa que iriam cobrir a partida do time pela Copa Sul-Americana. Estes, principalmente os jogadores, eram ídolos de milhares e se tornaram lendas para milhões. Mas como todas as vidas são essencialmente iguais, todas as mortes representam as partidas de ídolos – para um pai, um filho, um amigo, um amor…

Desconfio dos ídolos, mas não lhes tiro a importância que tiveram em vida. E se todos podem ser ídolos, desconfio que todos abraçarão a eternidade.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 01/12/2016.