Os tempos de Shakespeare e Machado de Assis


As comparações entre William Shakespeare e Machado de Assis podem ser as mais diversas, tanto em relação às suas vidas quanto em função de suas obras. Ambos viveram momentos de transição secular (do século XIV para o XV, no caso de Shakespeare e do XIX para o XX, para Machado), quando novas ideias se faziam vibrar no ar e na mente das pessoas.

Shakespeare pegou um momento de protestantismo latente, fatos históricos marcantes para a Inglaterra e uma cena teatral propícia para seus escritos que misturavam o popular e a tradição clássica.

Machado de Assis caminhou por linhas similares, sendo até mesmo acusado de modernista! – um modernismo positivista à época –, o qual sempre criticou. Isso porque Machado não fazia questão de navegar na moda do momento, quando o naturalismo romântico (alguém aí falou em Eça de Queirós?). O autor carioca quase nunca saiu do Rio de Janeiro (a cidade), mas parece que seus textos exploravam a alma do brasileiro não como quem define características nacionalistas (José de Alencar?), mas como o explorador de uma nação que sempre questiona a si mesma na eterna questão “quem somos nós?”.

Shakespeare inventou o humano e Machado o explorou internamente.

Logo, eis que a melhor dramaturgia vêm daquela ilha europeia chamada Inglaterra; a melhor narrativa em prosa está abaixo da linha do Equador, onde costumam dizer que é a pátria d’Ele.

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Nunca é tarde demais

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De tarde. O sol vai mais um pouquinho para lá, querendo se esconder de alguns para se exibir aos outros. O tempo, lentamente, avança sobre si mesmo. Vez por outra, nesse intervalo do dia, quando há indecisão entre a tarde e a noite, passo em frente ao clube. Parados, diria até mesmo ansiosos, homens e mulheres com muita idade aguçados pela iminência da dança, da realização, da satisfação…

A porta está fechada, mas eles esperam. Imagino cá que muitos deles já estão aposentados, cumprindo um ritual que lhes completa. Alguns ajustam os óculos, apertam os cintos, desamassam as saias, passam a mão nos cabelos, preparados que só eles para o baile. Solteiros, casados, viúvos, descompromissados. Tantos acasos de histórias reunidas num mesmo ambiente. E como chegarem até ali? Tenho algumas hipóteses.

Não há sequer um milionário entre eles. Talvez, aquela alma de maior sorte tenha sido uma grande empresária do ramo imobiliário. Após perder tudo em oscilações na bolsa de valores, voltou-se para a segunda atividade que sabia fazer melhor: a dança. Dois ou três deles eram caminhoneiros. Viajaram o país inteiro e já não conseguem mais ficar muito tempo no mesmo lugar; por isso, sacodem o corpo para lá e para cá. Também se fazem presente os advogados sem gravata, as juízas sem a toga, os cozinheiros sem o avental, as policiais sem a farda… Hoje, exatamente ali, o que os identifica é tão somente a habilidade com que balançam.

Porque são humanos, e muito vividos, traquinam com a experiência de outros tempos. Longe de serem velhos, tornam-se uma novidade para si mesmos. Flertam. Os abalos sísmicos provocados por dois corpos distintos ou iguais, complementares e espelhados, retumbam. De longe, bem afastado mesmo, também somos sacudidos com o ritmo, a cadência, a ginga de quem não foi apenas passado, mas sim um total de presentes.

De fato, jamais entrei numa matinê destas. Meus calcanhares nunca ultrapassaram a porta. Fiz todas essas deduções da porta do carro para dentro, nas muitas vezes que observei da janela esse entusiasmo vespertino. Ainda assim, ouso idealizar o mais belo dos cenários, porque aquele me parece ser um bom jeito de viver.

Anoitece. A música diminui até cessar. A lua chega para abençoar o sono dos dançarinos.

Nunca é tarde demais.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 10/08/2017.

Mudando os livros

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Estou quase terminando uma nova mudança de endereço. Permaneço no mesmo bairro, mantendo os hábitos e lugares de sempre, necessários à sobrevivência do cotidiano: padaria, farmácia, posto de gasolina e outros lugares onde deixo boa parte do que recebo. A questão não é a distância em si, mas a sensação de que tudo o que possuímos (sim, esses algo nobres e algo fúteis bens materiais) parece ter um significado diferente quando temos nós mesmos de carregar.

Ao longo de vários anos, acumulei algumas centenas de livros, muitos dos quais tenho a nítida certeza de que jamais os lerei. Mas uma coleção não tem a ver com fim. Para o colecionador, o assunto em si nunca está acabado. Por sorte e um milhão de outros motivos, tive as condições necessárias para adquirir estes objetos que, como disse o escritor Jorge Luis Borges, são a extensão da memória e da imaginação. Entretanto, quando você compra um novo livro (ou usado, para quem curte o bom e velho sebo), não está imaginando que terá de carregá-lo junto com outros tantos em sua próxima mudança. E, creiam-me, livros pesam. Bastante. Guardados numa caixa, livros voltam à origem e se tornam árvores, pesando quais troncos maciços. Quanto maior a caixa, mais difícil de carregá-la. “Conformar-se; este é o único caminho”, repito isso para mim mesmo tentando diminuir as dores nas costas e nos braços.

Nesta mudança, dei prioridade para os móveis maiores. Trouxe a cama, o sofá, a mesa de jantar, o guarda-roupa… tinha de começar pelo mais difícil – pelo menos, era no que eu queria acreditar. Trouxe alguns livros, claro, principalmente aqueles que estavam foram da estante por uma razão ou outra – além de ter esse estranho hábito de ler mais de uma obra ao mesmo tempo, misturando as histórias, torcendo para que o herói da idade média de um livro embarque na nave espacial de outro exemplar totalmente distinto.

Ter um lugar para chamar de seu, mesmo que por um tempo determinado, já é uma conquista e tanto nesses tempos semi-insanos. O mundo inteiro está uma grande bagunça e eu cá preocupado em manter organizada minha coleção de livros! Penso que seja exatamente por aí. Estou em outro endereço, mas quem fez algumas das principais mudanças em minha vida foram os livros. Benditos objetos – mas precisavam ser tão pesados? Ainda há tantos para mudar…

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 02/08/2017.

Bastião dos dias idos

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Não sei se foi por causa do frio, mas encontrei na baixa temperatura um pretexto para rever fotos do meu passado escolar. Pode parecer estranho para alguns com a imaginação virada para o futuro, mas volta e meia me pego sonhando com aqueles dias de estudante, cada vez mais distantes. Vai daí que, ao rever umas fotografias antigas ao lado dos colegas de classe de então, correu–me um segundo frio pelo corpo, como se pudesse estabelecer algum tipo de contato com aqueles dias idos, avisando a mim e a todos que dali em diante a vida traria tantas venturas e desacertos para os quais ninguém precisaria ter medo.

Até a adolescência, fui um aluno de notas boas, nada excepcionais. Tive meus dilemas e dramas pessoais para com os números (até hoje não faço a menor ideia como utilizar um logaritmo em meu benefício), mas passei com razoável tranquilidade nas demais disciplinas. Como a maioria, tive amizades marcantes, daquelas que a gente lembra com saudade e a certeza de que cumprimos nossa parte nessa espécie de contrato social, firmado apenas com abraços e sentimentos de cumplicidade. Os contatos, porém, perderam-se no caminho. Não lamento suas ausências, todavia. Se assim foi, assim teve sua razão de ser.

Curioso mesmo foi entrar num grupo online formado por ex-alunos do meu antigo colégio. Entre fotos de pospostos conhecidos e ilustres estranhos, fiquei com a impressão de que um aluno se repetia em várias imagens, com turmas diferentes e até mesmo distantes no tempo. Clique após clique, foto após foto, lá estava ele, com a expressão idêntica e praticamente a mesma idade, tanto na década de 1980 quanto na seguinte. Minha mente crônica, claro, vislumbrou ali um mote para uma história, quase um thriller surrealista ou uma epopeia mirim baseada em fatos legítimos-ligeiramente-distorcidos. Pareceu-me, sobretudo, que aquele garoto era a Lembrança em si e não exatamente uma pessoa. Ele estava ali como que se certificando da atuação do tempo, um bastião de uma era, posando para as lentes fotográficas apenas com a intenção de ecoar nos dias frios e eternos.

Ondas de nostalgia vêm e vão; já aprendi a lição. Felizmente, não tenho tarefas envolvendo logaritmos para entregar no dia seguinte.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 20/07/2017.

Preso à liberdade

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Como tudo o mais, conceitos mudam com o tempo. Não se trata da evolução da ideia em si, mas sim do seu entendimento próprio à época. Enquanto uns temas são menos polêmicos, outros nascem e procriam sob a égide da controvérsia; eis o caso da liberdade.

Em um sentido bruto, total e diria até mesmo pleno, a liberdade soa como um conceito inventado por um louco de marca maior. A essência absoluta da liberdade é o caos, o Big Bang em seu momento inicial e único, mais rápido do que o tempo é capaz de medir. Na prática cotidiana, claro, imputamos à liberdade tantos limites que só assim ela é capaz de fazer sentido, trazendo-nos alguma utilidade mesmo que questionável.

Por hora, vamos deixar de lados aquelas típicas polêmicas de academia – tão démodé nas cadeiras das ciências humanas – que insistem em teorizar sobre as diferenças entre liberdade e libertinagem. Há coisas mais urgentes, como a chaleira de água apitando na cozinha. Este átimo de conversa franca se completa na frase genial de Sartre: “O ser humano está condenado a ser livre”. Claro que, quando dita em francês, a frase parece ser muito mais bonita do que é. O que está no cerne da visão do filósofo é o uso não casual do termo “condenado”, justamente associado à ideia de liberdade. Se para um existencialista de plantão a expressão vem a calhar, para nós que desejamos ter um mínimo de intimidade com o metafísico tal assertiva pode cair qual um balde de água gelada num dia de vento sul. Esta é a liberdade de todos os tempos, sempre contextualizada dentro de leis, governos e seus equivalentes. Não há, por enquanto, uma máquina a nos vigiar o pensamento, mas outros aparelhos já ficaram com a fiscalização de quase todo o resto. E, antes das máquinas, as próprias pessoas limitavam e ainda limitam seus iguais por uma outra abstração chamada poder.

No Brasil de 12/07/2017, um juiz condena um ex-presidente da república a nove anos e meio de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. E como os conceitos mudam com o tempo, a própria justiça ou o sistema judiciário em si passam a ser suspeitos numa onda desestabilizadora que parece não ter fim.

Antes a humanidade condenada à liberdade do que a liberdade condenada ao esquecimento.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 13/07/2017.

Surpresas nas caixas

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Falam por aí que a vida é uma caixinha de bombons porque nunca sabemos o que encontraremos em seu interior. No caso específico desta expressão, a vida é um sinônimo para humanidade, quase como um olhar de surpresa para si mesma. Como no castelo de A Bela e a Fera, quem se arrisca a descobrir seus segredos poderá levar um baita susto de imediato – depois, com algum quinhão de sorte, talvez até role uma dança no salão de festas. As grandes histórias são aquelas que colocam tudo em perspectiva, afundando-nos em nossa miséria e, igualmente, exaltando-nos qual o grande sentido de toda a criação. Os conflitos nos movem adiante. E os bombons deixam tudo ainda mais gostoso.

Anterior ao caso de amor envolvendo a Fera e a Bela, damos com outra caixa igualmente insuspeita. Pandora, a primeira mulher segundo a mitologia grega, recebeu como presente de casamento uma caixa contendo todos os males. Há muitas versões da trama, como convém a toda mitologia, por sinal. E nalguma atualização da narrativa, o autor desconvidaria o traiçoeiro que trouxe tão ordinário presente a uma festa de casamento. Por que não dar um forno micro-ondas ou um jogo de jantar? Mas justo uma caixa com todos os males? Oras, todos sabem que uma caixa é um convite à curiosidade. Qualquer comprador de depósitos abandonados do século XXI anseia por encontrar tesouros no mais simples caixote. Agora, imaginem o ardor de Pandora, uns bons tantos mil anos antes de Cristo, observando por horas a fio aquela caixa enigmática. Claro que ela não resistiu. Os otimistas ainda dirão: – Felizmente, a Esperança ainda ficou no fundo da Caixa de Pandora. Qual o quê! Justo a Esperança que é um sonho infinito. A Esperança, sob esse aspecto mítico, nunca se transforma. É algo do tipo vida e morte. A vida é estar; enquanto a morte já não é nada. Não se trata de discutir aqui sobre o além ou coisa que o valha, mas a simples constatação de que o não estar aqui não possui significado concreto: morte é ausência. Esperança é não-realização; por isso, não devemos esperar nada.

Na minha casa, guardo um baú. No baú, documentos de ontem e hoje. Vez por outra, retorno a eles, buscando surpresas mesmo naquilo que já sei de cor. Quando não encontro nada de novo, vou ao mercado e compro uma caixa de bombons que está em promoção.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 06/07/2017.

Primeiras impressões

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O ditado é popular. Você já o ouviu nalguma oportunidade. Pode até discordar dele, mas não deixa de compreender seu sentido. Talvez até mesmo o tenha utilizado de modo inconsciente, contrariando seus princípios mais íntimos. Mas não se culpe. “A primeira impressão é a que fica”, alguém vociferou prematuramente. E daí para cair na boca das pessoas foi uma mera questão de tempo e lugar.

Mas se as primeiras impressões são importantes para alguns no que compete às pessoas, façamos sempre uma ressalva destemida para as artes. Ou, mais especificamente, tratemos aqui com alguma gentileza dos impressionistas, para quem as impressões iniciais da vida, da natureza e das pessoas iam muito além de um encontro célere e frívolo. Não é por acaso que o movimento impressionista tenha sido batizado a partir da obra “Impressão: nascer do sol” de Claude Monet, terminada em 1872. Na pintura, a paisagem de um porto, com uma névoa azulada transformando as embarcações em objetos fantasmagóricos. Assim, sob certos aspectos, é a própria natureza ou, ao menos, as impressões de alguns sobre ela, quem rompe com a tradição vigente e, num estalo de genialidade, prepara o mundo para o moderno que também impressionará sobremaneira.

Mas como convém a toda ruptura feita com talento e responsabilidade, a consagração dos impressionistas não foi imediata. Monet, Manet, Renoir e outros tentaram em várias ocasiões entrar no que poderíamos chamar de “grande circuito” da época, então representado pelo Salon de Paris. Evidentemente, foram rejeitados por não se encaixarem ao que estava na tradição dominante, que exigia representações da mitologia grega, cenas históricas ou passagens bíblicas.

No ano de 1874, a Primeira Exposição Impressionista reuniu 165 pinturas de 27 artistas, incluindo nomes como Degas e Cézanne. Na sequência, foi criada a “Société Anonyme des Artistes, Peintres, Sculpteurs, Graveurs”. Ali estava um grupo que revolucionaria a pintura, num gênero preponderantemente paisagístico, que apelava à observação e à percepção.

Cores puras e dissociadas, objetos destacados pela forma singular que incide a luz e sem contornos definidos: Assim era captado o momento. E que ótima primeira impressão!

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 29/06/2017.

 

As definições do cronista

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Quisera definir o amor ou, quiçá, uma coisa menos espetacular como a paixão. Ter respostas para perguntas diretas, simples e objetivas, explicando o que é a vida?, por que existimos?, para onde vamos? Assim, poderia equilibrar os sonhos no mesmo pêndulo da realidade que insiste em se voltar para nós. Com um pouco de obstinação, entenderia essa vontade indômita para com o tempo, o espaço, as coisas belas e sujas que encontramos ao longo do caminho. Tamanho conhecimento teria grande valor para medir as ideias mais sublimes, que se desmancham no ar feito algodão doce tomando vento.

Essa experiência do dia zero ao dia final acontece tendo a companhia constante de incertezas, dúvidas e suspeitas. Não, não é pessimismo. Tanto mistério pode ser ainda mais interessante. Só que um tantinho de fatos definitivos não fariam mal a ninguém. A própria narrativa histórica agradeceria se a verdade tivesse um lado, pelo menos uma vez na história. “Em cada lago a lua toda brilha porque alta vive”. Procure a referência.

Na metade do caminho (ou antes ou depois), você se dá conta de tudo que ainda não aprendeu. Pode ter a ver com as suas escolhas – algumas vezes tem mesmo –, mas é provável que uma imagem qualquer de você mesmo tenha se projetado no primeiro muro ou espelho que se lhe atravessou. Sem mais, nem menos. Único e igual a todo o resto. A vontade foi ainda mais forte do que nas oportunidades passadas. Olhando com cuidado, meio que de repente, parece ser o momento certo para colocar tudo em perspectiva. E é o que se dá neste exato instante. Precisão. Paixão. Amor.

Por um momento ou dois, você ainda insiste em culpar o destino. Eu, particularmente, já deixei de fazê-lo há tempos. Na maioria dos casos, culpas ou responsabilidades só adiam a leitura do contexto, cegam-lhe os olhos feito spray de pimenta em manifestações de rua. Não tenho interesse em visitar sinas e esquinas mais do que uma vez. Tomando fôlego, a odisseia será menos heroica e mais cotidiana. Alguém continuará tramando os tapetes que nunca chegam ao fim porque o personagem principal ainda está perdido, qual o filho que volta para casa depois dos 30 anos.

Quem não encontra respostas ou definições continua a tecer crônicas. Nisso eu acredito.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/06/2017.

Contar uma história

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Após a leitura do título, um aviso essencial: qualquer pessoa pode contar uma história. Variam intenções e formatos, mas o drama humano é sempre o ponto de partida. Você pode falar de outras espécies vivas, deste ou de outro planeta, ou mesmo traçar uma narrativa sobre objetos inanimados. Não importa. O drama estará ali, em seu sentido verbal e não naquele popular que o assemelha ao desespero.

Qualquer história parte sempre da própria experiência. Um biógrafo jamais conseguiria escrever sobre alguém sem jogar em seu biografado suas próprias expectativas. Tanto faz gostar ou não dos personagens (reais ou fictícios), o autor escolherá o recorte que dirá um tanto de si e outro tanto do outro.

Sim, isso acontece com os cronistas também. Quando nosso texto fica enquadrado dentro do jornal, temos uma liberdade limitada pelo conhecimento que adquirimos e nada além disso. Ninguém pode escrever pelo outro – só assinar pelo outro, o que não passa de pura vigarice. Os mínimos fatos e argumentos que se transformam em crônicas vieram de muito longe para ganhar a forma final. Mesmo assim, depois de publicada, não raro o autor faria mais uma revisão, alterando uma palavrinha apenas, porque a perfeição nunca chega e temos de nos conformar.

Contar uma história pode transformar um momento trivial num momento único. Até os temas mais cotidianos, como a violência, a corrupção e o fim do namoro ganharão contornos singulares quando a inspiração do autor encontra o respaldo necessário no ato de criar. Rio encontra o mar; as águas oceanam-se. Uma crônica não é muito diferente disso, só que bem menos molhada.

Não acredito que existam receitas infalíveis, seja para bolos de chocolate ou para bolar uma história. Uns e outros dependem de muitas variáveis, incluindo, evidentemente, o receptor. Se saborosos ou não, bolos ou histórias fogem ao controle de quem os criou. Ainda assim, acredito que há sempre possibilidades de ser bem recompensado, mesmo que a satisfação esteja na obra em si.

O show não pode parar assim como a história tende a continuar. O próximo a contar mais sobre o drama humano pode fazê-lo com a certeza de que terá de nós alguma compaixão – afinal, padecemos do mesmo bem.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 25/05/2017.

Em tempo

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Creio que não exista pessoa que nunca quis viajar no tempo, principalmente para o passado. Aquele desejo de consertar as coisas ou conviver novamente com figuras que já partiram faz parte desta mistura entre ficção científica e nostalgia. A ciência nos leva a acreditar que, quanto mais o tempo passa, mais estamos perto de dobrar o tempo à nossa vontade. E isso parece sobremaneira injusto com quem veio antes.

Todo mundo deveria ter uma cota de viagens no tempo. Poderíamos viajar uma vez aos trinta anos e outra aos sessenta, por exemplo. Assim, ajeitaríamos aquelas coisinhas que ficaram não ditas pelo medo de não dar certo. Hoje, porém, sabemos o resultado. Compreendemos que muito do que fizemos ou deixamos de fazer teve implicações questionáveis, ainda que importantes. Olhar para trás é buscar o entendimento: o texto só faz sentido depois de lido.

A ideia de uma máquina do tempo soa fascinante, mas principalmente excludente. É preciso tempo (claro!), dinheiro, uma boa dose de loucura e outra de conhecimento científico para elaborar tamanha empreitada. Além do mais, o criador de uma máquina assim certamente a trataria com egoísmo justamente por participar de um poder que, em princípio, só caberia a uma divindade. Quem rala para colocar a comida na mesa no dia seguinte jamais teria tempo para bolar algo tão mirabolante e, quando muito, ficaria sabendo disso apenas pelos jornais.

Sob um aspecto bem orgânico, a viagem no tempo é a própria existência. Estamos permanentemente presos ao presente, em contato direto com tudo o que veio antes e caminhando com o momento seguinte. E se não ficamos satisfeitos com tal odisseia, é porque aprendemos a carregar o mistério qual uma mochila que há muito deixou de incomodar as costas. O insucesso da onipotência é parte da graça, quer seja para o soberano, quer seja para o bobo da corte.

Entrementes, viajar no tempo é uma máscara para lidar com o conhecimento adquirido. De nada adiantaria ir ao passado sem carregar na bagagem toda a nossa experiência até aqui. Se assim o fizéssemos, cometeríamos os mesmos erros e acertos porque não se pode alterar aquilo que jamais foi.

Eu sei exatamente para quando voltaria. E você?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 18/05/2017.

O ser literário

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Disse, nas duas ou três vezes que me perguntaram, que literatura é tudo aquilo que está escrito. Claro, alguns dirão que tamanha isenção ou tão abrangente definição de pouco adianta para fins práticos. A estes, então, cabe toda a liberdade de escolha para pôr as coisas sob suas óticas particulares. Pois se não temos um acordo sob a ortografia que dirá sob uma forma de arte tão singular quanto a literatura?

Dito isto, podemos nos concentrar naquilo que nos apetece: as palavras. Pensamos por meio delas e, ainda assim, não lhes damos o devido valor. A etimologia mais profunda chegará num abismo infinito que atenderá pela dupla alcunha Necessidade-Criatividade. Penso que não existem raízes mais resistentes em quaisquer formas de arte ou comunicação. A Necessidade da palavra – que nasce sonora antes de ser escrita – supre uma condição inerente ao homem de ir além do mundo ao seu redor. Já a Criatividade que lhe acompanha é a explicação de si mesma; imaginamos sua origem a partir de nossa própria mente criativa; talvez seja Deus, talvez seja a ciência, talvez seja outra coisa – e este é um mistério para o qual, de certo modo, estamos preparados.

A palavra escrita e a literatura são entidades que tendem a flertar com uma ideia de imortalidade. Permitimo-nos imaginar um mundo sem nós quando deixamos versos, fatos e versões nalgumas páginas, quer sejam de papel ou não. Escrever é acreditar que o passado fará diferença no futuro. Em verdade, praticamente ninguém escreve para ser lido no mesmo instante. É até meio chato quando alguém fica sob o seu ombro conferindo cada nova letra que surge para complementar a anterior. Assim, o mais exibido dos autores ficará inibido porque a literatura nasceu para ser uma prática solitária, diferentemente do cinema, da música, da pintura…

Imortais ou não, continuamos a escrever. Eu aqui em 2017 e você que agora me lê no século XXII estaremos ligados até o final desta crônica, mesmo que nunca tenhamos nos esbarrado pelo tempo. De qualquer modo, a veia artística da literatura tem muito mais a ver em fazer perguntas do que entregar respostas insatisfatórias. A literatura é sobre ser. É ou não é?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 11/05/2017.

Crônica sobre adolescentes

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Não é novidade dizer que os adolescentes são uma espécie curiosa. Eles estão naquela mística fronteira do que já foi e do que ainda não é. Nem criança, tampouco adulto. Já paga suas contas, mas não ganha para seu sustento. Os que têm oportunidades estudam. Os mais ansiosos querem sair de casa e abraçar o mundo – ‘inda mais nesse tempo de distância encurtadas pela proximidade virtual. Não satisfeitos com uma única causa, assumem para si o passo seguinte da humanidade. Eles não compreendem as próprias mutações, mas não tardam a bradar por revoluções e mudanças de ordem prioritária. Claro, há os que abstêm – mas aí não são apenas os adolescentes.

Ainda que uma experiência individual não justifique o entendimento sobre toda uma espécie, teço cá algumas nuanças sobre o tema porque já passei pela adolescência. Se tive facilidades para algumas coisas, como criar uma redação, por exemplo, passei por grandes desafios que cabem a todo principiante. Erramos; aprendemos. Às vezes, erramos de novo, mas por outros motivos, e assim seguimos até que nos damos por amadurecidos – e aqui vai de brinde um segredinho: ninguém nunca amadurece por completo.

O adolescente ou a adolescente tem todo o direito de errar. Mas, espere aí um momento: não vá ser um vacilão. Os erros de quem tem caráter são bem distintos daqueles que insistem no conforto do conflito. Para minha limitada compreensão desta espécie, o que causa preocupação mesmo são as influências. E, ainda que negue veementemente, o adolescente é influenciado o tempo todo. A experiência causa dores, frustrações e afins que bloqueiam grande parte destas sugestões de terceiros. Antes que venha a apreensão, calma lá: tem muito divertimento e alegria pelo caminho. Difícil é dosar o entendimento do que faz bem ou mal para a mente e o corpo. Daí a importância de ter a constância de uma companhia experiente, que seja mentora de novas ideias e não uma reprodutora de conceitos ultrapassados.

Adolescentes, provavelmente, pouco se importam para o que pensamos deles. “Uma crônica de jornal? Bláh!”, exclama um deles hipoteticamente, com toda a autoridade de sua jovem idade. E, então, pensamos: na nossa época, também éramos assim?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 20/04/2017.

Nome na lista

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A lista de Fachin. De maneira geral, foi assim que a imprensa brasileira apelidou o pedido de abertura de inquérito para 76 figuras da política brasileira. O ato, realizado pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, parece realmente merecer um título à parte, como uma narrativa que será contada em jornais do presente e nos livros de história do futuro. Com oito ministros, 24 senadores, 39 deputados e três governadores entre os envolvidos, parece mesmo que há algo de podre no reino da política brasileira. E olha que alguns ainda se esforçam para a situação piorar.

Como tantos milhões de brasileiros, vejo a lista do Fachin com profunda lamentação. Temos ali nomes que vêm discutindo um (pseudo) projeto de nação há anos, alguns deles participantes ativos em momentos de lutas pró-democracia, como o movimento Diretas Já. Hoje, suspeitos que são de cometerem crimes contra o país, perdem o pouco do respeito que alguns de nós ainda resguardam aos políticos.

No meu tempo de escola, ter o nome na lista era uma coisa quase sempre boa. Estar na lista de uma festa, era pertencer ao grupo de alguns escolhidos. Claro, havia qualquer coisa de exclusão ali também, mas a cabeça adolescente era e é um poço de contradições. Quando da época das olimpíadas escolares, o nome na lista não garantia a participação na modalidade esportiva em questão, mas era uma possibilidade de medalha caso a equipe saísse vitoriosa.

Na época da faculdade, tínhamos de lidar com algumas listas voluntárias e outras obrigatórias. As voluntárias eram para atividades não necessariamente acadêmicas, como viagens extracurriculares, festas coletivas (um organizava, todos contribuíam) ou mesmo para participar da formatura, gastando uma grana alta com local, banda & afins. Já as listas obrigatórias diziam respeito à presença na sala de aula. Uns professores cobravam, outros não. Mesmo assim, assinar a lista de presença era um gesto de comprometimento positivo porque havia certo orgulho naquele movimento manual.

Por sua vez, a lista de Fachin parece incluir muita gente bem instruída, porém mal educada. Depois de aproveitar um bocado, esse pessoal poderá se entender com a lei e, por fim, compreender que um nome na lista também pode ser uma grande roubada.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 13/04/2017.

 

Sim

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Aí eles meio que se reencontraram sem ter nada para dizer um ao outro. Ele estava precisamente no meio da primeira palavra de uma pergunta quando ela o interrompeu dizendo…

– Sim!

Sim? Mas como assim? A mente dele se encheu de possibilidades, como se vivesse num tempo antigo e descobrisse que o mundo não era o centro do Universo. Tivesse à mão um lápis ou um teclado e um mouse, escreveria 172 páginas de boas intenções apenas para corroborar aquela exclamação. Tudo bem que o passado deles não era nada fora do comum, mas talvez fosse bem por aí que tudo faria sentido. As briguinhas e birras de cada um ganhavam novos significados revigorantes. No fim, era uma luta de amor; um confronto para ver quem gostava mais do outro. Lembrou com alguma fina ironia das incontáveis cenas de ciúme que promovera em público; ela, com o rosto vermelho, sem saber se deveria pedir desculpas aos demais presentes do ato ignóbil ou apenas ignorá-lo. Tudo isso era um passado que ficara sedimentado sob uma única palavra-bomba: Sim!

Sim. Ela estava ali mesmo. De verdade. Um de frente para o outro. E ele não conseguira sequer terminar a primeira palavra de uma pergunta da qual nem mesmo se recordava. O tempo parara, comprimindo o presente num átimo de amor. Após tanto tempo, eles se reencontraram justamente naquele lugar que sediara a grande revelação. Eles queriam tanto ter um filho juntos, mas ele não era capaz. Uma doença na juventude o privara de deixar qualquer legado da sua carne e de seu sangue. Talvez a dor tenha começado ali ou, quem sabe, tal situação serviu apenas de estopim para um relacionamento já debilitado pelas fracas atuações de seus protagonistas. Tinham muito vigor e pouco foco. E perderam de vez para a inércia. Mas não hoje; não agora.

Sim. Uma palavra muda tudo. Não era preciso de outra explicação. Os olhares cruzados se compreenderam naquele instante. O centro do Universo voltara a ser ali, pelo menos metaforicamente (deem-lhes um desconto). Eles ganharam uma nova chance do acaso e estavam dispostos a seguir em frente. E seguiram. Os corpos se chocaram suavemente. A música da discoteca como que desapareceu sensorialmente. E tudo o que sobrara ali fora carne, suor e um beijo longo e demorado.

– Sim.

Ele repetiu.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 06/04/2017.

Boa fé

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Hoje, o dia vai ser legal. Senti isso assim que uma lufada de vento gostoso, com cheiro de sorvete e sabor de orvalho, invadiu meu quarto. Coloquei a coberta de lado; não era preciso dobrar a roupa de cama. Teremos tempos melhores para isso. Com um pouco de fé e uma xícara de café, o mundo está pronto para se abrir, como uma janela que recebeu óleo em suas juntas.

Por alguns instantes, talvez até mesmo horas, deixo as notícias tristes de lado e me embalo com a felicidade. São tantas as possibilidades que chego a me perder. Ensaios, enredos, tramas, temas: a ocasião faz o bom ladrão de sonhos e beijos e abraços. Robin Hood ainda mais romântico do que nos romances de capa-e-espada. Muito amor e nenhuma arma.

Na pracinha do bairro, a reunião de alunos após a aula matinal às vésperas do almoço. Observo-os com atenção. Riem e atropelam as palavras com a urgência de quem vive o juízo final – “só que não”, eles mesmos completam antenados com a gíria da vez. Espertos e exagerados, como sempre compete aos adolescentes. Entre a ingenuidade e a crítica mordaz, cometem os erros que a idade lhes oferece. Todos encontram algum tipo de alegria, longe de uma geração mais velha, antiga e reacionária.

Ali próximo, no parquinho infantil, aquela energia de quem está sobremaneira ansioso para crescer e se tornar um super-herói ou um professor (duas das profissões mais ousadas de que temos notícias). Crianças interagem com os tatibitates, fazendo-nos crer no entendimento entre povos, nações, religiões, partidos e ideologias. Pequenas amostras muito mais relevantes que um estudo detalhado do genoma humano. Ah, e nada contra a ciência; pelo contrário. Somos filhos do átomo em permanente evolução.

Há um mistério superior que sempre vai nos escapar. E isso não me incomoda. Tenho boa fé nos detalhes que ainda são tão emocionantes quanto a própria aventura principal. Cada qual à sua maneira, mas numa única narrativa compartilhada, como se fosse possível shippar a humanidade. Ou, sei lá, ao menos cutucá-la pelo Facebook.

Nesse clima supimpa, aceno com as duas mãos. Estou te convidando para dar o fora daqui, agora mesmo. O sol está meio escondido, mas quem se importa? Já desliguei o celular. Hoje, o mundo será o bastante. Amanhã, vamos querer ainda mais.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 30/03/2017.

Aniversário de Floripa

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Você fica sabendo do aniversário de Florianópolis pelo telefone celular. Terra em que nasceu ou escolheu para ser seu lar. São 344 anos resumidos em um único bipe; mas há muitos outros dias idos ainda no tempo de Meiembipe. As tradições gostam de marcar o tempo por cerimônias formais. E não importa se muito antes de Dias Velho já moravam as tribos locais. Antes, apenas uma Ilha perdida no meio do mar. Hoje, o continente trouxe histórias para somar.

– Mas, esperem aí, esta Ilha não é o paraíso de que todos falam?, pergunta o visitante oriundo de um país estrangeiro.

– Talvez seja, ô. Mas mesmo no paraíso há os que apenas consentem e calam!, responde o ilhéu com seu típico linguajar ligeiro.

Como toda metrópole, esta é uma cidade de dicotomias e desigualdades. Mas quem a conhece de perto, e parte, sempre carrega consigo amigos e saudades. No fundo, somos todos imigrantes numa terra cheia de leis. Porque a natureza não reconhece cartórios ou reis. Em alguns lugares, há corpos delineados por plásticas e carros importados num clima de ostentação. Noutras regiões, a infraestrutura mais básica sequer recebe alguma atenção. Os erros se repetem em todo o mundo, mesmo que tenhamos o sentimento mais profundo.

Na esfera pública, os aniversários de um município são praticamente todos iguais. Se há dinheiro no caixa, a população se anima toda para ver artistas internacionais. Seria uma contradição celebrar o lugar e exaltar o exterior? Ou talvez esta seja nada mais que uma questão posterior. Na pergunta primeira, gritamos: – O que temos para celebrar? E, com o rabo entre as pernas, fingem ter alguma noção para administrar. É a velha e manjada narrativa de quem escolhe um progresso que nada se parece com um justo futuro. No outro lado da balança, os moradores (a grande maioria) seguem firmes sem sucesso, pagando impostos e trabalhando duro.

Tudo bem, ô, falemos de coisas boas e divertidas. Como um chopp no Mercado ou a quitação das dívidas. Afinal, o dia parece ser muito mais urgente. Assim o é para mim e para toda gente. Passado e futuro estão noutras estações distantes. Longínquos como os falsos moinhos de Cervantes. Melhor pedir outro chopp em taça tulipa. Afinal, é aniversário de Floripa.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 23/03/2017.

Erudito e popular

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Querem-nos impor as diferenças entre o erudito e o popular na marra. Como se distinção hierárquica fizesse alguém melhor por natureza. Nada disso. Não venham com essa porque não vão ter respaldo algum. Nós aqui do lado mais ansioso e destemido pertencemos ao time dos juntos e misturados; aqueles que encontramos na própria tradição o significado da novidade.

Passamos do grunhido à música de câmara sabendo que um pertence ao outro. A música, aliás, talvez seja a primeira forma de arte porque vem do ritmo. E a natureza é a mãe de todos os ritmos: O bater do coração, a cadência da chuva, a sinfonia do vento nas frestas de uma caverna. Naturalmente, aprendemos.

Da aurora de nossa espécie até o presente momento, percorremos um caminho de conquistas e perdas, mas que esteticamente sempre pareceu qualquer coisa de circular. Retomamos o popular quando o erudito parece não ser o suficiente – e vice-versa. A cultura não se faz por negação, mas por assimilação. Damos a volta ao mundo apenas para nos encontrar em nosso cotidiano tão minúsculo quanto o espaço vazio de um abraço. Abraçamos os diferentes porque não cabemos nesta partes simultâneas chamadas mente e corpo. Somos uma unidade simbiótica, dividida em metades para lá de interessantes.

Erudito e popular também são metades complementares e nada antagônicas. Cada qual ao seu modo aprofunda os dilemas mais necessários e, igualmente, triviais. Como um casal recém apaixonado, eles fecundam ideias impossíveis numa realidade possível. A união é estável, mesmo com os mal amados lhe desejando um divórcio com divisão total de bens. Estetas? Vai saber!

Não conheço qualquer coisa que possa se proclamar estritamente erudita ou popular. Mesmo os maiores sempre foram ambos. Shakespeare, Machado de Assis, Rossellini, Hitchcock, Da Vinci, Monet, Beethoven, Jobim… e tantos outros que se tornaram mestres na simplicidade, munidos de um vasto conhecimento, um tantinho de vaidade e muita coisa de humildade. Um legado mais do que legítimo para quem tem juízo e bom coração.

Na sua próxima festa, chame o erudito e o popular. Talvez seja o único jeito de agradar todos os seus convidados, sejam eles gregos ou troianos.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 16/03/2017.

Cansaço

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Começou a escrever entorpecido de cansaço. Olhou ao redor procurando as horas mal dormidas e não encontrou nada além de ausência. Assuntos não lhe faltavam; era outra coisa que lhe incomodava. Sim, como manda a tradição conservadora, ele tinha a sua própria musa, única que lhe dava atenção quando ninguém mais o fazia. Inspiração também encontrava no próprio mistério da vida; era uma surpresa a cada dia, afinal. Ainda assim, o texto lhe escapava como um rato que descobre a mecânica de uma ratoeira. As palavras se fingiam de mortas nalgum canto qualquer do universo ou de sua mente. Mas o prazo… o prazo!

Não poderia furar de novo. Acontecera duas ou três vezes anteriormente. Uma delas foi puro esquecimento. Outra fora um mal entendido na troca de e-mails. E a última ocorrera por uma ressaca dos diabos – nada mais adequado, já que se dera justamente naquele período chamado inferno astral. Mas seu aniversário já passara há tempos e tudo que restara para si era uma folha em branco.

Escrever é como um duelo de faroeste. De um lado, o rosto concentrado, as mãos ansiosas para realizar seu trabalho, a respiração buscando um ritmo cadenciado. No sentido oposto, uma tela de computador intimidadora, ausente de conteúdo, mas cheia de si, cobrando-lhe a responsabilidade ao sussurrar “mas você quem decidiu ser escritor… não reclame”. Quem saca primeiro ganha a parada e, com sorte, uma história.

Por alguma razão desconhecida, lembrou-se de fragmentos do seu passado. Talvez estivesse buscando uma história pessoal que valesse a pena compartilhar. As desventuras na escola, as trapalhadas românticas da adolescência; momentos mais do que interessantes, mas que pareciam unicamente fazer sentido para si mesmo. Na ficção, o espaço para biografias é muito reduzido. Até mesmo uma crônica não pode carregar muito da vida pessoal autor com o risco de se tornar um autoelogio. O pintor sempre carrega nas tintas quando cobre a parede da própria casa. Por fim, o escritor deixou o passado na gaveta outra vez.

Estava para desistir de tudo. Bolou até uma resposta elaborada sobre uma nova enfermidade, quando veio aquela manjada ideia de falar sobre as dificuldades de escrever. E já tinha até mesmo a primeira frase: “Começou a escrever entorpecido de cansaço”.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 09/03/2017.

Cotidianidades 2017

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Não sei se faz algum sentido aquela velha ideia de que o ano só começa depois do Carnaval – nem enquanto metáfora. A saída de dezembro e a chegada deste 2017 vem acompanhada de fogos reais e bombas simbólicas, ainda mais em tempos de Operação Lava Jato. Já faz algum tempo, aliás, que o tempo não para, mesmo antes do Cazuza cantar isso com seu exagero inconfundível. O ano não apenas começou faz tempo como parece ser o mesmo dos últimos anos.

O erro na apresentação do Oscar de melhor filme e os acidentes em carros alegóricos nas escolas de samba do Rio de Janeiro são cotidianidades de quem nunca esquece a responsabilidade que é viver. Somos imperfeitos, mas não é preciso abusar. No caso do prêmio de cinema, um simples constrangimento transmitido para mais de 200 países pode abalar a empresa de auditoria que cuida há 83 de guardar o nome dos vencedores e entregar o envelope com o nome do premiado até que se diga “And the Oscar goes to”. A arte imita a vida e, por vezes, causa algum prejuízo; as pessoas machucadas pelos acidentes nas escolas de samba que o digam. As equipes organizadoras do Carnaval e do Oscar precisam repensar os detalhes para que este ano não continue a ser o mesmo no ano que vem.

Findo o Carnaval (menos na Bahia, ao que parece, felizmente), Marcelo Odebrecht dá seu depoimento sobre a chapa Dilma-Temer. Não é coincidência. As festas se sucedem tanto no céu quanto no inferno. Cabe a STF dizem se é Deus ou o Diabo quem tem razão na Terra do Sol. O complicado do Brasil é o brasileiro, parece-nos. Tempos extremos, medidas extremas: isso não rende bons poemas.

A efetividade do início do ano após o Carnaval é um mero truque inventado pelos políticos mal intencionados de Brasília. Eles fazem como a Ivete Sangalo que se disfarçou de palhaça para curtir os blocos de rua incógnita. A diferença é que a Ivete é muito mais divertida.

Também por estes dias, a NASA divulgou a existência de novos planetas que podem abrigar vida. Duvidamos, no entanto, que o Carnaval seja comemorado por lá, a cerca de 40 anos-luz de distância da Terra. Tampouco cremos nalguma implicação da empreiteira Odebrecht por aquelas bandas, mas é melhor esperar as delações premiadas.

O tempo não para e, por vezes, repete a si mesmo. “And the Oscar goes to La La Land. Não? Espera um pouco”.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 02/03/2017.

DNA de Carnaval

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As festas e os poderes públicos têm ligações antigas e remontam às primeiras civilizações. Quando surgem as cidades, nada mais clássico do que entreter essa galera cada vez mais reunida, que fazia das próprias paredes os muros divisórios. Gregos e romanos de um passado distante sabiam disso. Já com as tribos indígenas ou os nômades árabes, a coisa parecia ser menos grudenta, com cada um na sua oca ou tenda, mas as festas traziam todos para o mesmo espaço de convivência e, possivelmente, era ali que ficavam sabendo das fofocas dos vizinhos.

Com ou sem líderes, festejar parece estar no sangue da humanidade. Deem mais um tempinho para os biólogos e eles logo encontrarão um bloco carnavalesco unindo Adenina, Timina, Citosina e Guanina, os compostos orgânicos que formam o DNA. Se for em tempos de Carnaval, basta ligar o microscópio e lá veremos o quarteto de abadá florido, ansioso para pular atrás do trio elétrico. A genética sempre será nossa aliada para provarmos que ninguém sabe de nada e o que importa é mesmo curtir o baile.

Hoje, o clima está meio morno, como aquele café no escritório que ninguém bebe mais. Com essa crise aí (esta, em especial), gastar ou investir em festas ficou ruim para todo mundo. Até mesmo os governos, que sempre torraram dinheiro ou o deixaram escoar em desvios ilegais, encontraram desculpas razoáveis para cortar os recursos dos eventos públicos. Mas até o Carnaval?, perguntam os mais entusiasmados. O Carnaval não é um dos atrativos do país, movimentando o mercado interno, atraindo turistas estrangeiros e promovendo as qualidades da nação? Pode ser, ainda que tudo isso aconteça sem a infraestrutura adequada.

Neste momento, o mais pessimista questionaria a necessidade de investir recursos públicos nas festas, em especial no Carnaval, considerado pelos publicitários ufanistas como o maior espetáculo da Terra. Ainda que pertinente, a questão levantada por esse ser de pouca fé não faz qualquer sentido. Traços culturais não existem por causa do Estado, mas apesar dele. O próprio Carnaval é um símbolo disso, com suas origens pagãs que foram solenemente ignoradas quando a festa foi assimilada pela Igreja Católica.

Opa, lá está saindo o Bloco do Genoma! O último a chegar é a mulher do padre!

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 23/02/2017.