Sentido na saudade

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Cada dia é uma nova oportunidade que encontro para me convencer daquilo que pode ser o sentido da vida. Vasculho, mexo, indago e perscruto ideias submetendo-as à lógica de quem só consegue ouvir bem com o coração. Entre uma batida e outra, num suspiro vívido e quase pontiagudo, deparo-me com a singeleza amiúde da saudade. Porque ali está a paz que procuro.

Parece uma obviedade sem tamanho, do tipo frívolo e cujo discurso feito está fartamente preenchendo os livros de autoajuda. Não é. Eu mesmo demorei um bocado para tê-la sob minha companhia, porque os desvios são muitos. E é comum se enganar. A saudade pode tender para um lado triste, pois remete a um tempo que não existe mais. Aí está o engano. O que passou continua a existir para todo o sempre; como uma cicatriz ou uma tatuagem que carregamos sem pesar.

Na correria do cotidiano, não prestamos atenção nas saudades que cultivamos o tempo todo. No meu caso, carrego saudade de três décadas de vida e mais uns anos soltos. Da minha infância nos anos 1980, quase não tenho memórias específicas, de fatos precisos e nítidos em forma de pensamentos. Ainda assim, trago comigo uma saudade imensa daquela década porque ali fui forjado. Com minha mãe, meu pai, meus irmãos, parentes e amigos, tomei as decisões que me trouxeram até aqui, assimilando as características que me eram possíveis. Descobri algumas verdades que me perseguem até hoje, e sou grato por elas.

Há sentido na saudade quando conseguimos nos afastar dos preconceitos aos quais fomos submetidos enquanto crescemos. Se você quer saber mesmo, a humanidade é ainda muito inexperiente sob uma dezena de aspectos. Mas também somos divinos quando descobrimos que fomos nós mesmos que criamos as dádivas. É da nossa natureza ser épico; faz parte da nossa aventura este reencontro com a saudade.

Dizem por aí que a saudade é uma palavra exclusiva da língua portuguesa, cujas raízes poderiam remeter à época das grandes navegações. Os lusitanos de outrora, distantes de sua terra natal, externaram a falta que sentiam dos seus por meio da saudade: palavra e sentimento unidos numa mesma pulsação. Mas a saudade está disponível para todos, em qualquer idioma. Basta apenas um coração que quer bater e fazer sentido.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 09/02/2017.

A Ilha e as perguntas sem respostas

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Para azar de 2017, o ano que lhe antecedeu foi sobremaneira desastroso, ainda mais quando levamos em consideração um recorte político. Pois que mesmo os otimistas estão olhando duas vezes antes de atravessar a rua, ou mesmo uma travessa miúda como a Travessa Ratclif, ali no Centro da Ilha. Se é tempo de cuidado e atenção, o mesmo deveria valer para uma administração municipal assim que assume um novo mandato. Em Florianópolis, por sinal, fazia bastante tempo que um mesmo prefeito ficava apenas quatro anos no seu gabinete – claro que, de vez em quando, os alcaides sempre arranjam uma maneira de tomar um ar nas ruas longe das vaias ou dos aplausos. Ao novo prefeito e, por consequência, seus colaboradores, resta a pergunta de sempre: qual progresso estão buscando? “Buscando”. No gerúndio mesmo, já que parece que nunca chegamos nele de fato.

Florianópolis tem suas particularidades, como qualquer outra cidade, mas com aquele ligeiro diferencial que só cabe a outros vinte e cinco municípios – descontando o Distrito Federal, claro: trata-se de uma capital de Estado. E uma capital na qual os principais serviços se encontram numa Ilha, ligada ao continente por duas pontes quase sempre entulhadas de veículos e outra ponte que virou cartão postal em permanente estado de reforma. É bem verdade que os administradores públicos estão cansados de saber disso. E, talvez, tantas singularidades empolguem os candidatos no pleito municipal. Mas a questão do parágrafo anterior continua em aberto.

O progresso tem muitas formas. Diria até que ele possui muitas aparências que se disfarçam de conteúdo. Por isso, sempre que posso, procuro não misturar os conceitos de progresso e de evolução. Enquanto a evolução está meio que por aí, rindo do destino e sorrindo ao acaso, o progresso permanece calado, fruto de uma decisão fria e calculada. Progresso e evolução têm seus defeitos e suas qualidades, sejamos justos. Ambos não nasceram para se transformarem em vilões da história. Pelo contrário, quem carrega esse fardo, em geral, são justamente os líderes políticos, militares, etc… quando ignoram o resto de nós em troca da bonança e do mais do mesmo.

Nós, ilhéus por nascimento ou por adoção, questionaremos até que a resposta seja, ao menos, satisfatória – o que já será um ganho e tanto.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 05/01/2017.

 

Que ano!

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Queria te deixar um registro brilhante ou, ao menos, emocionante. E, olha, muitos de nós tentamos fazer com que este ano desse certo. Mas parece não ter sido o suficiente. Talvez, com a distância do tempo, você consiga me ler com mais clareza do que eu possuo agora ao escrever tais mal traçadas. Saiba, no entanto, que não foi fácil passar pelo que passamos. Nunca é, eu bem sei. Só que existem momentos em que a cisão se torna mais evidente e tudo desaba porque nunca foi sólido de verdade. Ao menos, alguns de nós aprendemos.

Sentado, olhando a página vazia do computador, emerge a vontade de jogar tudo para o alto. E, bem, não vou negar que sou tão humano quanto qualquer outro de nós. Os erros se aplicam a mim como aos demais. Por isso, seja gentil ao me julgar em sua perspectiva. Lembre-se: você já é o futuro, enquanto eu sou o passado. O melhor passado que conseguimos. O único passado possível. Pondero um pouquinho mais e decido permanecer aqui mesmo. Terminar esta crônica porque sei que você aí merece uma chance. E sempre desejarei tudo de bom para você e para os seus. Teu tempo tem tudo para ser ainda mais interessante do que o meu; mais prazeroso até. As crises do seu período, possivelmente, terão outras soluções – sendo que algumas delas nós aqui do passado sequer pensamos em executar.

Na essência mais trivial, foi um ano estranho. Por vezes, soou mudo e teve cores insalubres. Divergimos tanto politicamente que ninguém teve tempo para seguir adiante. Sim, os protocolos políticos foram utilizados à revelia porque os corruptos entendiam de se proteger. Ah, e como eles passaram por cima da lei. Fizeram da justiça qualquer coisa semelhante a um bobo do corte (ou do Congresso, no caso). E a Dona Justiça continuou com a venda nos olhos, fingindo não ver que vivia num mundo imperfeito. Quem não cedeu se deu mal. Não obstante, ainda perdemos gente de toda sorte: Ídolos do esporte, das artes, do pensamento… nos deixaram sem dizer adeus.

Você verá os fatos nos livros de história e poderá repetir comigo num uníssono atemporal: “Que ano!”. E, assim, concordaremos que deste legado atual só nos sobrou a falta do que passou.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 29/12/2016.

Dia de Natal

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Ocorreu num 25 de Dezembro. Ninguém lembra o ano exato, mas a fidelidade dos detalhes, dizem, é espantosa. Como se lá alguém estivesse com um gravador ligado. Então, a magia se fez:

– Com licença.

– À vontade.

– Desculpe o mau jeito com o carrinho de compras. É que está tudo muito cheio.

– Não tem problema, só me encostou de leve. E, além do mais, é Natal! O melhor dia para perdoar, não é mesmo?

– Indubitavelmente. E, afinal, acho que estamos no único mercado aberto em toda a cidade.

– Acho o mesmo. Passei por uns três ou quatro bairros procurando até que encontrei este aqui. Seu carrinho está bastante cheio. Família grande?

– Sim. Quer dizer, muitos tios, primas e sobrinhas. Eu, particularmente, ainda não tenho a minha.

– A sua?

– Família. Ainda não construí. Sabe, nunca casei, nem tive filhos. Mas quero.

– E quem não quer?

– Como é?

– Digo… acho que, no fundo, quase todo mundo quer. Também estou nesse time aí seu dos “sem família”. Quem sabe não montamos um clube…

– Notei que você está só com uma cestinha de compras.

– É. Somos apenas eu, meu pai e minha avó. Ela era imigrante e tanto eu quanto meu pai somos filhos únicos.

– Que bom. Quer dizer… que legal que também estão reunidos hoje. Pelo jeito, hoje teremos dois almoços bem familiares. Desculpe por ficar observando os produtos da sua cestinha, mas acabei de ver um vinho da mesma marca que eu escolhi.

– Santa Ceia? Na verdade, peguei por causa do nome, e por que o meu pai adora vinho seco. É uma marca boa?

– Uma das melhores. Seu pai vai saborear com certeza.

– Espero que sim. Sabe, não temos a tradição de dar presentes nessa época. E tem esse lance da crise… enfim, hoje vamos só compartilhar um dia que é especial justamente porque é igual a qualquer outro. Não nos tornamos melhores ou piores só porque é Natal. Eu não acredito nisso. Mas sei que as pessoas podem fazer o bem em qualquer tempo, em qualquer dia. E hoje é um deles.

– Concordo. E você já fez um grande bem hoje perdoando minha atuação desajeitada com o carrinho. Foi um prazer te conhecer… aliás, posso perguntar seu nome?

– Claro. Pode me chamar de Maria. E também foi um prazer te conhecer…

– José.

No Natal seguinte, José e Maria dividiam o mesmo carrinho. E o mercado continuava cheio.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/12/2016.

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Um jazzinho daqueles divertidos embalando o ambiente, um ator comandando o palco. No que poderia ser um típico clube nova-iorquino, surge um programa de televisão pautado pelo dinamismo de seus convidados e, evidentemente, pela habilidade de seu apresentador para o entretenimento.

Jô Soares é um daqueles personagens da cultura popular que se confundem com os momentos da história brasileira. E confundem mesmo, já que a trajetória do apresentador / cronista / humorista / ator / etc é tão cheia de zigue-zagues que deixaria qualquer um tonto. De escada para o genial Ronald Golias em Família Trapo ao consagrado apresentador de TV e escritor, Jô percorreu um caminho de poucos. Na área do humor, talvez só perca em reconhecimento para o saudoso Chico Anysio – ainda que perca bem de longe.

O talento de comediante, todos sabemos, fora consagrado em clássicos da televisão, como Faça Humor, Não Faça Guerra, Planeta dos Homens e Viva o Gordo. No entanto, seu prestígio de personalidade e intelectual viria somente com o programa Jô Soares Onze e Meia, na emissora de Silvio Santos. Foi a partir dali que Jô pôde escolher exatamente o que fazer e à sua maneira. Trouxe o formato de talk show, até então uma novidade para a TV aberta brasileira, o qual se adaptou com exatidão à sua veia cômica. Seus conhecimentos culturais só reforçaram a qualidade de suas entrevistas, mesmo que muitas soem apenas como bate-papos descompromissados.

Como convém a qualquer pessoa famosa, Jô Soares também não passou incólume às críticas – muitas merecidas, e outras até motivando a mea culpa do apresentador. Por vezes, Jô desdenhou das ideias de seus entrevistados, enquanto noutras oportunidades passou praticamente toda a entrevista rasgando elogios para seus amigos de longa data. Por vaidade ou por descuido, cometeu erros como é de praxe de todo ser humano. Assim, sua relevância pode até ser colocada em perspectiva, mas jamais ignorada.

Neste mês de dezembro, o Programa do Jô encerra sua exibição, terminando concomitantemente quase três décadas de seu talk show. E ninguém ainda sabe do futuro do artista. Cá entre nós, desconfio que será bem humorado. Com um jazzinho de fundo, é claro.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 15/12/2016.

A aventura do descobrimento

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O interesse dele era por todas as coisas. Acredite-me quando repito: ele realmente sentia uma curiosidade tão absoluta que, às vezes, parecia quase explodir. Felizmente, claro, nunca lhe aconteceu nada demais. Houve aquele acidente de barco tão logo completou 18 anos, mas ficou por aí. De resto, manteve-se saudável para contemplar o mundo como nunca antes.

No mar, no céu e na terra, encontrava motivos para sua aventura do descobrimento. E talvez ele fosse mesmo um descobridor à maneira clássica. Pouco importava se toda a superfície do globo já estava mapeada: para ele, a novidade era como a surpresa de um encontro para lá de esperado. E, se bem me lembro, a vida lhe deu muitas oportunidades para que seus planos fossem exitosos.

Como marinheiro, conheceu mares e portos em todos os continentes. Em cada país, um reencontro com o seu eu mais profundo. Via o reflexo de si mesmo ainda que estivesse ligeiramente diferente. Os olhos puxados dos orientais eram os seus; a pele escura dos africanos era a sua; os cabelos cor de fogo dos nórdicos também eram os seus. As viagens lhe proporcionaram uma identidade única, mista, completa e radical. Foi um exercício de humanidade que ultrapassou as fronteiras antropológicas, históricas e sociais. Ficou tocado e maravilhado por descobrir nos outros e em si mesmo os dilemas, anseios e qualidades de sempre, cada qual adaptado pela cultura e pelo ambiente.

Não que estivesse cansado do balanço do mar e nem de conhecer tanta gente interessante, mas decidiu que era hora de navegar em ondas menos literais e mais literárias. Ainda me recordo do momento em que ele anunciou para alguns amigos em comum seus novos rumos. Estávamos todos reunidos para uma festa de final de ano, quando ele se levantou da cadeira e ergueu sua taça de vinho. “Às letras, às letras”, gritou sobressaltado, como se aquilo fizesse sentido para outrem. Sorrimos todos, aceitando o brinde. Ele, por sua vez, mergulhou nas palavras.

Como o acesso à internet era limitado naquele tempo, tratou de ir trabalhar numa biblioteca, onde certamente cumpriu suas leituras de A a Z. Ali também descobriu o imponderável. Mas ainda não haveria de ser o bastante. Queria conhecer a plenitude do cosmos. Amanhã, começará o curso para ser astronauta.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 08/12/2016.

À eternidade

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Ultimamente, tenho desconfiado bastante dos ídolos. Não por questões morais dos indivíduos em si, mas por entender que a fragilidade se esconde até no mais valente dos heróis. Por outro lado, talvez a desconfiança de fato deva pairar naqueles que confiam desesperadamente em seus ídolos. Em última instância, ninguém nos salvará – salvo nós mesmos. Mas essa desconfiança não é um sentimento impulsivo e impensado. Ao contrário, penso que seja resultado de muitas decepções. Afinal, falsos profetas existem desde sempre.

Ainda assim, ter um ídolo ou vários não é necessariamente um problema, tampouco uma questão ética ou moral. A inspiração, por exemplo, é um fruto quase sempre positivo do legado dos ídolos. Reproduzimos suas falas, refazemos seus gestos e encontramos assim a satisfação de um bem maior que nos acostumamos a chamar de exemplo. E também somos exemplos para alguém. Sempre. No trabalho, na família, na escola: muitos olham para nós buscando alguma nuance que lhes possa trazer algo, mesmo que de modo inconsciente. Até nossos rivais nos ensinam a fazer diferente. O exemplo é a forma mais antiga de aprender.

Entrementes, aprendemos com os ídolos lhes dando uma relevância muitas vezes demasiada. Mas tudo bem. Não temos réguas ou equivalentes para medir o entusiasmo e a fascinação. Além do mais, quando somos encantados por algo ou alguém, deixamos a razão de lado porque sem ela tudo fica mais divertido. E merecemos curtir um pouco todas as possibilidades – com prudência, claro. Exagerar é bom, mas tem seu preço. E os ídolos de multidões estão cansados de saber disso.

Escrevi sobre ídolos para chegar, enfim, naqueles que se foram. A tragédia do voo 2933 que tirou a vida de mais de 70 pessoas levou consigo muitos ídolos no dia 28/11/2016. E não foram apenas aqueles do esporte, ligados à delegação da Chapecoense ou dos veículos de imprensa que iriam cobrir a partida do time pela Copa Sul-Americana. Estes, principalmente os jogadores, eram ídolos de milhares e se tornaram lendas para milhões. Mas como todas as vidas são essencialmente iguais, todas as mortes representam as partidas de ídolos – para um pai, um filho, um amigo, um amor…

Desconfio dos ídolos, mas não lhes tiro a importância que tiveram em vida. E se todos podem ser ídolos, desconfio que todos abraçarão a eternidade.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 01/12/2016.

O primeiro suspiro

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Há por aí uma sensação incômoda, como se tudo fosse oito ou oitenta, como se luz e trevas fossem caminhos únicos e distintos. Bobagem pura que qualquer criança destrói qual uma torre de cartas. Pior ainda é crer num mundo à direita ou à esquerda, mesmo sem ter qualquer compreensão do que tais posicionamentos significam na prática.

O que acontece em grande medida é um esforço demasiado pela picuinha. Quem se atém a não-valores comezinhos perde um tempo precioso num universo irresoluto. Sem se dar conta, muitos insistem na tristeza movidos por uma incapacidade (e falta de incentivo, saliente-se) de verificar o plano geral da própria vida – não a vida de cada um, mas a existência em si, o porquê filosófico de estarmos aqui nesse mundo passando calor ou frio, suando a camisa com uma sabedoria sempre limitada e uma compulsão quase desenfreada pelo conflito, seja numa luta de classes ou na insensível busca pelo poder.

Chega mesmo a ser bobo esse sentimento de autossuficiência que alguns encontram quando estão num estágio melhor. É o rico que se dá por satisfeito quando não tem mais que se preocupar com dinheiro e se esquece do mundo. Ou o político saudado pelo povo, mas cujo coração de pedra deteriorou praticamente todas as suas relações pessoais. Para cada ação, uma reação. Cada vitória implica numa derrota. Escolher é perder a outra opção.

Essa visão de sucesso profissional construída sob a febre do american way of life afasta-nos de uma estrada muito mais feliz porque não condiciona as oportunidades ao trabalho. Logo, talvez estejamos errados em nossas expectativas para com o futuro distante. Transitamos por trabalhos, ideologias e outros subterfúgios da realidade porque acreditamos numa redenção vindoura; como se a aposentadoria nos trouxesse alguma paz, e a verve juvenil fizesse de nós uns nostálgicos de marca maior. Com a idade, aceitamos o destino de tudo porque nos pegamos impotentes ante o mundo. Uns se frustram, outros vão à praia – quando a aposentadoria permite, claro.

As trevas e a luz estão por aí desde o primeiro suspiro humano: aceitá-las como uma única força é um aprendizado que ainda não alcançamos. Mas temos tempo.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 24/11/2016.

A ostra do Sr. Holmes

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Tendo aceitado o convite de um velho amigo, o Sr. Holmes veio aproveitar a primavera numa casa com vista para o mar lá no Ribeirão da Ilha. Para não perturbar o pobre senhorio, vamos manter a identidade desse amigo no anonimato, mas convém dizer que o mesmo não faz parte dessa elite antropofágica que só faz deglutir os próprios bens. Era um sujeito simples, tão cordial que o Sr. Holmes tomou-lhe por melhor amigo tão logo seu companheiro de aventuras, Dr. Watson, foi para um universo indecifrável até mesmo para o mestre das deduções. É assim que a vida faz com quem insiste nela: ceifa-lhe tudo – do pó ao pó.

Assim que colocou os pés na areia, o Sr. Holmes se deu conta de que, pela primeira vez, estava numa praia única e exclusivamente motivado pelo lazer. Claro que noutras oportunidades visitara o mar. No litoral sul da Inglaterra, sentia certo apreço por Brighton, uma cidade que atrai muitos turistas, mesmo não sendo tão fascinante pela qualidade de suas praias. O Ribeirão em nada lembrava Brighton, como Florianópolis pouco se assemelhava à Londres.

Entrementes, Holmes, com sua idade avançada, cansara de Baker Street. Logo após o enterro de Watson, revistou as velhas anotações do doutor e decidiu rever amigos de um tempo que estava deixando de ser lembrança viva para se tornar história. Visitou uma ou duas pessoas no Reino Unido, quando o nome de um brasileiro lhe chamou a atenção. Fora aquele nome pitoresco para um londrino ou fora o Brexit (a saída do Reino Unido da Europa)? Não importava: A decisão de cruzar a oceano já estava tomada.

O anfitrião ilhéu do Sr. Holmes levara-o para comer ostras logo na primeira noite. Ah, e como o convidado ficara fascinado com o sabor da iguaria. Trocaria os milhares de chá que tomara no passado para ter conhecido as ostras muito tempo atrás. Mas nem mesmo o detetive mais brilhante de todos os tempos pode alterar o passado. Assim, contentou-se em pedir mais uma dúzia do molusco gratinado – para dividir com seu amigo, evidentemente. Foi aí que lhe ocorreu a solução de um caso que ficara perdido num canto escuro de sua memória. Lembrara-se, agora, de uma história mais surpreendente que Um Estudo em Vermelho ou O Cão dos Baskervilles. Sim, tinha a resposta na ponta da sua língua. Mas, primeiro, haveria de terminar com as ostras.

– Deliciosas!, exclamou.

Uma dedução elementar.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 17/11/2016.

Trump e nós

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Num sentido mais estrito e histórico do que prático e cultural, a eleição de Donald Trump diz mais sobre as nossas expectativas do que sobre nossas necessidades. Temos, evidentemente, sempre medo de falhar. É o que nos torna humanos. É o que nos faz tomar decisões arriscadas, apenas para fugir de uma inevitabilidade histórica: as mudanças estão aí para nos iludir, fazendo-nos acreditar nessa ideia de progresso. A continuidade é menos conservadora do que a mudança porque ela não mexe com os desejos individuais. E vivemos a Era dos Desejos. Todos querem tudo; e agora. O cotidiano se tornou um ambiente inóspito por si só, principalmente quando se perdem as expectativas de mudanças: mudar de classe, de roupa, de refeição, de tudo que é físico e revela quem queremos parecer.

Justamente por ser um mega-bilionário, Trump se parece mais com a ideia de sucesso do que nosso vizinho feliz. Já não interessa mais a grama verde e retilínea da casa ao lado, quando o que se almeja é não ser o que se é. Talvez este seja o drama de sempre da classe média. Com medo de perder o que tem, vive em angústia num suporte quase cego àqueles que têm demais. E se as oportunidades mínguam, como é próprio do capitalismo de tempos em tempos, o vale tudo ganha sua vez. É quando surgem os preconceitos, a polarização do debate, o ódio que enxerga apenas a si mesmo e nunca além.

Participando ou não das eleições, o cidadão comum olha para seus políticos qual o reflexo de um espelho. E o desafio do candidato é agradar seus eleitores até nas declarações mais pessoais que não dizem respeito ao trato da coisa pública. Na prática, a política é tão distante quanto esse reduzido universo dos bilionários quais Trump e Cia: Gente que perdeu muito dinheiro ao longo dos anos, decretando falências consecutivas, mantendo-se no topo assim mesmo porque cumpria os requisitos desse sistema invisível a quem todos culpam. Reparem que a culpa sempre está no outro, nunca em si mesmo. É o outro que não sabe escolher seus líderes. Mas a piada pronta continua ali: o Outro fala o mesmo de ti. Muitas vezes, utilizando dos mesmos argumentos, da mesma adjetivação barata e rasa. O espelho, de novo. E nunca é fácil olhar para si mesmo. Ainda mais quando a imagem que aparece é a de Donald Trump.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 10/11/2016.

A ponderação

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A crítica, companheira indissociável da opinião, ganhou a graça das pessoas nestes tempos virtuais. O mundo líquido, de relações sinuosas e, paradoxalmente, desconectadas, permite-se aos contratempos de quem precisa ser ouvido, compreendido, aceito – e jamais repreendido. Mas o exercício da crítica, sobretudo quando se pretende assaz e relevante, vai muito além da opinião constante, permanente e urgente sobre tudo. Nenhuma tecnologia ou ferramenta que facilite a divulgação de pontos de vistas, convergentes ou antagônicos, substituirá a necessidade de conhecimento. Ter alguma sabedoria exige esforço, tempo e dedicação, mas vale a pena porque tende a suprimir todas aquelas idiossincrasias das primeiras impressões.

Desde sempre, tudo tem a ver com informação e formação. Essa educação obtida sob a égide da coerência escapa um pouco aos conceitos tradicionais, ainda que seja respaldada pela família, pela academia e pelas instituições que impõem certos limites, mas permitem que o pensamento circule com as rédeas soltas. A viagem da mente será sempre aquela mais próxima da verdade absoluta porque admite que erros e acertos são tão irreais quanto quaisquer outras coisas. Entrementes, nossa vantagem evolutiva fez brotar uma experiência a mais nos corações humanos: o discernimento. Ele pode andar ligeiramente esquecido nestes dias de ideias tão polarizadas, mas ainda existe para mostrar a fragilidade tanto de quem é oito quanto de quem é oitenta.

Não raro, damos com a incapacidade do diálogo quando linhas contraditórias atravessam a mesma encruzilhada. Acontece de forma mais explícita quando das manifestações político-partidárias, mas também se dá com todo o resto. Além da falta de conhecimento das questões mais pertinentes ao tema, foge-se quase de forma inconsciente de uma amiga ilustre chamada ponderação. E é aqui onde os pensamentos se encontram, porque longe dos ponderados ficam aqueles tristes e ressentidos: figuras mal amparadas pelo recalque do que nunca puderam ser. Pense bem: jamais você verá alguém acusando outra pessoa de ponderada, como se fosse um xingamento. O motivo é simples: a ponderação é o fim da estrada; não se pode ir além dela. É o local mais alto de corações tão leves que flutuam, porque até mesmo a gravidade não tem força lá.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/11/2016.

A criança, a amamentação e o universo

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A queda de um copo de vidro desperta a criança dormindo numa das cadeiras do restaurante. É hora da refeição. Para uns, um mais que saboroso buffet de carnes. Para a criança, o mais que necessário leite materno. Na amamentação, a vida e as possibilidades infinitas de quem ainda vai descobrir que essa experiência é única. Quando crescer, talvez a criança guarde-se em sua própria estrutura sentimental e se torne uma existencialista, daquelas que tem carteirinha de clube do Sartre e tudo. Mas não a fará mais ou menos feliz tal destino. Porque o conhecimento há de lhe abrir algumas portas, mas o contato físico, pessoal, afetivo intuirá outras janelas pelas quais será defenestrada, ainda que metaforicamente, do seu ambiente de convicções.

A criança mama com os olhos abertos, perscrutando quem lhe rodeia com sua imaginação em ebulição. Mesmo sem ter aprendido a falar, ela conta para si mesma que está segura no colo da mãe. De tempos em tempos, o pai lhe dá uma espiada e faz alguma careta engraçada. Essa coisa louca, antiga, moderna chamada família lhe traz algum sentido enquanto todo o mundo ainda não foi explorado. Talvez ela se torne uma exploradora. Do tipo que olha para baixo, como os arqueólogos? Ou do tipo que levanta a cabeça em direção às estrelas, como os astrônomos? Teremos que esperar para ver. De algum modo, sua preocupação é menos conceitual e mais urgente, quase efêmera, mas super relevante.

A refeição dos adultos ainda está longe de acabar, mas a da criança parece estar chegando ao fim. Ela fecha os olhos, não se importando com a acirrada e alegre conversa de seus pais e dos amigos deles. É bom tirar um cochilo para manter a juventude em dia. Em alguns anos, ela também descobrirá os amigos. No início, não importarão gostos pessoais, opiniões políticas ou questões do gênero. Haverá somente a brincadeira, o lazer, a diversão de quem teve uma oportunidade dourada numa sociedade cheia de tons acinzentados. Nas amizades que ganhará ou perderá pelo caminho, verá que não foi simples assim para todos. E aprenderá com os erros da imaturidade e o conformismo da sabedoria. Mudará.

Assim que terminou de mamar, pegou no sono outra vez, enquanto a mãe registrou aquele tenro momento com o celular, postando a imagem da criança numa rede social. E todo mundo curtiu.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 27/10/2016.

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Conselhos de heróis

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Anotações retiradas do livro “Manual para os dias de crise sob a ótica da era dourada: como os super-heróis encaram o cotidiano sem surtar (porque, convenhamos, grandes poderes trazem grandes responsabilidades)”:

Em primeiro lugar, exercite-se. Levante algum peso sem forçar muito a coluna. Se não encontrar o Mjölnir (o martelo do Thor), use um cabo de vassoura com baldes de água amarrados às pontas. O corpo é seu principal ambiente de trabalho e lazer. Não o desperdice nas sombras, como fazem os vilões.

Faça o inesperado, principalmente quando até mesmo você se surpreende. Quando ninguém estiver olhando, suba pelas paredes. Na ausência de teias como as do Homem-Aranha, você pode fazer rapel. A aventura faz parte de nossas vidas desde que superamos os outros espermatozóides.

Aceite que você também é um mutante, com todo o respaldo evolutivo que encontramos na própria natureza. Das mais nobres qualidades, a mutação nas espécies é o que as tornam interessantes. Reconhecemo-nos nas diferenças, acolhendo com sobriedade o cabelo branco da jovem Tempestade ou a ótima conservação jovial do velho Wolverine. E, juntos, dizemos não aos preconceituosos.

Mantenha-se bem informado. Veja o caso do Superman, que está sempre com a cabeça nas nuvens, mas nunca perde o foco dos problemas aqui de baixo. A informação das mais variadas e divergentes fontes lhe trará duas habilidades cada vez mais raras: o conhecimento e a ponderação. Use-as sem parcimônia.

Persevere. O Batman não se tornou o maior detetive do mundo sem os anos de dedicação aplicados à sua causa. Nalgum momento, é normal fraquejar (ainda mais se o seu arqui-inimigo for tão insano quanto o Coringa), mas lembre-se que a resiliência sempre está ao alcance dos bem dispostos.

Por último, mas não menos importante, seja verdadeiro consigo mesmo. O laço da verdade que a Mulher-Maravilha aplica em seus adversários poderia ser aposentado se a disposição natural das pessoas fosse para com a honestidade.

Os resultados são garantidos, desde que estes conselhos sejam seguidos à risca.

Contraindicações: máscaras e uniformes coloridos não estão na moda.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/10/2016.

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Casal em crise

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Mergulhados na dor e no ressentimento, aquele casal que hoje nos comove para fins crônicos acreditou que o amor não acabaria jamais. Mas o amor é feito de existência, de opções culturais, de sentimentos que preenchem as lacunas do que somos e do que ansiamos ser. Para além da matéria que compõe os sonhos, o casal (os casais, todos eles) fora urdido também nas agruras dos pesadelos, em devaneios calcados na dura realidade: no fim, a morte, o silêncio, a ausência.

Se eles acreditavam em deus, faziam muito bem. Se não acreditavam, também. Há espaço para ser e não-ser, para a dúvida e a questão última que nos corrói a alma desde quando deixamos os brinquedos de lado e começamos a nos preocupar com a distribuição de renda. Mesmo assim, eles todos teimamos em nos relacionarmos. Enquanto uns se descobrem, outros são apresentados; no fim, tudo é acaso. Para efeito de comparação, a própria vida é o epicentro desta casualidade; e amor ocupa seu cantinho à esquerda de quem quer impressionar o outro. E as primeiras impressões daquele casal – que hoje lamenta a sorte perdida – foram das mais impressionantes. Alguém poderia até mesmo falar em “amor à primeira vista”, mas parece ter sido algo muito mais agudo. Evidentemente, em casos assim não há espaço para aquela polidez cínica de uma personagem de Jane Austen, porque estamos falando da precisão do cupido. Uma flecha certeira untada com o caldo da fruta do pecado original. Que pontaria, pessoal!

Nesses episódios de paixão fulgurante, sempre há espaço para as ações redentoras. E, mesmo completando um ao outro sem deixar margem para a solidão alheia, sentiram na pele aquela epifania de que era possível fazer ainda mais. Cumpriram, ao menos assim pensavam, suas obrigações para com a criação – independentemente do nome que lhe davam. Foi quando tiveram um filho que os eventos receberam o desfecho de que falávamos lá no primeiro parágrafo. A criança não teve culpa alguma pela crise a qual passavam. Mas aquele legado de miséria humana de que falara Machado de Assis bateu forte no peito, bem ali no lado esquerdo e os feriu, mesmo que não aparecesse no eletrocardiograma.

Os papéis do divórcio chegaram ao final da tarde, bem na hora em que o bebê chorava de fome.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/10/2016.

O voto dos sem partido

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Olhem, companheiros e companheiras! Mirem o horizonte eleitoral. Vocês que, assim como eu, eram esperançosos dalguma coerência partidária, frustram-se com o quadro que se apresenta. Como as ideologias sucumbiram ante o peso da modernidade líquida, sobrou-nos um ambiente cada vez mais inóspito. Mas, vá lá, não nos desesperemos. Algumas opções sempre se revelam como oportunas, mesmo que as chances de efetivação sejam remotas.

Ainda que toscamente, superamos os interesses fajutos que dividiam o mundo à esquerda e à direita. E isto se deve ao fato de que a política diária não tem tempo para delongas conceituais. Como tudo no país é urgente, os próprios candidatos se esquivam de interesses partidários porque a coligação superou as expectativas. Eleitores que somos, obsequiamos o pleito sob uma ótica que parece ultrapassada. Coesão, aptidão, disciplina: os políticos querem-nas bem longe. Principalmente quando o marqueteiro garante a simpatia do candidato nos programas de TV.

E por que, então, deveríamos insistir? Até mesmo o parlamentarismo já foi voto vencido quando daquele plebiscito. Vocês ainda se recordam? Menos mal que mantivemos algumas conquistas constitucionais. Até que provem o contrário, o voto ainda nos pertence. Mas, de novo, a questão premente: insistir para quê? Não se trata de um jogo de cartas marcadas, com os partidos cumprindo apenas uma função burocrática? Pode ser. Apesar dos pesares, temos agentes do bem infiltrados neste jogo. E as cartas na mão não são nada ruins.

Nunca é demais lembrar que o sistema político tem o formato de uma pirâmide. A enorme base, que sustenta este projeto de nação, é composta a partir das eleições municipais, que acontecem em outubro próximo. As alianças que forjam vereadores e prefeitos se espalham para os níveis superiores, calçando as esferas estaduais e federal. Em outras palavras, só se faz um governador ou um presidente com o apoio das cidades. Foi assim que se montou a República. E é assim que podemos mudar o país que não nos contempla.

O voto dos sem partido é o voto das massas. O sistema nos moldou a seu contento. Mas não estamos contentes. E talvez ainda não seja agora que o sistema jogará com as nossas leis. Eis o que nos faz insistir.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 29/09/2016.

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Tergiversar, quaisquer

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Ainda que neguem, os autores têm suas palavras preferidas. Algumas são tão atraentes como imãs e, por isso mesmo, voltamos a lhes dar atenção com certa frequência. Este afeto para com determinados vocábulos integra o processo criativo. Se usadas com moderação, estas expressões recorrentes tendem a ilustrar os textos com a benevolência de um pai contando e recontando a mesma história para os filhos antes de dormir.

Tergiversar, por exemplo. Enquanto uns podem depreciar o termo por sua intenção pouco clara, tenho por ele um demasiado sentimento de completude. Fico à deriva se não tergiverso de quando em quando. Os tergiversadores, no seu sentido estrito, são aqueles que fogem do assunto, seja por incompetência em se expressar ou por habilidade em procrastinar. Qual seja a linha que me cabe – e, honestamente, prefiro não pensar no assunto –, suponho que à palavra deveriam caber os louros da poesia. Sim, por que não? Um sujeito versado é aquele que tem muita sapiência nalgum tema específico. Oras, então por que não fomentarmos semelhante interpretação aos tergiversadores? A arte de tergiversar é tão sublime que pode vir sempre acompanhada de um arremate; como o final da piada ou o último ato de um filme do Hitchcock.

Outra palavra que muito me apetece é quaisquer. De antemão, a pergunta: Onde mais estaria o plural se não no meio da palavra? Quaisquer. Aquele “s” malandro, precisamente com quatro letras lhe acompanhando para cada lado. Um toque de mestre. Bendito aquele que ao perceber uma qualidade qualquer soube transformá-la, imortalizando-a com a precisão dos mestres escultores. Sempre que surgirem as variações, quaisquer que sejam, lá teremos esse termo nos induzindo gentilmente à multiplicação e à diversidade. Particularmente, sou grato a essa expressão que me apresenta o multiverso da língua portuguesa em franca expansão. Recebo de “quaisquer” este convite à reinterpretação de que até mesmo o plural tem que ceder.

Muitas outras palavras estão em meu convívio, mas penso que terei novas oportunidades para compartilhar de seus predicados tão logo me recupere de tamanho deslumbramento.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 08/09/2016.

Democracia sem méritos

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Com a fadiga de uma ideia, a culminância da irresponsabilidade. Assim o é para com a democracia, único sistema que está em risco em todos os momentos porque, justamente, é aquele que trabalha com a maior margem entre os erros e os acertos. Para uma república jovem como a brasileira, as mudanças não consentidas pelos votos são igualmente trágicas quanto esperadas. Se à nação escapam ainda as reformas mais elementares e radicais, parece-nos até lógico imputar-lhe historicamente os dados que se seguem: 25 presidentes constam na trajetória republicana, sendo que somente cinco destes foram eleitos pelo voto popular e continuaram no posto até o fim.

Ainda assim, a destituição da presidente Dilma Rousseff no último dia 31/08/2016 revela um sintoma inesperado – pelo menos quando levamos em conta a Constituição de 1988. Trata-se, evidentemente, de um desequilíbrio estrutural que diz respeito ao próprio presidencialismo. Sobretudo, quando levamos em conta as regras jurídicas cada vez mais consideradas no exercício da governança. O cargo de presidente da república em todos os países nos quais este também é o chefe de estado pressupõe um valor simbólico e personalista. O voto é, portanto, direcionado às aptidões pessoais do então candidato, de sua biografia e, no caso de reeleição, de sua experiência teórica e prática. Já quando de seu mandato, o presidente deve ser capaz de equalizar demandas internas (os apoiadores, a coligação, os mercados…) com as conveniências globais (a oposição, os países aliados, a população…). O desequilíbrio surge quando tais demandas e conveniências partem de um pressuposto simplório e anti-democrático: o mérito. Aí está a principal diferença deste processo de impeachment em relação ao de Fernando Collor nos anos 1990. Em todas as etapas, votações e afins, jamais se deixou de lado os aspectos ideológicos – muitas vezes, sobrepujando os políticos. Numa democracia altiva a qual se pretendia pela atual Carta Magna, o direito de opinião é um aspecto relevante do escrutínio político, não seu guia máximo e tampouco deveria ser utilizado como baliza processual. Erros e acertos, conjunturas e popularidade, nada disso importa porque o mérito (ou a falta dele) presidencial em nada tem a ver com a regularidade de seus atos.

É assim que a democracia se abala. É assim que uma ideia chega num clímax de regozijo apenas para aqueles que fraquejam quando a política mais precisa deles. Mas a derrota também integra a história dos grandes vencedores.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 01/09/2016.

A livraria dos amigos

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Ficou sem ler por um longo tempo. E vivia perdendo as disputas de jokenpô. Naquela tarde, em especial, foi como se tivesse recebido um murro! Estava até mesmo mais desconfiado que o Dom Casmurro. Sabia que, em breve, algo extraordinário aconteceria. Nada tão drástico como a morte ou um encontro na sorveteria. Apenas a vida; aquela mesma de sempre a lhe arrancar (da América) – ou seria uma intervenção literária de Iracema, como queria José de Alencar? Seja como for, ficou no continente. E suspirou num alívio contente. Detestava longas travessias, mesmo acompanhado do Messias. E nem era tempo de cruzar o deserto. Com o imponderável, o melhor é ficar por perto.

Quando chegou em casa, deu com uma verdade impossível: um amigo de outros tempos carregando um fardo invisível.

– Morto: Assim foi que lhe descreveram-me da última vez!

– Eu sei. Mas fingi a má sorte como numa jogada de xadrez.

O amigo escapara da guerra, e voltara com uma medalha no peito. Afinal, quem não se encerra numa batalha só faz aumentar o respeito. Escapara do campo inimigo fingindo-se sem vida. Mas que drama humano e que história bem resolvida! Agora, estava à porta. Plantado, como uma horta. Esperava ser bem vindo e não tamanho espanto. Outrora, a informação errada já causara desnecessário pranto.

– Entre, entre. Desculpe-me os modos. Venha e não fique aí fora à toa.

– Trouxe-lhe de presente uma edição autografada de Fernando Pessoa

O bom amigo se lembrara de quanto ambos apreciavam a poesia. Antes de deixar o Velho Mundo, foi a um sebo e encontrou o queria. Um presente raro e inesperado, qual a visita de um amigo reencontrado.

As boas novas não paravam por aí, prestem atenção. O amigo lhe contou que recebera uma pomposa herança, quase uma benção. O velho tio deixara algum ouro guardado e também uma antiga livraria. Estava procurando um parceiro para tocar o empreendimento chamado Shakespeare & Cia.

– Poxa, que notícia! Mas faz tanto tempo que não leio!

– Logo você, que não trocava o livro pela bola no recreio!

– Mesmo assim, caso a proposta seja verdadeira, aceito.

– Não iremos nos arrepender, eu garanto. Será perfeito.

E assim, os velhos amigos de outrora iniciaram aquela que seria a mais espetacular livraria de toda a história humana. Não haveria concorrente à altura, porque não visavam o simples lucro, mas sim o calor que dos livros emana.

Na porta da livraria, há um aviso entalhado na madeira: “Aqui vendemos sonhos a qualquer um que queira”.

Eu acabei de sair de lá, e ainda estou com o exemplar na mão. Mas o título deste livro eu não digo não.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 25/08/2016.

Injusto desporto

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A justiça é um conceito complicado, principalmente porque sua aplicação é cheia de pormenores e dividendos que podem ou não ser desconstruídos a partir de um referencial lógico. Se empregarmos a justiça aos esportes, por exemplo, então obteremos uma espantosa contradição de um sistema imperfeito, que não premia a constância e tampouco dá bola para a qualidade. Mesmo os recordes, por vezes, nada dizem do que foi uma disputa em si. Tudo só faz sentido quando encontramos aqueles ícones acima de quaisquer suspeitas – pelo menos, quando se trata do ambiente desportivo. Quando nos deparamos com campeões soberanos, quais foram Pelé, Nadia Comăneci, Muhammad Ali, Serena Williams, Usain Bolt, Hortência, damos com o extraordinário – e ficamos espantados com nossa própria humanidade. Um ídolo tem sua razão de ser na simplicidade mágica de sua genialidade. São as exceções das regras, claro.

Nestes Jogos Olímpicos do Rio, encontramos esses dramas injustos que nos comovem porque o esporte é igualmente feito com suor e lágrimas – nalguns casos mais extremos, com sangue também. As histórias de guerreiros e guerreiras que perdem por um deslize mínimo, como uma queda num aparelho de ginástica, ou pela superioridade de rivais com um treinamento muito mais eficaz e de longo prazo, como nos gols sofridos em jogo de handebol, deixam um gosto amargo de quem merecia ir mais longe. Mas o mérito é tão ou mais infundado quanto a justiça nestas questões esportivas. Por isso, também, as proezas de desconhecidos nos surpreendem. O atleta de quem nunca ouvimos falar acaba por ganhar a medalha de ouro e se torna visível. Sua ascensão é quase um ato de fé, porque os descrentes passam a ver uma luz no fim do túnel. Seria uma tocha ou apenas o refletor do ginásio poliesportivo? A coerência é deixada de lado, e os heróis de hoje poderão ser os vilões de amanhã se os resultados não aparecerem – ou vice-versa. O mundo é injusto, dizem.

Como acontece com as fases da vida, uma competição passa e se torna memória, registro, história, fato e versão. Conquistas vêm e vão na mesma velocidade em que os jovens migram de um namoro para o outro. E os episódios gloriosos se transformam em um sonho bom que tivemos a oportunidade de compartilhar, seja assistindo tudo pela televisão ou apenas trocando ideias vencedoras ou derrotistas numa conversa descompromissada dentro de um bar. À justiça, cabe um papel ingrato de mediar fatos que não condizem com a razão. O esporte tem mais a ver com as artes e, de tal modo, com o intuitivo e o inexplicável. A falta de medalhas só nos fará ainda maiores. E me parece justo que seja assim.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/08/2016.

Encontros fortuitos e olímpicos

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Talvez tenha sido aquela chama olímpica ou talvez seja por causa de um sentimento oblíquo que ansiava por lhes causar efeito. Eles não sabiam ao certo, e nem mesmo se davam ao trabalho de buscar uma explicação mais intelectualizada. A sensação era, acima de tudo, corpórea.

Os jogos olímpicos recém iniciados. Ele, um atleta das provas de natação; Ela, uma ginasta especialista nas barras assimétricas. Durante a noite, a Vila Olímpica trazia oportunidades indiscutíveis. Deixemos o bom senso de lado, diziam os competidores mais atirados. Provas de tiro ao alvo ou equivalentes também nas relações pessoais, íntimas, intimistas. Eles e elas. Eles e eles. Elas e elas. Às vezes muitos, outras vezes solitários. Encontros fortuitos e olímpicos para vencedores e vencidos. Perdedores? Jamais.

Após a prova de natação, ele secou o corpo, guardou seus pertences e foi ter consigo mesmo próximo à pira olímpica menor que ficara distante do palco principal. Estava classificado para as disputas do dia seguinte e queria curtir sozinho o momento.

Tão logo sua equipe terminou o último giro de aparelhos, a ginasta vestiu um agasalho e se despediu de suas colegas, amigas e parceiras de prova. Intuitivamente, desejou ver de perto a outra pira olímpica (aquela menor), pois a rotina da competição pouco permitia esses momentos típicos dos turistas.

Nadador e ginasta completavam uma volta de 360º ao redor da pira quando deram um com o outro. Identificaram-se como competidores olímpicos ao notarem os arcos coloridos entrelaçados e estampados nos uniformes alheios. Foi como a saída das barras assimétricas cravando nas águas de uma piscina: um movimento impossível até aquele momento. Possível, a partir de então. Os corpos fizeram o que sabiam fazer. Treinaram muito para isso. Eram atletas, afinal!

No dia seguinte, a competição pareceu muito menos difícil. Um sorriso em cada rosto – em muitos rostos espalhados pela Olimpíada. Afinal, não há esporte que não exija corpo e mente em perfeita simetria – diferente das barras nas quais a ginasta era tão hábil. O nadador conseguiu um bom tempo. Outra etapa vencida e a classificação para a disputa final, quando brigaria por uma medalha. Se a prova era de 100 metros livres ou de 200 metros medley, isso pouco vem ao caso. Ela assistiu a prova dele e até lhe trouxe uma bandeira de seu país como presente – ambos competiam por nações de continentes distintos.

Alguns encontros fortuitos depois e já não pensavam mais em ouro, em pódio ou em glória. Queriam mesmo celebrar os corpos. E foram grandes campeões. Ah, se foram.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/08/2016.