Thanos, em busca de si mesmo

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Dizem por aí que todas as histórias são sobre quem somos. Com Thanos, logo, não poderia ser diferente. Aquele que corteja a morte busca também seu papel na história do cosmos. A recompensa por encontrar todas as jóias do infinito, o poder absoluto do Universo, lhe trará algum conforto nem que seja com um mísero sorriso de sua amada imortal? Conhecer sua trajetória, desde seu nascimento em Titã (A Ascensão de Thanos) até o confronto derradeiro com os maiores heróis da Terra e do Universo (Trilogia do Infinito), permitirá traçar um perfil justo da personagem criada em 1973 pelo soberano dos quadrinhos cósmicos, Jim Starlin. Mas até mesmo o infinito vai acabar. Do Big Bang ao Big Crunch. Dos quadrinhos ao cinema.

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Duas novelas de Harry Laus

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Quando um santo mágico aparece na praia ou quando um típico funcionário procura a verdade em relógios idênticos, Harry Laus (1922-1992) nos faz lembrar que há um sentimento de ausência que permeia todas as histórias humanas. Como o autor escreveu no dia 1 de Fevereiro de 1952 em suas Impressões de Vida (Bernúncia, 1998), “creio que chegará um ponto em que, à força de iludir e me iludir, não mais saberei quando estou sendo sincero”. Em suas novelas essa impressão aparenta ser ainda maior tanto pelo desenvolvimento das personagens quanto pela condensação do espaço-tempo.

santomagicoAs obras O Santo Mágico e As Horas de Zenão das Chagas, novelas cujas edições publicadas na década de 1980 serviram para a realização deste texto, não apenas exemplificam esses argumentos como também elevam à máxima potência um gênero literário que fica na crítica fronteira entre a primazia do romance e o caráter conciso do conto. À literatura, convenhamos, não apetece o título de ciência exata.

Em sua incursão novelística quando o autor estava em Porto Belo, Harry Laus colocou personagens e lugares com esmerada descrição para contar o curioso caso de uma aparição na praia da cidade conhecida como O Santo Mágico (Edição do Autor, 1982). Já de início somos apresentados às personagens cujo destino em comum possui ligação com o misterioso clarão azulado que parece ter uma auréola sobre si. A fé talvez seja o questionamento central daquelas figuras literárias, como o pescador Luca (o primeiro a ver o fenômeno), o padre Anatole que se veste de maneira muito peculiar quando se encontra sozinho e o jovem Altair que encontrou a felicidade em Porto Belo junto a mulher e ao filho. E todos acabam por questionar suas próprias verdades mesmo que não se dêem conta disso.

zenaodaschagasPublicada originalmente em 1957 no suplemento dominical do Jornal do BrasilAs Horas de Zenão das Chagas (Mercado Aberto, 1987), delimita a narrativa num espaço urbano, ainda que sua paisagem seja retratada sutilmente, mantendo essa insatisfação de uma vida semi-completa, tema tão caro aos mestres da escrita; do amor não-correspondido de Dante em Vida Nova às negativas finais da personagem-título de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. O desprendimento da realidade de Zenão é algo tão natural quanto os seus entediantes dias: “O desleixo em que mantém o quarto talvez resulte de certo comodismo que, de forma precária, substitui o conforto que não pode desfrutar”. A história de Zenão situa-se numa região indefinida entre a parábola do cotidiano e a própria vida ordinária com a qual a maioria dos mortais se relaciona sem se dar conta. A personagem traz a inconformidade já em seu nome: O “Zé” que “não” é, ou mesmo aquele que não passa nem mesmo por homem comum. Não obstante, ainda há o sobrenome cujos sinônimos denotam extremo dissabor.

Temos, pois, histórias talhadas em madeira de lei, ainda que com estilos diferentes que as naturezas dos enredos acabam por exigir. O Santo Mágico é uma história que se abre, larva que aos poucos se transforma em borboleta. Já As Horas de Zenão das Chagas é quase como um elevador que se fecha ante os olhares claustrofóbicos do leitor; uma história sobre o tempo passada em época indefinida. Borboleta ou elevador, as novelas de Laus irrefreavelmente sobem, com destino certo às alturas dos melhores prosadores brasileiros.

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Batman: Noel, de Lee Bermejo


Porque justamente um clássico, Um Conto de Natal, romance curto publicado em 1843 pelo escritor britânico Charles Dickens, é revisitado de modo intermitente, seja pela própria literatura, quanto por meio de filmes, histórias em quadrinhos, novelas e artes diversas. Em Batman: Noel, escrito e ilustrado por Lee Bermerjo, o autor entende a perenidade da obra original e a toma para si naquele recorte urbano e social que tanto é característico de Ebenezer Scrooge quanto de Bruce Wayne. O capitalismo em ebulição presente na obra de Dickens cede espaço à homenagem canônica do Batman. É menos sobre riqueza e mais sobre o individualismo de que se detêm Bermejo. No cerne de Um Conto de Natal, está a redenção – e é precisamente esta a linha mais tênue e complicada pelas quais atravessam as histórias de Scrooge e Wayne.

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Shakespeare: o autor predileto

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Ter um autor predileto não é colocá-lo acima dos demais, mas antes. Aquela fonte segura que lhe aparece nos momentos mais oportunos. Às vezes, você cita o autor ou a autora porque só aquilo lhe fará algum sentido. Ou não fará sentido algum. William Shakespeare já avisou por meio de uma personagem: “A vida não passa de uma história cheia de som e fúria contada por um louco significando nada“. Crer ou não crer nessa ideia é uma questão que a cada um convém responder se assim lhe aprouver. Desta feita que o próprio poeta de Stratford-upon-Avon seja meu autor predileto. Particularmente, sinto-me contemporâneo de suas peças, ainda que escritas séculos distantes e em paisagens tão longínquas que separadas por um Atlântico! Foi com uma edição adaptada de sua peça A Midsummer Night’s Dream, mal traduzida por Sonho de Uma Noite de Verão, que tive meu despertar para com a literatura e, principalmente, para com os livros. Era, então, apenas um adolescente que gostava de cinema e jogar futebol. Aos poucos, entrementes, as palavras escritas tomaram o lugar da bola, mas deixando um bom espaço para os filmes. Logo, rendo também uma homenagem ao autor de Hamlet e de outras dezenas de peças neste 23 de abril, Dia Internacional do Livro. A data comemorativa foi estabelecida por ser a mesma do passamento do bardo, bem como o de Miguel de Cervantes – ainda que, possivelmente, nenhum dos dois tenha deixado a vida neste dia. Shakespeare estava aqui antes de nós e por aqui continuará depois que nós partimos. E parece justo que seja assim.

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Enciclopédia de Vinhos, de Luciano Pires

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Aquele livro indispensável quando você está escrevendo uma ficção sobre um personagem sofisticado e não deseja fazê-lo passar pela história bebendo apenas cerveja ou uísque com energético. Neste capítulo, por exemplo, ele está compartilhando um Fendant (os melhores vinhos do Valais, na Suíça, feitos com uvas Fendant, variedade do Chasselas) com a possível vilã. E a trama se complica quando alguém derruba uma taça de Bardolino (vinho tinto proveniente dos vinhedos que se estendem entre Verona e o lago de Garda, na Itália) sobre a carta que continha as instruções finais do marajá. Para ler à vontade e beber com moderação.

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Control (2007), de Anton Corbijn

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Alguns ídolos culturais (e quais não os seriam?) são oportunamente lembrados mais em função das suas mortes do que em razão de suas vidas. Vida breve, urgente e exagerada também foi a de Ian Curtis (1956-1980), vocalista da banda Joy Division, a quem o diretor Anton Corbijn procura retratar no filme Control. Corbijn faz uso do preto e branco (e seus inevitáveis tons de cinza) para emoldurar essa curiosa existência – o que nos remete a um quadro fotográfico com movimento próprio, justo recorte cinematográfico que tem na lente do cineasta o fiel instrumento de interpretação. E este recorte sobre a vida de Curtis ganha a dramatização vivaz do talento comedido de Sam Riley. O ator, britânico qual Curtis, assume a persona do vocalista de maneira impiedosa, transformando a aventura de um casamento juvenil, da fama inesperada e dos conflitos pessoais (exteriores e interiores) numa poesia sobre a tragédia que espera a todos. As apresentações da banda Joy Division são as únicas fugas as quais Curtis se permite. Suas desilusões e impressões da realidade que lhe foi impingida estão por toda a parte nas próprias letras das canções – como em Love Will Tear Us Apart, sempre apontando para uma ruptura. Mas o tom não é propriamente depressivo, como podemos imaginar ao se tratar de um jovem que deu fim à própria vida aos 23 anos. A corda no pescoço de Ian Curtis não foi trançada por uma doença específica (o cantor sofria de epilepsia), por uma dor de amores (casado, vivera um romance com uma jornalista belga) ou mesmo a sisudez materialista do mundo que conhecera em Manchester. Não há julgamento para um ato cujo propósito mais evidente é não ter propósito algum. E o diretor Corbijn, ao falar de uma história marcada pela morte, termina por fazer de Control um dos grandes elogios à existência, algo que o cinema, e apenas o cinema, é capaz de produzir.

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Memórias da princesa: Os diários de Carrie Fisher

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Diferente do Oscar, o Grammy não se transformou numa cerimônia esperada anualmente em todo o globo. Mesmo que a música tenha um apelo muito mais imediato do que o cinema, as singularidades dos grandes filmes ultrapassam a rapidez de uma canção. Não me entendem mal; não estou fazendo qualquer comparação entre duas formas de arte – seria como afirmar que um filme baseado num romance perde todas as nuances da leitura. Fazê-la seria pura e simples bobagem anacrônica, qual uma sinestesia que não sabe se é cheiro ou sabor porque foi atraída pela sonoridade da cor. Outra diferença entre as premiações tem a ver com a localização: o Oscar premia, quase sempre, produções que percorrem os cinemas de todo o mundo, enquanto boa parte do Grammy tem a ver com a música feita na América para o público estadunidense. Não é por acaso que alguns (ou a maioria) dos indicados e vencedores em categorias como “melhor álbum country” ou “melhor álbum vocal de jazz” são completos desconhecidos no Brasil e, possivelmente, também em outros países que consomem música norte-americana.

leiamemoriasEntrementes, a 60ª Cerimônia Anual do Grammy Awards, realizada no dia 28/01/2018, contou com uma vencedora em especial que uniu os universos cinematográfico e musical de modo singular e quase discreto. A atriz Carrie Fisher venceu na categoria de “melhor álbum falado” com a versão em áudio de seu livro “Memórias da princesa: Os diários de Carrie Fisher“. Carrie faleceu em 2016, aos 60 anos, quando retomava o papel que lhe deu fama mundial na série de filmes Star Wars. No livro, a atriz expõe suas anotações da época em que participou das filmagens do primeiro capítulo da saga estelar. Assim, memórias de 1976 são apresentadas na forma de diário, enquanto as observações de uma atriz e escritora madura se mesclam num humor mordaz. Para além da revelação principal, o caso que teve naquele período com o parceiro de cena Harrison Ford, damos com uma interpretação crua sem ser cruel de quem viveu os dilemas da fama justamente naquele que é, talvez, o grande fenômeno do entretenimento no século XX.

Filha da atriz Debbie Reynolds (notadamente lembrada pelo musical Cantando na Chuva), Carrie Fisher ficou e ficará eternizada no imaginário coletivo como a Princesa Leia Organa. A personagem destemida e rebelde se revela fundamental na destruição da Estrela da Morte, a terrível arma de destruição em massa do Império Galático. Tanta responsabilidade, claro, tem seus efeitos colaterais. O papel da princesa jamais lhe permitiu outros sucessos no meio do cinema e ainda lhe relegou à participante frequente de eventos nerds, como Comic Cons e afins, porque ela tinha de pagar as próprias contas. Essas revelações décadas após o sucesso estrondoso dos três primeiros episódios de Star Wars contrastam com as anotações da jovem atriz, então com 20 anos, gravando apenas seu segundo filme, repleta de vigor e entusiasmo, envolvida num caso sabidamente passageiro com seu colega de trabalho. E este é o grande trunfo do livro: apresentar uma vida interessante, utilizando um fato incomum como motor principal daquelas experiências que, de um jeito ou de outro, acontecem com todo mundo.

Não li (ou ouvi) os demais indicados na categoria “melhor álbum falado”, mas sei da relevância de seus nomes: o astrofísco Neil deGrasse Tyson, o cantor Bruce Springsteen, a compositora Shelly Peiken e o político Bernie Sanders – todos vivos. A repentina morte de Carrie Fisher influenciou no resultado da premiação? Talvez. Mas esta é uma questão que parece não explicar muita coisa. A confluência das artes – literatura, cinema, música… – ainda é a atração principal. As histórias de gente comum são fascinantes por si só, sejam estas memórias de uma atriz ou de uma princesa.

Trecho do livro “Memórias da princesa: Os diários de Carrie Fisher”:
“Não consigo me lembrar bem de quando comecei a me referir a dar autógrafos por dinheiro como uma dança sensual das celebridades, mas tenho certeza de que não demorei muito para inventar isso. É dança erótica sem a parte de enfiar dinheiro na calcinha e sem os malabarismo no pole – ou o pole seria representado pela caneta? Certamente é a forma mais elaborada de prostituição: a troca de uma assinatura por dinheiro, em lugar de uma dança ou esfregação. Em vez de tirar a roupa, as celebridades tiram a distância criada por filmes ou pelo palco. Ambos trafegam na área da intimidade.”

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The Concert in Central Park, de Simon & Garfunkel

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Faltavam poucas semanas para eu nascer quando Paul Simon e Art Garfunkel gravaram esse surpreendente show em 19/09/1981. Mesmo assim, de alguma maneira, eu lá estava – em pensamento, com o coração quase formado física e metaforicamente. E assim me juntei as mais de 500 mil pessoas presentes ao Central Park, em Nova Iorque. A década de 1980 ainda estava por se descobrir; e a dupla Simon & Garfunkel voltava a se reunir após 11 anos afastada. Tudo conspirava favoravelmente. Logo, o film de tarde e a noite do parque mais famoso do mundo receberam diversos hits da dupla de folk rock. Canções como Mrs. Robinson, Scarborough Fair e The Boxer acalentaram corações nascidos e por nascer. E, evidentemente, Bridge over Troubled Water ganhou uma de suas mais inesquecíveis interpretações por Garfunkel. Depois disso, o Central Park jamais foi mesmo; felizmente.

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Love Story – Uma História de Amor (1970), de Arthur Hiller

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Um filme sem pretensão, caso seja possível nenhuma pretensão numa obra intitulada Love Story, baseada no livro homônimo de Erich Segal. Porque é isso e tão isso apenas: outra história de amor, como são todas as histórias de amor, seja no universo de reis ou rainhas, na cosmogonia trágico-romântica de deuses e deusas, ou no dia-a-dia da cidade – Paris prestes a ser invadida pelos alemães, por exemplo. Conhecemos Oliver (Ryan O’Neal) e Jennifer (Ali MacGraw), ou então, nos lembramos de qualquer aventura similar, situação “dejavista” dos amores idos e vividos. Para o diretor Arthur Hiller, Love Story é um diário de intimidades. É uma poesia ou canção, tanto nas horas certas quanto nas erradas. É um boêmio solitário num bar sem saída. É o sonho que acabou: pensamento tergiversante de tudo aquilo que poderia ter sido.

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A Rosa Separada, de Pablo Neruda

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Talvez a grande semelhança entre Pablo Neruda (1904-1973) e Fernando Pessoa (1888- 1935), os dois expoentes supremos da poesia em seus idiomas, seja uma capacidade de escrever sobre tudo. Pessoa, no entanto, definiu a totalidade; livrou-se de todo o resto e ficou com o absoluto (“E vivemos vadios da nossa realidade. | E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.”). Neruda, por sua vez, sublimou o mínimo; porque tudo é natureza, seja feito de amor, política, tempo ou paisagem, como acontece neste póstumo A Rosa Separada, quando o fascínio pela Ilha de Páscoa lhe arvora o único sentido que realmente interessa: a criação. Escreve Pablo:o olhar secreto da pedra, | o nariz triangular da ave ou da proa | e na estátua o prodígio de um retrato | — porque a solidão tem este rosto, | porque o espaço é esta retidão sem rincões, | e a distância é esta claridade do retângulo.

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Trilha sonora de Top Gun

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Ainda acredito que a maior contribuição de Top Gun (1986), dirigido por Tony Scott, tenha sido sua trilha sonora. Num filme clichê da turbina à cabine do avião, nada como uma rivalidade entre caubóis do ar, uma disputa entre nações e um relacionamento amoroso entre Tom Cruise e Kelly McGillis. Felizmente, o namoro na força aérea americana era conduzido pela canção Take My Breath Away, da banda new wave Berlin. E se a Berlin gravou alguma coisa para além deste tema de amor ninguém nunca ficou sabendo. De fato, Take My Breath Away embalou muitas festas de jovens e adolescentes nas décadas de 1980 e 1990. Era o hino de quem ansiava por perder o fôlego ao dar o primeiro beijo. Um hit romântico que ajudou a definir a última década legítima do século XX, já que os anos 1990 têm muito mais a ver com o novo milênio do que com o período que lhe antecedeu. A trilha sonora ainda trazia a pop Danger Zone por Kenny Loggins (talvez a canção mais associada ao filme de Scott) e o rock instrumental Top Gun Anthem, composto por Harold Faltermeyer & Steve Stevens para servir de tema geral da película (mas que acabou se tornando também música de fundo para qualquer reportagem de televisão sobre aviação dali em diante). Para ver em slow motion enquanto você vira e diz o que é preciso.

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Ariel, de Sylvia Plath

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Dissolve-se no muro. | E eu | Sou a flecha, | Orvalho que voa | Suicida, e de uma vez avança | Contra o olho | Vermelho, caldeirão da manhã”. Assim termina o poema Ariel que dá título ao livro de Sylvia Plath (1932-1963). A autora escreveu romances, contos e poemas em sua breve vida, mas foi na poesia que mostrou a força e as dores da palavra escrita. Ariel, originalmente publicado por seu ex-marido logo após o suicídio da autora, foi, então, substancialmente alterado. Ted Hughes, o ex-marido e também poeta, acrescentara poesias de Plath não originalmente pensadas para o livro e eliminara 13 outros poemas que considerou pessoalmente agressivos – Plath sabia da infidelidade de Hughes, possivelmente a principal inspiração dramática por trás de Ariel. Nesta edição bilíngue e fac-similar publicada pela Verus Editora em 2007, o texto original da autora é mantido no que era para ter sido um renascimento, mas se transformou num poderoso testamento literário para o triste desfecho da vida de Sylvia Plath. Ariel também é uma personagem de William Shakespeare na peça A Tempestade, bem como o nome do cavalo que Sylvia costumava cavalgar.

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O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), de Jean-Pierre Jeunet

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A personagem de Amélie Poulain foi um suspiro de otimismo no início deste novo milênio. Lançado em 25 de abril de 2001, o filme-suspiro como se extinguiu com os ataques terroristas no fatídico 11 de setembro. Era o tom que a política globalizada ganharia nos próximos anos. O fenômeno Amélie Poulain não se repetiria. Jean-Pierre Jeunet e Audrey Tautou até tentaram repetir a dose com Eterno Amor (2004), mas o filme pareceu nada mais que uma redundância fora de época. De todo o modo, a personagem continua ímpar. Amélie quebra as regras porque não consegue aceitar o mundo do jeito que ele é. Amélie é o anti-George Bush, um cara que jamais saberá a sensação de enfiar a mão num saco de cereais, quebrar a cobertura do “creme brúlee” com a colher ou observar o rosto dos outros nas poltronas anteriores durante uma sessão de cinema. E a emotiva trilha sonora de Yann Tiersen, calcada no som de acordeão e piano, definiu um jeito francês de ser e sentir.

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Hidden Treasures (2011), de Amy Winehouse

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Demora para acontecer. E é raro. Raro demais. ‘inda assim, aparecem talentos que não se podem explicar, mas sentir. E, muitas vezes, eles se vão cedo demais. Na música, quanto tempo leva para surgir alguém como Billie Holiday, Janis Joplin ou Amy Winehouse? Vozes que se distinguem por uma técnica particular. Vidas que se parecem pelas decisões erráticas e autodestrutivas. Contemporânea deste século XXI, Amy estourou mundialmente em 2003 como álbum Frank. Em 2011, unia-se ao grupo dos que partiram aos 27 anos, do qual já faziam parte ídolos musicais como Jimmy Hendrix (1942-1970), Janis Joplin (1943-1970), Jim Morrison (1943-1971), Ian Curtis (1956-1980) e Kurt Cobain (1967 -1994). Ainda em 2011, o álbum Hidden Treasures (2011) foi lançado postumamente, incluindo músicas compiladas de Amy Winehouse. Há canções gravadas entre 2002 e 2011, passando, então, por praticamente toda a carreira da cantora britânica. As músicas sem lançamento e demos foram escolhidas pelo DJ, produtor e compositor Mark Ronson, parceiro da cantora na regravação de Valerie. Os tesouros escondidos incluem versões da balada romântica sessentista Will You Still Love Me Tomorrow, de Garota de Ipanema (em sua versão internacional The Girl from Ipanema), do standard jazzístico Body and Soul, cantada em dueto com Tony Bennett, entre outras.

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Íntimo & Pessoal (1995), de Jon Avnet

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O caso do diretor Jon Avnet é desta feita curioso: ao permitir o talento de seus atores e atrizes, aproxima-se do quase real e, na mesma medida, afasta-se o máximo que pode da câmera. Um pouco por intenção, avalie-se, outro pouco por falta de opção – típico de um diretor acostumado à televisão. Tal anacronismo dramático se deu com Tomates Verdes Fritos (1991) e também com este Íntimo & Pessoal. Daí que Robert Redford e Michelle Pfeiffer se deixam estar num momento singular da dramaturgia hollywoodiana daqueles anos 1990. A produção datada no meio da década sugere um caminho atípico porque navega em ondas obtusas, porém reconfortantes. E aquele momento no qual a personagem de Redford edita uma matéria quando, sem querer (querendo?), encosta levemente o braço na pele da personagem interpretada pela Michelle como que sintetiza a estrutura narrativa concebida por Avnet. Não se trata de um cineasta clichê, mas de um diretor de elenco de primeira grandeza.

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Matrimônio do Céu e do Inferno, de William Blake

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A dualidade humana acompanha a espécie desde sua aurora, a julgar por suas mais antigas formas de se relacionar com o sagrado e o profano. O poeta e pintor William Blake, que foi contemporâneo do iluminismo e da revolução industrial, é um daqueles casos singulares nos quais não há referências para enquadrá-lo nesta ou naquela escola artística. O Matrimônio do Céu e do Inferno (também conhecido como O Casamento do Céu e do Inferno), na edição da Editora Madras publicada em 2004, traz as gravuras do próprio autor, proporcionando uma experiência de leitura e contemplação ainda mais instigante. Blake também ilustrou outras obras, incluindo A Divina Comédia, de Dante Alighieri, trabalho que ficou incompleto em virtude da morte do artista inglês aos 69 anos em 1827.

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Trilha sonora de Apocalypse Now

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No livro de poemas de 1790 intitulado O Casamento do Céu e do Inferno, William Blake escreveu o seguinte: “Se as portas da percepção estivessem desveladas, tudo apareceria ao homem como é: infinito. Pois o homem fechou-se em si mesmo, até que ele só consegue ver as coisas através de frestas de sua caverna”. Em 1854, Richard Wagner compôs a Cavalgada das Valquírias – ato III da ópera A Valquíria. Em 1899, Joseph Conrad publicou o romance O Coração das Trevas. Em 1954, Aldous Huxley publicou o livro As Portas da Percepção, usando a citação de Blake como referência. Em 1965, a banda The Doors se juntou, tendo por inspiração do nome a obra de Huxley. Em 1967, a banda lançou a canção The End. Em 1979, o cineasta Francis Ford Copolla adaptou o livro O Coração das Trevas no que veio a ser o espetacular Apocalypse Now, ambientando a história em plena guerra do Vietnã. Na abertura do filme, a canção The End, com o vocal marcante de Jim Morrison, como que inicia a busca do veterano das Operações Especiais, Benjamin Willard (Martin Sheen) pelo Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando). No decorrer da película, os soldados americanos chegam com helicópteros para atacar os vietcongues ao som de Cavalgada das Valquírias. Isto é a história. Assim é a arte.

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Chaplin (1992), de Richard Attenborough

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Muita gente conhece Richard Attenborough pelo carismático personagem Dr. John Hammond, de Jurassic Park: Parque dos Dinossauros (1993). Mas Richard também foi um diretor de grandes produções, quais Uma Ponte Longe Demais (1977), Gandhi (1982) e Chaplin — este último protagonizado por Robert Downey Jr. no final de sua primeira grande fase em Hollywood. O filme acabou sendo um fracasso de bilheteria, mesmo com a surpreendente atuação de Downey, muito antes de se tornar o Homem de Ferro. Interessante também que a atriz Geraldine Chaplin, filha do cineasta responsável por Tempos Modernos (1936), interpreta sua avó Hannah Chaplin na película.

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A Queda da América, de Allen Ginsberg

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Mais beat impossível. Ou assim o é se lhe parece. O livro de Allen Ginsberg (1926-1997), publicado em 1973, é a sua própria representação da América – os EUA, caso não tenha ficado claro. Entre referências culturais que vão dos Beatles à Cabala, o autor tece este relato íntimo e político sobre seu país. Se Ginsberg estava na meia idade quando escreveu a obra, talvez também a América esteja passando pela meia idade, em busca de si mesma, tentando descobrir quando o sonho americano se perdeu, triste com o presente e sem esperanças para o futuro próximo. Escreve Allen: “Daqui a mil anos, se houver História | Os Estados Unidos serão lembrados como um paisinho antipático”. Não há como saber se ele estará certo. Mas se tivesse de apostar, ficaria ao seu lado.

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The Walking Dead e A Filosofia

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Discutir ética e moral num ambiente apocalíptico pode fazer ainda mais sentido do que se pensa. Ainda que os zumbis em questão não se pareçam em nada com o melhor momento da humanidade – presumindo que houve/há um momento assim -, algumas ideias tão antigas quanto o próprio pensamento podem ser os pilares para a sobrevivência nesse alvorecer de um novo mundo. No livro The Walking Dead e A Filosofia, vida e morte revisitadas pelas noções de alguns dos grandes autores da filosofia, tendo como ambiente de fundo as primeiras temporadas da série de tv The Walking Dead. O trabalho é organizado por Christopher Robichaud, tendo como editor da série William Irwin.

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