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Do que somos ou fomos quando estudantes, o que advém de nossas ações é o que fica, marca do tempo que se compreende a posteriori. Das equações matemáticas (somas de valor), destacam-se as incoerências deste Estado que nos governa, qual teórico que desdenha a prática. Destas manifestações contra o aumento da tarifa e, também, a favor do passe-livre, têm-se a característica contemporânea da práxis estudantil: não calar para não consentir – e Sartre aparece, novamente, com os olhos tortos, explicando que o silêncio é reacionário.

Em dias de chumbo, os pais e avós destes mesmos estudantes promoveram passeatas, manifestações, protestos e foram além com uma mal chamada guerrilha urbana contra a opressão dos governos militares. Agora que os fardados voltaram para os quartéis, pais e avós assistem nos televisores de plasma ou LCD aos estudantes que saem às ruas dispostos a acreditar (com ligeira ingenuidade, é bem verdade) na causa que tange as vias de suas vidas. Assim, o direito de ir e vir soergue das profundezas utópicas constitucionais e ganha as manchetes dos jornais em interpretações múltiplas.

Alguns, evidentemente, questionam a legitimidade de uma intenção tão otimista quanto o livre acesso ao transporte público. E perguntam: mas se os ônibus não serão cobrados, por que as outras coisas ainda seriam? Pois que se apresenta a lógica invertida que aprendemos massivamente desde crianças: de que adianta questionar o status quo se sempre foi assim? Inadvertidamente, a humanidade percorre sempre a estrada da homogeneização, afastando as diferenças para as vias marginais, despistando a essência diversa da natureza.

Ainda que manifestações sempre causem certa confusão de opinião, com uns a favor, outros contrários, e alguns indecisos, o que os estudantes anseiam é retomar a voz que se perdeu nalgum momento da redemocratização. E o dilema da legitimidade ressurge com a velocidade de um ônibus acelerando, cortando as avenidas conservadoras e, evidentemente, com as catracas completamente obsoletas.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/05/2010.

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