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A experiência artística diz muito das nossas pretensões. Por um espelho criativo, seja uma caneta ou uma filmadora, refletimos para além de si porque é preciso navegar. Entristecem-me aqueles que passam pela vida sem arte; nem chegaram a experimentar a magia que nos distingue nesse mundinho fechado – sem deméritos às outras espécies, que se registre. O planeta é uma explosão viva que busca o equilíbrio. Assim foi; assim será.

Quisera uma arte que dê conta de tudo, ‘inda que não esgote o conteúdo. E nosso recorte, desta vez, é o social. Não há como fugir dele, afinal. E não somos ilha para esquecer dos outros. Por sorte, o social é justamente a companhia primeira desde que deixamos o ventre. Choramos e nos encontramos num ambiente quase hostil, despreparado para nossas necessidades. Logo, aprendemos. Adaptamo-nos. Sorrimos.

A sociedade se revela para quem está do outro lado do espelho. Voyeurs. Um pouquinho de observação e fetiche. Deleites e deletérios. Mesmo assim, há uma vontade essencial de se fazer enxergar. Eis a arte, claro. Mas não exageremos ou inevitavelmente cairemos no mau gosto, nas ofensas e nas vaidades cotidianas que nos afastam de nossa própria origem mística. À arte não convém apelar apenas quando se quer chamar a atenção. Este lado apelativo que beira uma publicidade social não é interessante mesmo quando fala de grandes temas. Injustiças econômicas, preconceitos de cor e tom, intrigas de religiosos: a arte apelativa ignora o debate e parte para uma visão maniqueísta das pessoas. E o maniqueísmo está ultrapassado desde sempre – ainda que alguns insistam em lhes dar um respaldo tolo.

Entrementes, um adendo que não é um desdito: apelar é essencial aos artistas. Não se pode compor um poema sem apelar ao coração; não se pode pintar um quadro sem apelar à imagem que temos de nós mesmos; não se pode criar sem ter a si mesmo e aos outros em mente. O apelo em questão se faz necessário ao princípio da arte: transformar mentes e corações. Esta é a evolução da qual somos partícipes. Você pode pensar em destino, em progresso ou no dia do julgamento final. Pense. Mas fique sempre com uma pontinha de dúvida porque não temos o direito (e tampouco seria divertido) de sermos maiores que todas as coisas. Não somos. Eu não quero ser; nem agora, nem depois.

Façamos, por fim, um apelo ao próprio universo para que nos dê ao menos uma chance da eternidade. Pois a finitude não combina com arte e nem com nossas pretensões.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 17/09/2015.

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